terça-feira, 1 de setembro de 2009

O segundo disparo de misericórdia

de Miguel Angel

O ódio contido, a bebida, a vingança jurada e o repuxar das cicatrizes dos açoites, o empurraram porta afora e dando um pulo, gritou:
- Filho da puta! – atirou duas vezes sem acertar o oponente. Edimilson virou-se, gritou – Cala a boca, desgraçado! – e disparou: a bala atravessou o cangote de Carlos que soltou a arma, para levar as mãos à ferida e apertar as cordoveias ansiando deter o sangue que esguichava e, tossindo de sufoco, caiu, vomitando vida em estertor.
Sem deixar de vigiar de esguelha o corpo de Carlos se debatendo em agonia – Mais um cabra de merda, abatido! – disse Edimilson, voltando rapidamente a mira em direção de Charles, que a tudo assistira, sem ter tido a chance de sacar seu revólver. – Vamos levantando os braço, gringo! – Ordenou o barbudo.
No interior da casa, Ronin, deduzindo o contratempo, foi até a sala e cautelosamente espiou da janela. Viu o soldado fazendo mira a poucos metros de Charles que, sentado na charrete, mantinha os braços erguidos.
– Quantos filho da puta tão lá dentro, gringo?– gritou Edimilson.

*
A mil metros dali, cinco homens, um sargento e um embaixador plenipotenciário à frente, galopavam rumando à casa.

*
Charles se mantinha tenso, aguardando qualquer descuido para atacar.
No interior, Ronin afastou a cortina da janela e apontou cuidadosamente. Mas Edimilson recebera aquela medalha não por alcaguetar, mas pela presteza em combate, e percebendo o movimento na janela, apontou e atirou. Foram os segundos que Charles ansiava e Edimilson temia: o Colt brotou na mão de Charles com agilidade de feitiçaria e atirou. A bala entrou pela orelha do valente soldado alojando-se no crânio e ali permaneceu; a hemorragia instantânea foi esvaziando o cérebro de sangue que escoava pelo nariz, olhos e ouvido; Edimilson, olhando supresso para Charles, dobrando os joelhos vagarosamente, tentava retomar o fuzil que lhe caíra das mãos. O segundo disparo de misericórdia que o derrubou de vez, partiu da arma fumegante que Ronin empunhava na porta de entrada.
–Esse idiota deve ter mandado avisar o quartel. É melhor dar o fora logo, companheiro! Falta muito? – exclamou Charles, guardando o revólver no coldre.
– Melhor perder o que falta a arriscar o que temos. MacMahon terá que se contentar com o que sobrou. Vamos sair daqui! – Disse Ronin, pulando a mureta; trepando na charrete, de imediato cobriu com a lona as mochilas repletas.
– Vamos embora, camarada! – Ordenou Ronin. Charles e seu látego manobraram os cavalos para partirem em veloz escapada.

*
A 500 metros do lugar, sete cavalos a todo galope, dividiam um Sargento, cinco praças e um espavorido embaixador norte-americano, visando a casa que lhe fora cedida temporariamente pelo Império do Brasil. Ninguém deu atenção à charrete passando em sentido oposto.

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Fragmento do romance "Moscas e Aranhas de Guerra" de Dalton W. Reis

2 comentários:

Joao Paulo Mesquita Simoes disse...

Este teu excerto do teu novo romance, está de facto muito bom.
Como já nos habituaste, os teus textos têm vida, quase, senão mesmo, nos transportam para a cena.
Obrigado por estes maravilhosos fragmentos que partilhas connosco!

Abraços deste imenso Portugal!

Mariza disse...

Oi, Miguel.
Lembrei-me dessa cena, já, já... Eis a sua incrível habilidade - o jeito com que escreve e cativa-nos a atenção - as cenas que descreve em seus romances jamais são esquecidas.
Beijos,
A Condessa Descalça.

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