quinta-feira, 12 de março de 2009

Crónica - O "herói"


Por João Paulo Simões



Já me tinham falado da notícia. Ainda não tinha ouvido.
Aqui à dias, ao ver as notícias na SIC, senti-me no mínimo revoltado.
Uma menina brasileira de nove anos foi violada pelo padrasto. Dessa violação surge uma gravidez de gémeos, ao qual a criança não resistiria.
Levada ao hospital por sentir uma dor na barriga, é informada a mãe do facto. Imediatamente o aborto foi feito.
Agora o ridículo da situação e, pergunto eu... Estamos mesmo no século XXI?
A Igreja, pela voz do Arcebispo do Recife, vem a público dizer que o aborto é ilegal, que vai contra as leis de Deus. As leis de Deus não podem ser sobrepostas às leis humanas.
Pergunto eu. A Igreja continua retrógada, não é? A Igreja prefere matar uma criança, e seus filhos gémeos em nome de Deus? Afinal, estamos em que tempo? A Igreja não evolui porquê?
Pois!
É por essas e por outras que as pessoas fogem cada vez mais da Igreja!
Não sabe evoluir, acompanhar a Sociedade...
Mas mais grave!
Esta criança que não teve culpa das violações do padrasto, ainda é excomungada, bem como a família e os médicos que a salvaram!
Resta dizer que o violador do padrasto sai como herói da cena, embora com uma ligeira repreenção por parte da Igreja. "Também teve culpa, mas não é excomungado".
Ora bolas para os clérigos!
Ai se eu mandasse!
Que me perdoem os Leitores pela expressão. Mas eu mandava cortar os "ditos" ao indivíduo, para se lembrar para o resto da vida do que tinha feito!
E o Lula subiu na minha consideração!

2 comentários:

Giovani Iemini disse...

sim, que se fodam os religiosos!

MiguelAngel disse...

A decisão do arcebispo de Olinda e Recife, que fique claro, tem alcance apenas religioso. Para um fiel comum, não pertencente à hierarquia católica, seu peso é simbólico, sem conseqüências na vida, digamos, civil. Faço tal observação porque, a julgar por certas reações, ficou parecendo que médicos e familiares foram alvos de uma punição legal. Que se note: d. José atuou de acordo com o que está expresso no Direito Canônico. As circunstâncias do caso talvez devessem ter empurrado o arcebispo para uma posição de conciliação. O aborto implica a excomunhão automática, é fato. Mas ele está investido de poder para considerar circunstâncias atenuantes — e, nesse caso, elas são muitas.

O que lamento em tudo isso? O fato de que considero que a posição da Igreja Católica, contrária ao aborto, é, na sua raiz, inclusive a histórica, um avanço que, se me permite o aparente pleonasmo, humanizou o homem. A oposição do cristianismo antigo ao aborto foi um fator decisivo para a expansão da religião no chamado mundo helênico — e as mulheres aderiram à, vá lá, “nova religião” com entusiasmo. Também lhes interessavam a defesa da monogamia e a proibição do adultério.

A aparente “crueldade” de d. José, como li em algum lugar, se assenta num princípio que, pouco importa o que digam os militantes da morte, protege a vida. O que me parece é que faltou ao bispo, zeloso dos princípios, pesar as circunstâncias para que sua decisão não restasse contraproducente: em vez de chamar a atenção para a defesa da vida, apenas reforçou, ao olhos do público, uma espécie de rigidez que parece ignorar as fragilidades humanas. Acertou no princípio; errou no tom. Em tempos em que tudo se faz pensando apenas no marketing, d. José é mesmo um prodígio de falta de tino publicitário.

Críticas
Foi o que bastou para que o considerassem uma besta do Apocalipse e, na opinião de Arnaldo Jabor, a expressão da Igreja reacionária de Bento 16. Inimigos da Igreja Católica, como uma seita neopentecostal dona de partido político e canal de televisão, que faz mais "milagres" por hopra do que Cristo ao longo de 33 anos, tentaram transformar o arcebispo de Olinda e Recife numa espécie de ogro de uma pobre menina de 9 anos. Impressiona-me, como sempre, o fato de que qualquer religião pode impor a seus fiéis a disciplina que bem entender, e isso será considerado matéria de “liberdade religiosa”. Já os católicos, não! A Igreja parece a casa-da-mãe-joana. Todo mundo se acha no direito de discordar do que é, notem bem, uma ORIENTAÇÃO RELIGIOSA ou uma DECISÃO DE ALCANCE APENAS RELIGIOSO.

E, claro, Lula também resolveu tirar uma casquinha do caso, criticando o bispo, com toda a autoridade teológica e eclesiástica de que é investido. Fora do poder, quem sabe decida se candidatar a papa...
R. Azevedo

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