terça-feira, 26 de janeiro de 2010

as janelas abertas de par em par permitindo o arejar indispensável: é o necrotério

de Miguel Angel



Ao voltar a si, o corpo inerte da moça da cama ao lado tinha desaparecido e ele continuava amarrado, mas por alguma razão a atadura de uma das correias afrouxara-se. Sem muito esforço consegue retirar a outra, desamarrando o nó que a segura. Levanta da cama a corre até a porta. Esta trancada, vai gritar, se contém. Anda inquieto pelo acanhado espaço, afasta as moscas que o seguem, desvia das teias de aranha, até ouvir barulhos de alguém se aproximando; volta para o catre, deita-se e finge dormir.
Acompanhado da madre superiora, enfermeiro encarregado da alimentação dos pacientes, empurra carrinho com panelas e vasilhas. Enquanto ele serve num prato o alimento, a mulher observa, pela janelinha da porta, Garcia deitado no catre, parecendo dormir; ao destrancar a porta barulhenta, o homem se atrapalha e deixa o prato cair ao chão.
– Seu desastrado! Estúpido! Limpe isso. Vamos logo! – admoesta a mulher com a voz agravada pela raiva. O homem pede desculpas e vai recolhendo o derrubado. De repente um sino toca alhures e a madre superiora fica atenta, parece preocupada.
– Deve ser meu benfeitor que chegou. Termina isso logo, seu idiota. Quando terminar tranca essa porta!
Ela se afasta e desaparece. O homem, ainda no corredor, depois de limpar o chão, absorto, prepara-se para servir cuidadosamente mais uma vez o prato, e não nota o doutor levantar da cama, chegar até a porta entre aberta e, ladeando as costas do serviçal, sair da cela; Garcia se volta e empurra o homem com violência, que vai cair no interior do aposento, seguido pelo carrinho de rodas. O doutor tranca a porta com o ferrolho. O sujeito, atarantado de surpresa e dolorido após a queda, permanece estatelado no chão, rodeado de restos de comida fumegante, panelas e pratos.
O médico aposta no seu instinto e na sua experiência hospitalar. A distribuição das repartições segue um traçado padrão em todos os hospitais. As celas do corredor onde se encontra estão dedicadas aos loucos considerados perigosos ao convívio social. É o subsolo. A escada que se inicia ao fim do corredor é indicada para os andares superiores. Se dirigindo a ela, lança rápidos olhares nas celas por onde passa e dentro delas apenas vislumbra as criaturas que as ocupam, o que o estimula a correr até a escada e só nos primeiros degraus perceber que está descalço, mas continua a subir: no primeiro vão encontra uma porta, vê, através de o vidro, tratar-se de um laboratório. Após dois lances, uma segunda entrada mostra um grande salão: as numerosas macas, lado a lado, as janelas abertas de par em par permitindo o arejar indispensável: é o necrotério. O doutor abre a porta com facilidade e entra; sem notá-lo, num canto oposto, um homem de avental examina compenetrado um corpo nu deitado numa mesa de mármore. Andando curvado para não ser visto, Garcia se detém no primeiro leito à sua frente, nota que o corpo meio coberto por um lençol, é de um homem. De súbito, um alarme barulhento ressoa pelo prédio inteiro. O homem que examina o corpo à distancia, abandona a tarefa e, com expressão entre curiosa e preocupada, sai do local. Garcia é o único ser vivo entre os muitos corpos que o cercam. Afasta o lençol que cobre o cadáver: é de um jovem oficial ainda vestindo seu uniforme, que o doutor deduz tratar-se de mais uma vítima das doenças que assolam os combatentes da guerra em curso, enviada a tratamento na capital. O alarme ensurdecedor continua invadindo todos os cantos. Rapidamente, o doutor tira suas calças, arranca as do putrescível soldado, do mesmo modo sua jaqueta, e veste-as. Percebe que o morto está tão descalço quanto ele. Devidamente trajado de soldado, sai do salão. Na escada por onde assoma, várias pessoas entre enfermeiros, soldados doentes, freiras e serviçais sobem e descem desordenadamente, procurando, comentando. Ninguém lhe dá atenção. O doutor sabe que o rumo para a porta de saída, só pode ser aquele que toma, sem afobação, se desviando de quem parece andar a esmo; até chegar àlguns metros da grande porta de acesso para a liberdade. Prossegue sem muita pressa. Mas ao ver a madre superiora comandando a busca, furibunda, dando ordens aos gritos, a caixa craniana do médico lateja no compasso do rufo de seu coração, suor lhe molha o corpo inteiro, entretanto, continua. Está a poucos metros da freira comandante. E a vários da porta de saída. A liberdade iminente lhe dá as forças que perdera no cativeiro por um tempo que ainda não pode avaliar. Ao passar perto da freira, de relance percebe que esta o observa e que seus pés descalços chamam-lhe a atenção. Aparentemente impávido, continua a caminhar de cabeça ereta; sentindo o olhar escrutinador da madre superiora nele e em seus pés, chega à frente da porta e se detém; não sabe se estará trancada a chave, se é noite, se é dia. Ao seu redor a movimentação continua ativa e o olhar da freira sobre ele, também.
Repentinamente o grito áspero e alto da mulher ecoa sobre todos os murmúrios.
– É ele! Peguem! – o silencio estupefato dos circundantes é a resposta imediata.
Garcia aproveita os segundos de impasse, levanta a mão, segura a grande maçaneta.
– Seus idiotas! Na porta, é ele. Peguem-no! – ordena com ódio a religiosa carcereira.
Garcia sente seu coração parar.
Ao puxar a porta, fecha os olhos por dois segundos.
Quando os abre, é para ver a noite feita de nuvem densa e preta igual à garganta aberta de uma fera a esperá-lo lá fora.
O mecanismo sangrento do coração volta a funcionar e o empurra de um salto na obscuridade. Cai por terra, se levanta quando deixa de rolar, corre em qualquer direção. Na sua nuca retumba a ordem berrada: “Atrás dele!”
Garcia desloca-se veloz na fuga sem saber em que direção está a segurança, mas a procura em algum lugar do breu que esconde as pedras da estrada ferindo-lhe os pés descalçados. O silencio ofegante dos perseguidores atrás dele o acompanha, apavorando-o ainda mais. De repente, a lua assoma atrás das nuvens de piche, e sua luz benzedeira ilumina a estrada pedregosa; e o igarapé perto dela; e a chalana na sua borda e a vara a bordo, que o doutor, sôfrego agarra, e com ela empurra a miúda embarcação para longe da beira, onde ficam perfilados os atrasados e arfantes perseguidores a observar o doutor viajar caroneiro da lenta correnteza que, dirigindo-se para a segurança da distância, perde-se na trilha da lua refletida na água da liberdade.

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(Extraído do romance “Sobre Moscas e Aranhas de Guerra” de Dalton W. Reis)


4 comentários:

Joao Paulo Mesquita Simoes disse...

É!
Tudo o que falámos ontem no MSN, está aqui retratado.
Sem tirar nem pôr...
Admiro a tua forma de escrever, sem igual. Real!

Abraços deste imenso Portugal

Anônimo disse...

Riqueza de detalhes, suspense,imaginação fertilíssima, fio condutor da idéia impecável!! Tudo SOBERBO!!!Continuas genial, mon cher!
Abraços da serrinha petropolitana!

Mariza disse...

Super-suspense! Prendi a respiração
até o final, torcendo pelo "happy end" para o Dr. Garcia.
Não há melhor sensação do que a da liberdade conquistada, ainda que na página de um conto.
Soberbo!
Um beijo aliviado.
A Condessa Descalça.

Miguel Angel disse...

Como não continuar, lendo esses comentários que incentivam minha paciência e minhas forças a procura da liberdade?
Que grato fico por isso!
Quantos abraços lhes devo!

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