sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Por Dudu Oliva


Era o melhor da região. Uma vez, o desafiaram a caçar o alvo mais difícil de todos, o que está dentro do seu interior. No primeiro momento, ficou enfadado com a perseguição. Entretanto, com o decorrer do tempo, começou a gostar da busca. Quando estava preste a sobrepujar a presa, deixava-a fugir, para retornar ao acossamento.



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quinta-feira, 29 de outubro de 2009


João Paulo Mesquita Simões


Foi pedido aos CTT através da secretaria deste Congresso, que fosse feito com o seu timbre, um selo para marcar a efemérie. O pedido foi autorizado e o trabalho entregue a Álvaro Duarte de Almeida, que copiou o "Timbre Oficial" desenhado por Mário Costa.
Impressos na Casa da Moeda em papel liso, fino ou médio, em folhas de 100 selos com denteado 11,5.
Circularam desde 1 de Outubro de 1943 até 1 de Abril de 1948.


(Baseado em livros electrónicos de Carlos Kulberg)


A base da nossa alimentação vem toda da agricultura. À nossa mesa, as verduras cruas, cozidas, as batatas, o arroz, os frutos, são todos produzidos pelos agricultores que trabalham a terra para que esses bens nos possam chegar à mesa.
Chama-se a isto "Ciência Agrária". Ciência, porque nos traz conhecimento.
Nem toda a gente sabe como plantar couves, batatas, em que épocas, a arte de fazer o vinho, a poda das árvores, tudo tem o seu quê que é preciso saber.
O Conhecimento passa também pela Agricultura.
Conhecer, não é só ir à escola aprender aquilo que os professores nos ensinam. A maior escola que qualquer pessoa tem, é a Escola da Vida e, como diz o ditado, "o Saber não ocupa lugar".
Por vezes, senão a maior parte delas, sentamo-nos à mesa a tomar as nossas refeições, mas nem pensamos como nos chegaram até ali, o processo por que passaram.
Sobretudo nas grandes cidades, em que alguns meninos dizem que o leite vem do pacote! (Aquele que compramos no supermercado).
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terça-feira, 27 de outubro de 2009


Peça em um ato de Miguel Angel



Cenário: sala de modesto apartamento, suja como as poltronas que rodeiam pequena mesa de centro; para completar a mobília apenas armário grande abarrotado de bugigangas e garrafas dentro dele.

Três portas: uma delas à direita é a entrada e saída "para a rua"; as outras duas ao fundo, os quartos. Encostada no armário, servindo-se de bebida, está Ágata. Pouco mais de 65 anos; veste velho roupão; cabelos desgrenhados mostram na raiz cabelos brancos debaixo de tintura de tons avermelhados. Nervosa, bebe de um só gole; faz caretas. Refeita, olha furiosa para Mário, (+ ou - 66 anos), sentado num sofá; despenteado, descalço, mostra manchas escuras no colarinho da camisa, na barriga: é sangue. Calça mal abotoada, vestida às pressas; não se atreve a olhar para ela que anda de um lado para o outro, resmungando. Fica claro que faz algum tempo que estão nessa situação. TEMPO. Subitamente ela bate o copo com força sobre a mesa assustando o homem que se endireita bruscamente.

ÁGATA

Mas o senhor, hein "seu" Mário! Como foi que aconteceu uma desgraça dessas? Por quê? (Ele não se mexe.) Muito bem, vamo'lá. O senhor me aparece aqui com aquela garota, essa tal de Maria que aliás, nunca vi antes. Tudo bem, afinal é o que faz há mais de ano com todas as outras. E, tá certo, nunca me aprontou. (Tom) Mas desta vez as coisas foram longe demais. E pior, na minha casa! Vamos homem, fale. Tó perdendo a paciência!

MÁRIO (Com esforço)

Sabe dona Ágata eu...Tavamos lá, brincando. Aí a garota, de repente tem um troço, desmaia e bate a cabeça na quina daquele criado mudo...

ÁGATA

Conversa fiada. Eu vi o corpo daquela garota, esqueceu? E não era da cabeça que vinha todo aquele sangue, não. (Pausa) Tá bom, deixa pra lá. Não sou nenhum tira pra ficar te aporrinhando. Mas acontece que também tó metida nesta enrascada, entende?

MÁRIO (Empolgando-se)

Entendo dona Ágata, e posso lhe assegurar que sou muito generoso com aqueles...

ÁGATA (Interrompendo-o áspera)

Depois! Depois a gente fala disso. Agora o negócio é outro. Precisamos tirar da minha casa essa garota, ou o que restou dela...certo?

MÁRIO

Certo, dona Ágata. A senhora tá certa.

ÁGATA

Pois é. (Pausa.) Vai ser mole, não. Tem aquele bundão do zelador. Sempre de olho nas minhas visitas.

(Cansada, ela se serve de mais uma dose e oferece outra para Mário, que aceita prontamente. TEMPO. De repente a campainha (imitando sinos) toca assustando-os. Ágata apreensiva, faz sinais de silêncio. A campainha, agora acompanhada de batidas na porta, insistentes. Pausa. Voz em off de SôNIA.)

SÔNIa (Off)

Sei que cê tá aí, mãe!

(Ágata faz sinais para Mário se esconder. Este não parece compreender. Está imóvel, zonzo. Ela vai até ele, ajuda-o a levantar e, lutando contra sua relutância, empurra-o quarto adentro, fechando a porta. Vai até a porta da rua, ajeita-se. Voz em off de Sônia)

sônia (Off)

Como é velha, vai abrir não? (Ágata abre. Entrando) Demorou, pô. Qualé? (Farejando) Tá aprontando algumas?

ÁGATA (Disfarçando nervosismo)

Que nada. Só tava tirando um cochilo.

sônia

Conta outra, velha. (Senta no sofá ) Me dá um gole aí. (Pausa. Bebe) Então? Hoje tem visita, não?

ÁGATA

Ora filhinha, tó sozinha, não dá pra ver?

sônia

"Fi-lhi-nha"? Que tá havendo? Faz tempão que cê não me chama assim.

ÁGATA

Tempão faz que você não aparece por aqui. Alguma coisa em especial?

sônia

Mas ou menos isso. (Tom) Pensei que teria movimento por aqui. Que tá havendo? Tá em decadência o bordel? (Sussurrando, maliciosa, assinalando a porta por onde Mário saíra) Ou já tem gente lá dentro?

ÁGATA

Ninguém, já disse. E então? Que coisa especial é essa?

sônia

É o Pedro.

ÁGATA

Pedro? O conheço? Desculpa, mas é um entra e sai de homens na tua vida que não consigo guardar os nomes.

sônia

Tua melhor aluna, não? Não pode se queixar.

ÁGATA

Deixa pra lá. Lembro dele sim, e daí? Que que tem?

sônia

Seguinte. Os tiras sabem que ele anda com novos contatos e tão pressionando. Aí resolveu passar uns tempos aqui até o clima esfriar um pouco.

ÁGATA

Como é? Aquele pilantra tá querendo dá sumiço na praça se amoitando aqui? Na minha casa?

(...)

sônia

Deixa isso com ele. Velha, pensa bem. Férias. Vai poder descansar desta... (Ouvindo barulho que vem detrás da porta por onde Mário saiu) Cê não disse que não tinha ninguém?

ÁGATA

Não ouvi nada.

sônia

Que tá havendo contigo, hein? Tá bebum?

ÁGATA

Essa história daquele cara se hospedar aqui, só pode piorar minha saúde. (Mais barulho no quarto. Sônia olha interrogadoramente para Ágata, cada vez mais aflita) Olha, Sônia, hoje não tó me sentindo bem. Preciso me deitar. Refletir, pensar nisso...

sônia

Que fricote é esse? Já tá decidido. (Tom) Escondendo alguma, Ágata? Vai, abre o jogo.

ÁGATA

Acontece que... tó esperando alguém, sim. Gente de respeito, né? Por isso acho melhor você sair e segurar o... Pedro esse, lá embaixo.

sônia

Tá me botando pra fora, velha? Corta essa! (Tom) "Gente de respeito". Esses caras não passam de um bando de tarados. (Se interrompe ao ouvir o barulho agora óbvio que vem do quarto) Tem alguém aí, sim. (Cochichando, gozadora) É um deles, mãe? Daqueles "de respeito"? (Sônia vai até a porta e encosta o ouvido, sacana)

ÁGATA

Ora, Sônia! Tem gente, sim. Se divertindo apenas. (Afastando-a da porta) E não fica bem ouvir o que os outros fazem. Vai, sai daí. Senta aqui e toma a saideira. (Vai servir bebida)

sônia

Já esqueceu, “mamãe” que passei minha infância toda "escutando" o que você fazia com teus homens? (Pausa. Senta, pega o copo que Ágata lhe estende) Ah, esquece. Velha, dia desses vás te estrepar. Vai vê só. (Ágata se estremece diante destas palavras. Inquieta, vai até o móvel e se serve de mais bebida. Nesse momento, a porta do quarto se abre lentamente e Mário aparece, andando de costas, olhando para seu interior. Está tremendo. Ágata olha para Sônia que nada percebe. Disfarçadamente vai até Mário e tenta empurrá-lo de volta para o quarto. Este reluta. Sônia beberica, ensimesmada) Em parte cê tem razão, velha. Essa história do Pedro achar que aqui é lugar ideal... Meteu isso na cabeça. (Ágata está conseguindo fazer ele voltar para o quarto. Apalermado, o homem deixa se arrastar lenta, penosamente. Não compreende Ágata, não nota a presença de Sônia que continua seu raciocínio) Quando o sacana aparecer, vou ter um papo com ele. Sei lá, quando ele falou, na hora achei uma boa. (Ágata consegue tirar Mário da sala, mas sem tempo de fechar a porta, fica imóvel quando Sônia se volta e a surpreende com os braços esticados para dentro do quarto. Sônia não parece surpresa) Pois é, acho que cê tá de pileque mesmo. (Ágata sorri desajeitada, tentando fechar a porta. Sônia levanta-se e vai até ela, agora intrigada) Que há com você? (Sônia olha para dentro do quarto sem entrar. Ágata, cansada da tensão, se afasta.) Que negócio é esse aí? (Olhando para o chão) Isso aí... é sangue? Velha, que tá acontecendo? Vem ver isto! ( De costas para ela, Ágata não se mexe.) Eu sabia que tinha mutreta. Mãe! Tô falando com você, porra! (Ágata se resolve. Vagarosamente vai até a porta do quarto)

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Extraído da peça "Um cadáver em casa de mamãe" Para seguir, 2ª Parte: CLIQUE AQUI

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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Por Ed Santos


Os espaços foram ficando reduzidos, as paredes começaram a atrapalhar a circulação e pra ajudar, meu vizinho é arquiteto. Então, é hora de reformar a casa.
Foram alguns muitos dias de consultas em sites especializados, leitura de jornais e revistas de decoração e horas e horas debruçados sob papel e caneta, esboçando as mais loucas e improváveis plantas, vários rabiscos e muitas medições.
Integrar a sala de jantar à cozinha derrubando uma parede deixaria o ambiente amplo e ao mesmo tempo aconchegante. Uma porta balcão de vidro traria mais luz natural ao espaço e levaria ao jardim/lounge, um antigo sonho meu e de minha mulher. A mudança de lado da porta do lavabo presentearia a sala de estar com mais uma parede, mas traria um problema que tinha de ser resolvido: os braços do sofá em “L” deveriam mudar de lado. Comprar outro estava fora de cogitação.
O próximo passo era contratar o pedreiro. Uma indicação da minha sogra resolveu o problema: “Ele é um pouco lento, mas trabalha bem.” Ela afirmou com a garantia de quem teve as paredes pintadas recentemente. Marcamos numa segunda-feira pra acertar a contratação e os detalhes da obra. Valores acertados e todos os detalhes explicados por minha mulher deveriam ser seguidos à risca. “Começo na segunda bem cedo e num mês termino o serviço.” Então tá.
No sábado acordamos cedo e fomos às compras. Piso, cuba, papéis de parede, torneira de última geração (na promoção), e até os tapetes e as capas de almofadas, tudo certinho para ele começar na segunda.
No dia marcado, deixamos as chaves na portaria e fomos trabalhar. Passamos o dia com uma mistura de preocupação e ansiedade e o expediente demorou uma eternidade pra acabar, depois fomos direto pra casa. Como minha sogra já tinha avisado, não foi surpresa nenhuma ver o saldo do dia: uma parede derrubada e uma janela fora do lugar. Pelo menos era um começo. No segundo dia, um muro foi abaixo e a porta do lavabo também foi retirada. Só.
Nos dias seguintes as coisas não mudaram muito, mas mesmo assim confesso pela primeira vez na vida não estava estressado por conta de uma reforma.
Três semanas se passaram e o combinado pelo visto não iria acontecer. Depois não quero desculpa de que foi a chuva que atrasou tudo. Então, na noite passada resolvemos dar um “acelerão” no sujeito. Fizemos uma programação do que deveria ser feito nos próximos quinze dias, já considerando que ele vá precisar de mais uma semana pra terminar o serviço. Pelo que planejamos, até uma tartaruga termina aquela lista com folga.
Hoje, não diferente dos últimos dias saímos para o trabalho e deixamos de novo as chaves na portaria. Minha mulher ligou pra casa assim que chegou no escritório e deu as coordenadas. Até prometeu um adiantamento mais gordo pra animar o cara. À tarde quando chegamos o serviço não tinha andado. Uma “fiada” de tijolinho, um peitoril assentado e um tanque (quase) no lugar. Perdi a paciência. Saí pra comprar pão e quando voltei me tranquei no quarto, de onde só vou sair amanhã. Eu acho. O adiantamento pedido pelo ingrato, por motivos óbvios não vai ocorrer. Neste caso, ele é quem me paga!
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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Por dudu oliva

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João Paulo Mesquita Simões



Nas nossas emissões, estava a faltar algo que nos continuasse a dignificar enquanto povo.
Já se tinham emitido selos da Nacionalidade, Camões, Lusíadas e faltava enaltecer o feito dos Portugueses Além-mar com a emissão aqui exposta: Caravela.
Esta emissão nasce por proposta do Sub-Secretário de Estado das Comunicações, em que este membro do Governo, sugeria uma emissão base que tivesse o Escudo de Portugal, a bandeira da Mocidade Portuguesa e uma Caravela.
O artista Martins Barata, escolhe o tema "Caravela"em 1940, que depois de estudadas as cores e as franquias, foram remetidos à Casa da Moeda em 1941, que apresentou os primeiros esboços em Fevereiro de 1942. Em Março e Abril, estes selos foram emitidos, saindo de circulação em 1 de Novembro de 1957.


(Baseado em Livros Electrónicos de Carlos Kulberg)


O que é uma Caravela


Barco de pequenas dimensões, menor do que uma nau, era usado para pequenos trajectos no mar. Sobretudo entre as naus e terra, no século XIII.
Aprefeiçoadas no século XV, serviram para os Descobrimentos, por serem pequenas, ágeis e terem velas triangulares em três mastros, o que lhe dava uma maior velocidade.
Embora de pequeno porte, algumas destas embarcações vieram da Índia para Portugal.
Sabe-se hoje, através de estudos feitos por Quirino da Fonseca, Jaime Cortesão, Damião Peres e poucos mais que, já aquando das conquistas muçulmanas no norte de África que culminou com a Península Ibérica, novas ideias da prática marítima foram pelos Portugueses aproveitadas.
Assim, somos levados a pensar que toda a bolina que este navio possuía, era devido ao seu baixo porte, umas vezes coberto, outras de boca aberta, de velame latino bastardo, com um mastro a meio ou dois ou três mastros e nestes dois últimos casos, sempre maior o de vante e sempre a meia nau. Para a ré desciam mastros - mastro grande, mezena e contra-mezena - e velas, exigindo a última um bataló. A popa seria redonda e sobre ela existia um castelo de um só pavimento, isto se conclui de pinturas e desenhos do começo do século XVI, os primeiros documentos plásticos conhecidos.
(Baseado na Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira de Cultura, volume 5 pp 1288 a 1290)
A imagem, é de uma carta circulada para os Estados Unidos, com alguns selos que constituem a emissão.
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domingo, 18 de outubro de 2009

Por Ed Santos

Quando a construíram, foram vários operários envolvidos. Trabalho braçal mesmo, daqueles de suar os cotovelos e de muito esforço físico. Dia sim, dia não eu passava por ali. Via do outro lado da rua, entre a calçada e o muro de proteção da linha do trem, também em construção, que estavam levantando uma passarela. Eu que atravessava os trilhos sem o menor esforço pra chegar do outro lado da cidade, e levar as capas coloridas de almofadas que minha mãe costurava para uma loja no centro, fiquei furioso porque teria que subir duas rampas, percorrer por uns vinte metros um corredor numa altura de uns dez, e descer outras duas rampas. Sem contar que o caminho de volta era o mesmo.

Enfim, melhorias na cidade que sempre foi dividida – era o lado rico e o lado pobre, delimitado pela linha do trem. O meio de transporte neste caso não teve culpa nenhuma por estar ali, mas é que a divisão por mais suposta que fosse, era real. Mas isso deveria acabar com a construção da passarela. A integração até não fazia parte do projeto inicial da obra, mas era a esperança dos moradores, por mais que houvesse os como eu, insatisfeitos por terem que andar mais. Afinal iriam acabar com o nosso atalho para o lado rico da cidade.

Toda cidade que se presa, esmera criar um atrativo, um “que” a mais de melhoria na qualidade de vida de seus moradores, e a construção de uma passarela melhoraria em muito a acessibilidade no centro. Os que andam pelo atalho inseguro sobre os trilhos reclamarão apenas no início, mas valorizarão a labuta do trabalhador civil que dedicou muito de seu esforço naquela estrutura crua, mas intimamente ligada às necessidades de todos.

E tem mais. De lá de cima poderão todos olhar sem aquela distinção entre os lados opostos. Todos enfim serão iguais em espécie, cor, credo e simpatia. Poderão esbarrar-se uns nos outros sem que hajam aqueles olhares desconfiados dizendo: “De que lado você é?” Isso, enfim não mais existirá. A igualdade perdurará e todos terão os mesmos direitos e deveres. Olharão a todos à sua própria semelhança, e espelhos serão.

Um dia, não muito distante há de se escutar a história de um casal que se conheceu na passarela. Era um domingo de sol, ela que morava do lado de lá da linha do trem, estava atravessando para ir à outra plataforma, pois era dia de festa na igreja da padroeira da cidade vizinha e todos do colégio resolveram ir junto. Ele, que trabalhou a noite toda na portaria de uma empresa no distrito industrial, ia embora descansar. À pé. Cabisbaixos percorriam o corredor sobre a linha do trem e se esbarraram. Nascia ali o amor, e a certeza de que o encontro não foi por acaso. Eles então, como nas mais fantasiosas histórias de amor seriam felizes para sempre, desde que o viaduto prometido fosse concluído logo. Eles queriam ir de carro na formatura da filha.
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sábado, 17 de outubro de 2009

Gustavo do Carmo

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Crédito da foto: Foto Search - www.fotosearch.com.br

Em um prédio antigo na Barata Ribeiro, quase esquina com a Hilário de Gouveia, mora Margarete. Uma bela mulher de quarenta e cinco anos, pele enxuta sem nenhuma ruga, apesar da idade. Cabelos compridos e ondulados castanhos claros, corpo atlético sem nenhuma barriga. Todas as quintas-feiras ela recebe a visita de Danilo, um jovem forte e bonito, moreno, olhos verdes, cabelos longos e lisos, presos em um rabo de cavalo.

Margarete é bem casada com um empresário, pai dos seus dois filhos. É Danilo quem faz companhia a Margarete durante todas as manhãs de quinta-feira, embora fique apenas duas horas. O marido trabalha o dia inteiro. As crianças estão na escola. Conversam, assistem TV, brincam. Por volta de meio-dia, já almoçado, Danilo deixa o apartamento de Margarete prometendo voltar na próxima quinta.

Danilo segue caminhando pela Barata Ribeiro, atravessa a Siqueira Campos e dá na Nossa Senhora de Copacabana. Na quadra seguinte, entra na Figueiredo de Magalhães e termina a caminhada em um prédio, também antigo. Lá, visita Teresa, uma bela jovem de vinte e cinco anos, loira, cabelos lisos, recém-casada, recém-formada em direito e recém-desempregada. Seu marido é militar e está sempre viajando. Só vê a mulher nos finais de semana. Às quintas, quem vê Teresa é Danilo, que lhe faz companhia. Conversam, assistem TV, brincam.

Às quatro da tarde, Danilo deixa o prédio de Teresa e caminha com destino à Constante Ramos, onde costuma consolar Regiane, uma bancária de trinta e poucos anos. Alta, pele clara, cabelos ruivos cacheados, forte de corpo e mentalidade, mas frágil emocionalmente por ter perdido o marido em um acidente de carro há seis meses. Reginaldo era o amor de sua vida. Namoravam desde a adolescência. Foram casados por apenas cinco anos. Regiane ficou um mês de licença. Nesse tempo foi apresentada à Danilo pela amiga Maribel, prima do rapaz.

Danilo devolveu à Regiane o prazer de viver. Graças ao seu apoio emocional, Regiane voltou ao banco onde trabalha. Os primeiros encontros eram nas manhãs de quinta-feira. Mas passaram para depois das quatro quando Regiane retornou da licença. Aliás, Danilo chega sempre antes de Regiane, pois tem a chave do seu apartamento.

A noite começava a cair sobre o mar de Copacabana, os prédios acendiam as suas luzes, as ruas a iluminação pública, lojas e hotéis os seus letreiros luminosos. Danilo já estava na Avenida Atlântica, quase perto do Forte. Faltava visitar Nathália, uma jornalista paulista que veio transferida para o Rio apresentar o jornal local da tarde na TV.

Nathália é uma morena de olhos claros, cabelos ondulados, seios fartos sempre escondidos pelo tailleur que usa na redação e no estúdio localizado na Lagoa. Trabalha até as cinco da tarde. Depois corre para o apart-hotel em Copacabana, onde está morando, só para encontrar Danilo, um dos dois únicos homens que têm o direito de ver o seu decote e algo mais. O outro é o seu marido Gilberto, um deputado estadual que a aguarda ansiosamente em São Paulo todos os finais de semana.

Um dia, exatamente no mesmo em que Danilo visitou Margarete na Barata Ribeiro, Teresa na Figueiredo de Magalhães e consolou Regiane na Constante Ramos, Gilberto decidiu fazer uma surpresa a sua jornalista favorita. Visitou Nathália em seu apart-hotel. Encontrou-a nua na cama ao lado de Danilo.

Este se vestiu sem nenhuma pressa, deu boa noite ao casal, saiu tranqüilamente do quarto, deixou o hotel e tomou, na Nossa Senhora de Copacabana, o ônibus da linha 484 com destino ao subúrbio, indiferente à reação do marido traído.

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sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Por dudu oliva


– NÃO QUERO TE OUVIR quero ver televisão NÃO QUERO TE OUVIR atormenta outro? NÃO QUERO TE OUVIR tento ler um livro para ser menos ignorante o professor pergunta se conheço um determinado autor que nunca ouvi falar NÃO QUERO TE OUVIR tenho que enviar um e-mail NÃO QUERO TE OUVIR o dia tá com um calorzinho gostoso NÃO QUERO TE OUVIR preciso terminar um trabalho NÃO QUERO TE OUVIR a impressora não está funcionado NÃO QUERO TE OUVIR que música bonita que o rádio tá tocando NÃO QUERO TE OUVIR vou passear um pouco NÃO QUERO TE OUVIR segunda-feira vou ao banco NÃO QUERO TE OUVIR a biblioteca da faculdade ainda tá em greve NÃO QUERO TE OUVIR preciso entregar o livro da minha colega NÃO QUERO TE OUVIR o trabalho que tô fazendo tá uma merda NÃO QUERO TE OUVIR um ventinho balança as cortinas NÃO QUERO TE OUVIR tenho que encher minha cabeça de pensamentos NÃO QUERO TE OUVIR quero saber as causas do efeito estufa NÃO QUERO TE OUVIR notícias de corrupção na tevê NÃO QUERO TE OUVIR não estou mais no quarto NÃO QUERO TE OUVIR estou num túnel? NÃO QUERO TE OUVIR ao longe escuto o barulho de sirenes NÃO QUERO TE OUVIR

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quinta-feira, 15 de outubro de 2009


João Paulo Mesquita Simões



Para terminar a história do Pão Tradicional Português, apresento o FDC e respectivas notas técnicas.

A emissão foi desenhada no Atelier Acácio Santos/Elizabete Fonseca, em papel de 102 mg. O formato dos selos é 40 x 30,6, a picotagem é 13 x Cruz de Cristo em folhas de 50 selos.

Foram emitidos 330 000 selos de 0,32€, 330 000 selos de 0,32€, 230 ooo seos de 0,42€, 230 000 seos de 0,47€, 230 000 selos de 0,68€, 230 000 selos de 0,68€ e 299 000 selos de 0,80€.

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terça-feira, 13 de outubro de 2009

de Miguel Angel

Os pés velozes da deusa do erro.

Nenhum mortal do mundo pode escapar às artimanhas de Ate, o Erro.
Com carícias fatais, a engenhosa deusa envolve o homem em suas tramas.
Nisso reside sua finalidade e o maior prazer de sua existência.
Em remotas épocas, Ate morou no Olimpo, fomentando graves discórdias entre os deuses.
Silenciava as conversações amenas que outrora alegravam as conversas nos festins. Fazia que os olhares divinos se perdessem tristes, por escuros corredores.
Fazia que os imortais discutissem de toda forma.
Insinuava ao ouvido palavras que os induzia a errar.
Botava nas costas pesados fardos de culpa nascidas de seus atos falhos.
Certo dia Zeus (Júpiter) cansou de tanta discórdia.
Cansou de ver os deuses se equivocar e de incorrer ele mesmo em tremendos erros. Irado, o senhor do Olimpo agarrou Ate pelos cabelos e a jogou na terra.
Expulsa da sociedade divina, a deusa passou a viver entre os homens.
Começou a perturbar os corações, a desviar a mão que se movia num gesto amável para transformá-la em instrumento de seus enganosos desígnios.
As Preces – humildes e coxas filhas de Zeus –, ainda desfazem muitas de suas intrigas, mas não conseguem reparar completamente o mal que Ate espalha.
Noite e dia seguem os rastros da maléfica divindade.
Mas Ate possui pés ligeiros e, sem se deixar pegar, anda pelo mundo tirando a tranqüilidade dos mortais. Diverte-se os enganando. Fingindo lhes mostrar o bom caminho, leva os homens por vias tortuosas de que só resulta o mal.
Nem sempre as Preces chegam a tempo.
Muitas vezes, quando chegam, Ate já passou e só encontram em seu caminho lamentos de arrependimento ou rebelião.
E já não resta outra coisa que consolar aos desditados mortais, constantemente enganados pelas artimanhas da deusa.
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domingo, 11 de outubro de 2009

Por Ed Santos

Ocorre que no condomínio onde a Paula morava estavam ocorrendo coisas muito estranhas. Todos os dias em frente à porta do 302, Dona Célia se deparava com um cocozinho de cachorro. Ela saía todas as manhãs para caminhar nas quadras arborizadas do bairro, e passava obrigatoriamente em frente à porta do apartamento do seu Cícero. Mas o ex-síndico do prédio tinha um dálmata. E dos grandes. E no prédio, pelo menos naquele andar, não havia nenhum cachorro de porte pequeno. O cocozinho tava lá todas as manhãs, pelo menos há umas duas semanas. Era sempre a mesma coisa, ela saia o cocô tava lá. Ela voltava, o cocô havia sumido. E ninguém sabia dizer quem teria limpado.

Outra coisa que era muito estranha era que o Samuel, o zelador, percebeu que o lixo era todo revirado às sextas-feiras. Nestes dias ele fazia a faxina no seu apartamento e quando ia na lixeira, via que tudo estava uma bagunça só. Não sabia a quem recorrer porque o prédio estava momentaneamente sem síndico, pois o seu Cícero foi acusado de má administração e foi destituído em assembléia geral.

A vida em comunidade é uma aventura e tanto. Os deveres são vários e os direitos um tanto reduzidos, e quando se é preciso união, todo mundo pega seu banquinho e vaza. Ninguém responde por ninguém, muito menos por si próprio. Até parece que estamos num outro lugar, num daqueles países do alto ocidente em que o calor humano dá lugar ao individualismo insensível e gélido.

A Paula sim que era a simpatia em pessoa. Conversava com todo mundo no prédio, desde o porteiro ao jogador de futebol que morava na cobertura. Nos dias em que estava de folga do plantão no hospital, sempre ficava lendo no banco em frente ao hall de entrada e aproveitava pra conversar com todos. Ali ela testava sua simpatia e sua popularidade com os condôminos. Num dia, enquanto lia despretensiosamente um livro de poemas ilustrados pelo namorado designer, ouviu as duas moradoras do 409 reclamarem para o seu Cícero que estavam sumindo suas calcinhas do varal. Seu Cícero tentava esquivar-se afirmando que não teria nenhuma responsabilidade sobre o fato e que procurassem o Samuel, o zelador.

Fechando o livro ao mesmo tempo em que se levantava, Paula acabara de lembrar que havia estendido roupa naquela manhã. Ao chegar na área de serviço do apartamento, tarde demais: suas calcinhas não estavam lá. Tarde demais pra chorar, porém hora certa de decidir. Ela seria candidata a nova síndica do prédio.

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sábado, 10 de outubro de 2009

Gustavo do Carmo

Crédito da foto: Dudu Mazzocato (http://www.kitesurfmania.com.br/ksm/photonews/photonews.asp?id=108)


— Pai, preciso falar uma coisa para o senhor.

— O que é? Rosna o senhor gordo e de cabelos brancos.

— Eu estive pensando esses dias e concluí: cansei de ficar te dando prejuízo ao ficar de mordomia em casa, acordar tarde, dormir durante o dia e varar madrugada. Cansei de procurar emprego pela internet. Cansei de tentar ser escritor, ficar fazendo aqueles blogs que ninguém visita.

Cansei de esperar ser descoberto por alguma editora ou meio de comunicação para trabalhar. Cansei de ser chamado pelas costas de vagabundo.

— Hum, isso é muito bom.

— Eu já tenho 35 anos. Já me sinto velho para ficar em casa à toa. Amadureci e vejo que eu devo sim trabalhar na peixaria do senhor. O negócio é da nossa família, né? Quem sabe um dia não a transformo numa grande multinacional do pescado?

— Que ótimo, meu filho! Que ótimo. Espero que você tenha muita sorte no novo ramo que escolheu. Como não tem experiência vai precisar gastar muita sola de sapato atrás de um simples emprego de carregador de peixe. Tem que começar de baixo: carregando os engradados cheios de gelo e cortando e limpando os peixes. Um dia, quem sabe você não monta uma peixaria pra você e sua família? Quem sabe não consiga sustentar o seu filho por trinta anos como eu sustentei você e sua irmã?

— Mas por que não posso trabalhar com o senhor? O senhor não me quer aí na Peixe Fresco?

— Eu gostaria muito, Geraldo! O meu maior sonho era ver você e sua irmã tomando conta da peixaria para que eu pudesse me aposentar e descansar tranquilo. A sua irmã venceu na vida e conseguiu exercer a profissão de advogada dela. Mas depois a sua ajuda já bastava.

— Então? Por que está falando para eu procurar outra peixaria? Não quer minha ajuda? Bem que a minha mãe falou que o senhor prefere dar valor aos seus sobrinhos do que eu!

— Eu queria muito, meu filho! Só que a sua ajuda chegou tarde demais! Acabei de receber o decreto de falência e a ordem de despejo! Estamos aqui retirando o estoque, limpando tudo para entregar o ponto ao proprietário. Estamos completamente falidos. Acabou a mordomia! Pode mandar cancelar a TV a Cabo porque não tem mais dinheiro na sua conta pra pagar! E trate logo de arrumar o emprego de peixeiro que você prometeu!
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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

por dudu oliva

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quinta-feira, 8 de outubro de 2009


João Paulo Mesquita Simões


Antigamente, este pequeno pão de trigo, redondo e achatado era cozido sobre um caco de telha aquecido nas brasas, particularidade que deu origem ao seu nome. Aliás, há diferentes maneiras de o cozer: sobre uma chapa de ferro, numa frigideira, no fundo de uma panela de barro ou de ferro, ou sobre uma laje chamada “pedra de tufo”, sendo que todos estes utensílios estão a escaldar. O bolo do caco leva batatas-doces, alho, farinha de trigo, fermento de padeiro, água e sal. Costuma ser um pão de fabrico caseiro, mas é fácil comprá-lo aos vendedores ambulantes que o confeccionam em grandes alguidares de barro e o cozem em fogões instalados na rua, já que o hábito é comê-lo quente. A cozedura é rápida; quando o bolo adquire uma crosta fina ligeiramente queimada, vira-se com a mão ou com uma espátula, e deixa-se cozer do outro lado. Depois, abre-se ao meio, cobre-se com salsa picada e barra-se com manteiga de alho que se derrete e embebe o miolo.


(In: Pagela dos CTT)

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domingo, 4 de outubro de 2009

Por Ed Santos

Aos 13 anos eu aprendi a fumar. Roubava alguns cigarros da minha mãe que naquela época fumava um cigarro chamado Continental. Meu pai era sapateiro e fumava um cigarro “mais fraco”, que não me lembro o nome agora, mas que tinha filtro branco (dizem que faz menos mal).

Eu era o segundo de uma prole de 4 irmãos. O primogênito teve meningite quando bebê e cresceu com uma deficiência mental. Os caçulas, gêmeos, cresceram com uma má formação congênita no sistema nervoso por conta das dificuldades do parto e tomam medicamentos todos os dias (os médicos dizem que foi por causa do cigarro que minha mãe teimosa, não deixou durante a gravidez).

Fui o único que não apresentou problemas de saúde. Minha mãe, durante os dois primeiros anos de casada não conseguiu engravidar, então resolveu adotar uma menina, filha de mãe solteira, que não podia cuidar da criança. Ela, que já estava ruinzinha da saúde morreu em poucos dias e minha mãe passou a fumar entre dois e três maços de cigarros por dia por causa da depressão. Meu pai que também fumava já naquele tempo, só trabalhava.

Mesmo com o cigarro entre os dedos os dois tentaram de tudo para que minha mãe engravidasse e depois de muitos tratamentos ela conseguiu pela primeira vez. Meu pai ficou muito feliz quando soube que enfim teria seu sonho realizado: ter um filho homem.

Não sei, e acho que nem eles e nem os médicos sabem o que aconteceu com o tratamento, pois foi um sucesso. Nos quatro irmãos nasceram sempre num intervalo de um ano no máximo e a quinta gravidez só não aconteceu porque meu pai morreu antes. Enfisema pulmonar.

Minha mãe com o choque parou de fumar, mas já estava muito debilitada para enfrentar a vida e criar de quatro filhos sozinha. A saída era então que eu fosse trabalhar desde cedo, mas a pneumonia me abateu e não pude fazer nada mais. Me resta apenas contar os tantos cigarros que minha mãe fumou durante meu velório e torcer para que a gente não se encontre tão cedo.

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sábado, 3 de outubro de 2009

Gustavo do Carmo

Foto do Shopping Leblon/RJ encontrada na internet

Fazia oito horas que estava no shopping. Acompanhava a esposa que tentava fazer compras. Tentava porque em cada loja que ela entrava, ficava uma hora experimentando vestidos e calçados. Não levou nenhum deles. Dizia que não ficavam bonitos nela. Mesmo provando mais de dez peças por boutique.

Até as seis primeiras lojas, Naldo a acompanhou. A partir da sétima, decidiu sentar-se no banco mais próximo ao lugar onde estivesse Sabrine. Não agüentava mais bater perna no shopping. Sabrine já não precisava e nem queria mais o marido ao seu lado, reclamando. Ela o autorizou a fazer o seu roteiro pelo shopping. Ele estava livre para ir a uma livraria, a uma banca de jornal, babar pelos aparelhos eletrônicos ou procurar alguma roupa ou acessório masculino.

O que Naldo queria mesmo era descansar e comer alguma coisa. Subiu até a praça de alimentação, no quinto piso do shopping. Estava no primeiro. Encontrou o setor das lanchonetes lotado. Aliás, o shopping inteiro estava lotado. Era véspera de Dia das Mães. Voltou para a área das escadas rolantes, onde tinha alguns bancos. Sentou-se exausto. Apagou.

Não viu o tempo passar. Acordou em uma cama. Não a sua, mas uma forrada com lençol de algodão puro. Recostava a cabeça em dois travesseiros forrados com fronhas do mesmo tipo. Estas tinham estampas de coração, bordadas a mão pela dona-de-casa ou sua filha que, com certeza, costumava dormir naquele quarto, pois a roupa era cor-de-rosa e de solteiro. A cabeceira era de mogno trabalhado.

Uma bela moça entrou no quarto. Pele alva, cabelos negros, olhos amendoados, também da cor de ébano. Usava um vestido azul claro de linho com renda branca como o laço de fita de cetim ajeitado em seus fios ondulados e repartidos ao meio. Parecia ter um corpo bonito, mas estava escondido sob a roupa comportada. Ela perguntou:

— Você está bem?

— Onde eu estou? Quem é você? O que eu estou fazendo aqui?

— Eu te encontrei caído lá na varanda dos fundos. Estava delirando. Por isso eu te trouxe para cá.

— Que lugar é esse? Eu estava no shopping com a minha esposa.

— Shopping? O que é isso?

— Shopping Center. Local onde a gente compra roupas, eletrodomésticos. Tem boutiques, lanchonetes...

— Nós fazemos as nossas roupas com a modista. O papai e o meu irmão, no alfaiate. Eletrodomésticos nós compramos na Avenida Rio Branco, na Rua da Carioca ou na do Ouvidor. Agora, lanchar, nós lanchamos em casa ou na confeitaria. É isso que você quis dizer?

— Mas em que mundo você...

— Calma. Você ainda está delirando. Dorme mais um pouco. Eu vou falar com a minha mãe.

Ainda sem entender onde estava, Naldo acatou a ordem de descanso dada pela bela jovem e permaneceu deitado no quarto que lhe parecia muito antigo. Naldo começou a desconfiar que voltou no tempo. Estava sonhando. Levantou da cama e se viu vestido com uma camiseta branca e um short de malha. Roupas bem diferentes da camisa pólo e calça jeans que usava no shopping com Sabrine.

Aproximou-se da porta e ouviu a moça conversar com um homem que logo acreditou ser o irmão, pois uma mulher, que era reprimida naqueles tempos, nunca falaria para o pai ou marido que encontrou um homem na rua. A menina também parecia ser muito ingênua. Naldo ouviu a moça implorar para que o irmão mantenha segredo para os pais. O rapaz, aparentemente mais velho, prometeu e entrou no quarto.

Naldo, rapidamente, voltou a se deitar na cama quando sentiu alguém se aproximando. O homem, um moreno alto e musculoso, olhos apertados pela maçã do rosto fortemente inchada, cabelos raspados nas laterais e na nuca, entrou no quarto e perguntou autoritário:

— Vem cá, rapaz! Quem é você? De onde você veio?

— Eu não sei. Eu estava no shopping fazendo compras com a minha esposa, quando sentei no banco, dormi e acordei aqui.

— Aqui no quarto da minha irmã???? Perguntou o homem musculoso, furiosamente, puxando Naldo pela gola da camisa.

— Calma, Ulisses. Eu que o trouxe para cá. Interveio a moça, preocupada. — Ele estava caído na varanda. E também disse que estava nesse tal de shopping com a esposa.

— Então você tem esposa. E como veio parar aqui? Cadê ela?

— Eu não sei. Deixei ela em uma boutique e subi para a praça de alimentação no quinto andar.

Os dois irmãos ficaram perplexos com as palavras que ouviram do hóspede.

— Noêmia, esse cara é maluco. Como é que você traz um cara desses pra cá? É a última vez que eu vou acobertar essas ações de caridade que você tem mania de fazer. Da próxima eu falo para o papai.

— Ele deve ter perdido a memória. Disse a moça, já apresentada pelo irmão com o nome de Noêmia, que tentava compreender a loucura de Naldo, sem sequer desconfiar que ele veio do futuro.

— É verdade. Eu não me lembro de mais nada. Esqueci até o nome da minha esposa.

— Está bem, disse o irmão, resignado. — Eu vou dizer para o papai que você é um amigo meu do quartel e estava na guerra comigo.

— Guerra? Que guerra?

— De que planeta você veio, hein? Da Guerra Mundial, ora! Eu estou começando a achar que você é um extra-terrestre! Brincou o rapaz.

— Desculpa, eu não me apresentei. Meu nome é Noêmia.

— E o meu é Ulisses.

— Prazer, Reginaldo. Mas os mais íntimos me chamam de Naldo.

— Fique à vontade, Naldo. Eu ia te emprestar algumas roupas, mas vi que a Noêmia já fez isso. Vamos para o meu quarto antes que os nossos pais te vejam no quarto dela.

— Posso perguntar uma coisa?

— Claro.

— Que dia é hoje? Em que ano nós estamos?

— Credo. Você está desmemoriado mesmo. Parece até que esteve na guerra. Hoje é dia vinte de abril de mil novecentos e quarenta e sete.

A revelação da data já seria suficiente para Naldo despertar do sono. Já era noite quando foi apresentado, como parceiro do front de Ulisses, à mãe do casal de irmãos, Dona Gertrudes. Uma senhora muito bondosa como a filha, que vivia na cozinha, exceto na hora em que Naldo foi encontrado, porque estava costurando na sala. Ela era alta, magra e tinha cabelos castanhos claros e compridos, presos num rabo-de-cavalo.

Naldo já estava sentado à mesa de jantar quando chegou Seu Floriano, um senhor gordo, baixinho e com calvície acentuada. Estava apreensivo e pálido. Queria contar uma notícia importante para a família, mas ficou com vergonha de revelar na frente do cara que acreditou ser o amigo do filho.

O desespero de Floriano era tanto que ele nem deu atenção a Naldo durante o jantar. Aliás, nem quis jantar. Ficou sentado na poltrona de couro, lendo jornal. Além da poltrona, havia uma cadeira tripla. Não existia televisão. No buffet ficava o rádio, daqueles de madeira, cunhada como um arco, com alto-falante amarelado. Dona Gertrudes, os dois filhos e Naldo jantaram na mesa, em silêncio.

O visitante sentiu que o clima da família não estava bem. Quis ir embora. Ulisses não deixou. Naldo insistiu. Seu Floriano, querendo ficar a sós com a família, pediu ao filho para deixá-lo ir. Ulisses explicou que ele não poderia sair sozinho na condição que ele estava. Disse ao pai que ele estava desmemoriado e acabou confessando que ele mesmo (para proteger a irmã) o encontrou na varanda da cozinha, dizendo que estava em um tal de shopping-center fazendo compras com a esposa.

— E como ele veio parar aqui? Perguntou o pai, assustado.

— Ele não sabe.

Enquanto ouvia pai e filho discutirem, Naldo começou a ter alucinações. Parecia que ia voltar ao presente. Parecia que Sabrine o acordaria para voltar pra casa, com as mãos carregadas de sacolas. Naldo teve um estalo.

— É isso! Esta casa aqui ocupava o terreno do shopping onde eu estava. Eu voltei sessenta anos no tempo!

Todos na casa ficaram assustados com as palavras de Naldo. Tiveram certeza de que ele era louco. Naldo ainda disse que vários prédios e casas da rua iriam abaixo para dar lugar a edifícios que tocariam no céu. O mar em frente seria aterrado para transformar-se em uma via expressa. A cidade se tornaria bastante violenta. O Brasil iria perder a Copa de 1950 no Maracanã para o Uruguai por 2 a 1, com gol de Gigghia no final, calando os torcedores no estádio, mas a seleção ainda ganharia cinco vezes o torneio. A primeira conquista seria em onze anos.

Seu Floriano ficou ainda mais pálido. Desmaiou. Nem ouviu o resto da profecia de Naldo. A mulher e os filhos o acudiram. Reginaldo saiu de fininho de casa. Sentiu o ar fresco do Rio daqueles bons tempos, como o cheiro da enseada que ainda não estava aterrada. Ao lado da casa da família onde se hospedou, havia um colégio onde Noêmia e Ulisses estudaram. No outro lado da esquina, existia outra casa. A cidade era calma apesar do trânsito já um pouco intenso de bondes e carros. Naldo estava pronto para voltar ao presente.

Depois de algum tempo foi chamado. Por Ulisses. Voltaram para casa e sentaram-se na varanda. O filho do dono da casa contou que o seu pai está à beira da falência e ofereceram-lhe uma boa quantia em dinheiro para vender o terreno da casa. A casa onde ele e a irmã nasceram seria demolida para a construção de um prédio de dez andares que abrigaria vários escritórios comerciais.

Naldo desculpou-se por ter assustado a família e prometeu evitar falar do futuro. Ulisses não se aborreceu. Disse que o amigo tinha razão. Um dia, a casa realmente acabaria e eles teriam que ir embora. Os filhos precisavam se casar. Naldo e Ulisses atravessaram a noite conversando na varanda calma e segura de um Rio que já se foi. Sessenta anos depois, Sabrine comprava no shopping o sapato que procurava há séculos.
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sexta-feira, 2 de outubro de 2009

por dudu oliva

Um samurai está na janela do quarto; quer decepar a minha cabeça. Bebo chá de camomila e vejo novela mexicana. A atriz olha para mim; começa lacrimejar rios, inundando o recinto. Quase morro afogado. Recebo um bilhete anônimo do pombo-correio: “ Até quando vai esperar estrelinhas e parabéns na prova do primário? A professorinha Helena Gervásia fugiu com o vovô Gepeto e Pinóquio; estão no maior love no estômago da baleia”. As cortinas se movimentam suavemente. Ele está aqui. O meu coração frita uma porção de pipocas que se espalham por todo canto do quarto. De repente, o samurai franze a testa; pede desculpa pelo engano e vai embora. A atriz fica feliz; sai de camisola transparente correndo a cavalo pela praia. Na manhã seguinte, dizem que uma cabeça caiu na piscina do prédio e os moradores ficaram injuriados de não poder usá-la num dia abafado. Pego o meu revólver com balas de prata. Matarei mais um político maligno do Planalto Central.

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quinta-feira, 1 de outubro de 2009


João Paulo Mesquita Simões



Com o aparecimento do milho, cuja cultura começou a ser praticada nos Açores depois de 1600, o pão de trigo deixou de ser a base da alimentação dos habitantes da região, sendo substituído pelo pão de milho, cereal que no século XIX era já a plantação dominante. Hoje em dia, o pão de milho de farinha branca escaldada, leva também um pouco de farinha de trigo a que se dá o nome de “doçura”, e que tem por finalidade tornar o pão mais macio. A massa leveda com fermento renovado, “o crescente”, e os pães tendidos com uma tigela, são cozidos no forno de lenha, sobre umas folhas verdes que pertencem a uma planta cuja flor tem a forma de um fuso, pelo que são chamadas “folhas de rocas”. Também é costume usar folhas de bananeiras, a de milho, de milheiro, de coquilho e até de couve. Ao saírem do forno apresentam um aspecto crocante e uma cor dourada e uma abertura lateral, através da qual se entrevê um pouco do miolo. Entretanto, as folhas caem, deixando desenhos sinuosos no solo dos pães.

(In: Pagela CTT)


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