sábado, 4 de abril de 2009

TARDE DEMAIS 4

Por Gustavo do Carmo

Crédito da foto: PeteHuntToons / http://br.olhares.com/palhaco_de_vidro_i_foto2015121.html


Voltavam do dia mais feliz de suas vidas. Ivanhoílson carregava a sua agora esposa Maria Amélia no colo. Seu corpo malhado no Batalhão do Corpo de Bombeiros, onde trabalhava, lhe daria totais condições de segurar a amada com tranqüilidade. Mas o peso do vestido de noiva, que devia ter uns dez quilos de renda e cinco de cristais, além do cansaço acumulado com a ansiedade pelo grande momento, a preparação, a chegada na igreja, o atraso, os quarenta e cinco minutos da cerimônia, as duas horas de recepção dos convidados, as oito horas de festa na Marina da Glória e o grau elevado de álcool no sangue tornaram a tarefa árdua.

O casal precisava mesmo era dormir, mas Ivanhoílson estava ansioso para ter a sua primeira noite de amor com Maria Amélia, que guardou a sua virgindade para a ocasião.

Assim que entraram no apartamento, financiado em 120 meses pela caixa econômica, Maria Amélia viu algumas cartas no chão perto da porta, provavelmente passadas por baixo pelo zelador. No colo do esposo, forçou seu corpo para baixo para pegar as correspondências. Era a primeira vez que visitavam o apartamento depois de mobiliado.

Ivanhoílson tentou dissuadir a mulher de ver as cartas. Queria partir para o finalmente. Mas Maria Amélia insistiu na idéia. Desceu do colo do marido e folheou os cinco envelopes um a um. A pilha tinha uma conta de luz, uma de telefone, outra de celular, uma mala direta de cartão de crédito e um envelope todo colorido.

Ivanhoílson ainda tentou impedir Maria Amélia de ler, mas ela esquivou-se e abriu depois de dizer:

— Que envelope infantil é esse? Nós nem temos filhos ainda. Deixa eu ver.

No interior da correspondência havia quatro papéis que pareciam convites, além da saudação. Ela leu murmurando, sob protestos sem efeito do noivo

“Parabéns, Ivanhoílson! Você é o novo membro do Clubinho Feliz das Gelatinas Gelelé! Vamos comemorar a sua entrada te convidando para o show do Palhaço Clau-Clau, com direito a um sorvete para você, o papai, a mamãe e o irmãozinho ou a irmãzinha”.

Maria Amélia teve uma crise de riso e perguntou:

— O que é isso aqui?

Ivanhoílson só não perdeu a cabeça com a mulher, que foi a sua primeira namorada, porque não queria estragar a noite tão esperada. Constrangido, explicou-se, exasperado, com a voz quase embargada de vergonha:

— Isso é um clubinho que eu queria entrar quando era criança. Só tinha dez anos quando juntei as dez embalagens da gelatina, preenchi a ficha de inscrição e pedi para a minha mãe colocar no correio. Eu queria participar do programa da Lolôra na televisão para ganhar um brinquedo, mas nunca me mandaram a carteirinha. O programa acabou, eu cresci e esqueci do clubinho. Não acredito que mandaram essa porcaria bem na hora do meu casamento, quinze anos depois, quando eu não preciso mais.

— Tá renegando a infância, querido? Hahaha!

Ivanhoílson não deu resposta. O casal foi para a cama. Era a primeira vez que Ivanhoílson teria direito de ver o corpo nu da bela moça por quem se apaixonou. Mas a cada botão dos quinze de pérola que o noivo soltava, Maria Amélia tinha um acesso de riso. Ele conheceu a nudez da amada, mas as gargalhadas da moça, ao lembrar em voz alta do Clubinho Feliz das Gelatinas Gelelé convidando para o show do Palhaço Clau-Clau com direito a um sorvete para toda a família, broxaram o casal.

Não broxaram apenas na primeira noite de núpcias. Broxaram na lua-de-mel em Paris e toda vez que iam para cama. Ivanhoílson pediu o divórcio. Não queria permanecer casado com uma mulher que não parava de rir dele.

Decidiu processar, por danos morais e materiais, o fabricante das Gelatinas Gelelé. O juiz julgou a causa improcedente. A empresa provou que Ivanhoílson se recadastrou e vinha utilizando os benefícios do clube já depois de adulto.

Meses depois descobriu que Maria Amélia casou-se com um oftalmologista paulista. Ivanhoílson decidiu afogar as mágoas em um show do Palhaço Clau-Clau. Em seu último número, a lapela gigante do palhaço jorrou um líquido vermelho e viscoso que não era gelatina.

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