terça-feira, 28 de julho de 2009

Deus há de querer tição assanhado.

de Miguel Angel


Não tem essa de homem incapaz de matar.
Dependendo de hora e lugar, homem vira bicho, mata, e se for
preciso, come o inimigo. Como os índios. Odiava índios. E
matador covarde, aproveitador de mulher tonta.
O solavanco do bonde retomando a marcha, a sineta do condutor,
e as vozes do povo misturadas trouxeram-no de volta.
Sobressaíam os gritos de ordens dos soldados se pavoneando
na calçada; de lá alguém gritou, parecendo vendedor de
loterias: “Aí, Corintiano!” De dentro do bonde, lá da frente:
“Três a um, seu! Quer mais?”

- Deixa disso, nego, o crioulo vai aparecer pra já.
- Ué, cê faz o serviço assim que assoma o nariz pela porta. Pra isso basta um. E eu tô ocupado agora. Ou tá com medo do preto, Corintiano?

Tudo parou. Ouvido de repente surdo. Fez-se silêncio na sua cabeça, todas as forças do instinto se uniram fortalecendo mirada; lince no fundo do bonde vislumbrando-o por inteiro, avançando e furando os obstáculos até chegar na frente, de onde partira a voz inimiga reconhecida e tantas vezes relembrada.
A mirada estancou na nuca inesquecível.

- Medo, eu? Já meti faca nas costas... nos peitos de muito
preto safado...

O branco cadelo! O peçonhento amarelo estava lá. Fria certeza, decisão maquinal, parecia ensaiada. De pé imediatamente, andando devagar até a frente, licença a quem estivesse atrapalhando seu caminho, como bom crioulo educado “conhecendo seu lugar”; ele conhecia seu lugar: lá na frente do bonde!
E o lugar da faca estava besta de conhecer: na cintura, esperando. Andavam sempre juntos, desde aquela vez. Já estava com ela quando jogou o preto degolado no poço abandonado.
Esperava mais cabras voltarem dia desses, para terminarem o serviço. Mas aquilo lhe acontecendo, nunca poderia imaginar: ele caçando no meio da grande cidade de São Paulo, em pleno dia de revolução e dentro de um bonde. Sentiu a outra cabeça se encher de sangue, latejar entre as pernas no compasso nervoso do coração. Devia ser pelo deleite que estava
prevendo. “Deus queira, orgulho meu.” Deus há de querer tição assanhado.
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Do romance "A Cena Muda"

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