terça-feira, 10 de março de 2009

Preciso mentir a mamãe...

por Miguel Angel

Ilustração: Projeto de capa
(...) Raquel encostou-se no parapeito e soluços sacudiram-lhe o corpo. Ezequiel achegou-se, cobriu-lhe, com a sua, a mão que agarrava a balaustrada. Ele se deu conta que as lágrimas eram de fúria quando ouviu sua voz.
– Viu? Ficou inutilizado do juízo desde que aquela sonsa de minha irmã foi levada pelos paraguaios. E vêm essa discurseira doida de índios bestializando sua avó, sempre nos culpando, ameaçando. Não bastavam os paraguaios malditos rondando por aí? Que nada! Dentro da nossa própria casa tem esse perigo! Esta noite, quase consegue matar uma de nós. Foi lucidez ou errou o tiro? Vamos esperar até o dia que mate a gente? Hoje decidi. – ela agarra a mão dele. Aperta-a. Fita-o nos olhos, suas lágrimas secaram, mas um outro brilho as substitui. É determinação mortal. Ezequiel presente o desatino e tenta desviar.
– Amenhã de menhã, os véios mais eu, tamo de viagem pra chapada. Vosmecês vem coa gente, não vem? – Raquel com a ideia fixa de um rancor antigo, pede.
– Só vosmecê pode nos ajudar a terminar com essa agonia maluca.
– O que Ezequiel pode fazê?
– Deve haver um jeito de... – O negro reluta em admitir que entendeu o solicitado e tenta retirar a mão, de entre as dela. Ela se o impede e, apertando-a com mais força, leva-a até o colo, encosta o corpo no dele.
– Sei o que sinhá me pede? – se esquiva de olhar para ela, pretextando procurar lua que não há, pergunta. – Onde a lua se esconde quando não ta à vista, sinhá? – tenta se separar, ela lhe agarra a cintura, aperta-o contra si.
– Nos meus olhos, Ezequiel. Acha ela. – ele obedece e ouve. – Me ajude, antes que eu mesma o faça.
– Sinhá faria o que me pede?
– Não permita, Ezequiel.
– Que me pede, sinhá? Seu pai... meu senhor.
– Aquele homem não é meu pai e deixou de ser teu amo desde...
– Nem Raquel é mais sinhá! – interrompe ele, encarando o céu novamente, onde só encontra densas nuvens sombrias. Mas a boca da sinhá insiste, encostada em seu ouvido, e admite:
– Por isso não ordeno. Imploro.
O negro reluta, arranca sua mão presa entre as dela, dá um pulo no parapeito e no chão do trilho que rodeia a casa, antes de se embrenhar na noite às léguas, ouve a sentença de Raquel:
– Se não tu, serei eu!

*

A noite toda Ezequiel resmunga indecisão, até o dia raiar, com desatino traçado.
Na entrada da casa grande, Ezequiel amarra no poste as bridas do cavalo que puxa uma charrete, e chama Raquel com um grito. Espera pouco e lhe pede para deixar sair o pai, quer conversar com ele.
Notando a vara de pescar que segura numa das mãos, ela corresponde ao pedido e volta ao interior da casa, sem nada lhe perguntar.
Minuto depois, algo ressabiado, mas contente com a liberdade, o velho aparece na porta, e ao vê-lo, se achega a Ezequiel com interrogação no olhar. Quem fora escravo, apazigua o velho com uma conversa que Raquel, observando os dois homens desde a varanda, não pode ouvir, mas que provoca em seu pai sorrisos e gestos acriançados. D. Eduardo segura a vara de pescar que Ezequiel lhe oferece e se deixa conduzir até a charrete. Ambos sobem e ao trote, se afastam sob o olhar ansioso de Raquel.
*
Na beira do rio Aquidauana, D. Eduardo e Ezequiel observam a chalana que, segura por cordas, sacoleja nas águas agitadas pelo vento, prenunciando temporal.
O preto volta à charrete estacionada a pouco mais de dez metros e, pretendendo tirar as varas de pescar de seu interior, se demora na trama das linhas.
De onde se encontra, o velho Eduardo observa atentamente a tardança de Ezequiel que, de costas para ele, manobra a travanca das varas. Então, vagarosamente, chutando os cascalhos da margem, o velho senhor se acerca da embarcação, sobe nela e a desata; com ajuda de um bastão, empurra-a afastando-a da margem, senta no seu interior, joga fora o remo e se ajeita, segurando-se nos costados; depressa a correnteza captura a chalana e o rio se encarrega de arrastá-la curso abaixo. Ezequiel larga das varas, e se vira para observá-lo se distanciar até perder-se na curva do rio. Levanta seu olhar para o céu e a tormenta lhe sinala com um relâmpago, que está por chegar. Agastado, joga longe as varas, trepa na charrete e governa o cavalo para o retorno.
Irrompe a chuva torrencial ao chegar à porta da casa grande. Na varanda, imóvel, está Raquel, no mesmo lugar de onde vira partir os dois homens; nenhum dos dois se importa com o aguaceiro que os encharca. Ezequiel vai onde ela está. Ao chegar perto, sacode o rosto para tirar a água que lhe anuvia o olhar. Raquel não tira a dos seus.
Um relâmpago e um trovão:
– Sem importar do jeito, só quero saber se vai voltar.
Um segundo relâmpago e outro trovão:
– Não. – Assegurou Ezequiel.
Antes de entrar na casa, Raquel disse para si e ele ouvir:
– Preciso mentir a mamãe. E preparar a mudança.
------------
Fragmento de capítulo do romance "Moscas e Aranhas de Guerra" de Miguel A. Fernandez
Em finalização.

4 comentários:

Joao Paulo Mesquita Simoes disse...

É um belo texto, com a linguagem tipicamente brasileira daquela gente com pouca instrução, a que já nos habituaste.
Também aqui em Portugal a conhecemos através, das novelas brasileiras e, sobretudo a primeira, já há muitos anos! "Gabriela cravo e canela" de Jorge Amado.
Continua com o teu magnífico trabalho.
Parabéns!

Abraços deste lado do Atlântico

Anônimo disse...

E X C E L E N T E! Como sempre.
Uma delícia de ler. Como sempre.
Beijos,
A Condessa.

日月神教-任我行 disse...

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lin disse...

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