domingo, 2 de agosto de 2009

AS HISTÓRIAS DO AMADEU - O SOMBRA

Por Ed Santos

Um objeto que nunca está no nosso alcance e que a gente nunca leva porque sempre esquece em algum lugar foi o responsável pelo início da amizade entre o Amadeu e o Carlos. Os dois trabalhavam na mesma empresa em Guarulhos e só se viam de passagem ou no intervalo do almoço, ou quando o Amadeu ia comprar cigarros e doces com o Sombra, um cara que trabalhava com o Carlos na fundição e que tinha de tudo pra vender no seu armário. Era com ele que o pessoal se abastecia. Lá se podia comprar desde cadeado, até graxa para dar aquela lustrada na botina com biqueira de aço.
A empresa estava instalada num terreno grande, num espaço onde deveriam caber uns dez campos de futebol ou mais, sem exageros. Ficava no final de uma rua sem saída, de terra batida, longa, e que recebia diariamente uma grande quantidade de ônibus fretados das empresas daquele pedaço. Isso tudo e a falta de manutenção geravam dois problemas: no tempo seco, um temido e avermelhado pó que impregnava a pele e os pulmões; quando chovia, um lamaçal digno do pantanal matogrossense. Talvez por esse motivo que as empresas ofereciam transporte coletivo para os funcionários.
Num dia chuvoso, o último de um período de cinco dias de chuva ininterrupta, o ônibus do Amadeu não passou no horário e o obrigou a tomar uma condução. No momento de descer do coletivo encontrou o colega, mas ainda não amigo, Carlos:
- E aí, muita chuva?
- Pois é. Logo hoje, além de perder a hora esqueci o guarda-chuva!
- Quer uma carona?
- Valeu.
O caminho foi longo. Além de molhados, os dois tiveram que desviar de inúmeros buracos e enfrentar o lamaçal e a fúria dos carros que lhes jogavam água a todo momento.
Chegaram os dois irreconhecíveis no vestiário. Banho tomado, uniforme vestido. Vamos pra lida! Durante o dia o Amadeu foi comprar cigarros com o Sombra lá na fundição e viu que ele tinha guarda-chuvas pra vender. Comprou um, pediu pro Sombra “pendurar” até o vale e foi encontrar o Carlos na sua bancada:
- Pra você!
- Por quê?
- Pra você usar, ué!
- Não quer mais me dar carona no seu?
- Não é isso. É que vou embora mais cedo e talvez você precise.
- Acho que ganhei um guarda-chuva e você ganhou um amigo! Quer um cigarro?
- Não. Já comprei no Sombra.

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