sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Por Dudu Oliva
Achavam que ele passaria o natal sozinho, mas ele guardava sua família no sótão e ceava com eles junto à mesa posta todos os anos. Depois, guardava novamente os bonequinhos do playmobil.


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Há pessoas que crescem profissionalmente e afetivamente, mas não dão valor a quem sempre está torcendo por elas. Bobo e imaturo sou eu que ainda as valorizo.
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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009



Por João Paulo Mesquita Simões



A Batalha dos Atoleiros – Depois da Morte do Conde de Andeiro, D. João I de Castela, marchou sobre Lisboa para a sitiar, seguindo outro exército Castelhano para o Alentejo.

Assim sendo, o rei de Portugal não podia sair de Lisboa, tendo enviado o Condestável em auxílio das gentes alentejanas.Munido de 300 lanças e 1500 homens, Nuno Álvares Pereira marchou para o Crato, onde a população já oferecia resistência aos castelhanos comandados pelo Prior do Crato. Este, manda um mensageiro a seu irmão, propondo-lhe que passasse para o lado castelhano, o que foi veemente repudiado. As tropas castelhanas levantaram o cerco que faziam à Vila da Fronteira e marcharam contra os Portugueses. Nuno Álvares Pereira esperou as tropas inimigas no lugar de Atoleiros e, formando em quadrado, conseguem vencer os castelhanos que se põem em fuga.

Não foi um grande combate, mas tornou-se notável por ter avigorado os ânimos indecisos de alguns portugueses, tendo assim intimidado os castelhanos, afirmando a nossa força no campo de batalha.

A imagem do selo, mostra bem como o autor do desenho, Alfredo Roque Gameiro, imaginou esta batalha.Gravura a talhe doce por George Harrisson e Normand Broad, foram emitidos 400 000 selos de $05 verde azeitona, 800.000 selos de $40 sépia, e 50.000 selos de 1$00 lilás vermelho. Circularam de 27 a 30 de Novembro de 1928 em papel pontinhado em losangos, denteado 14 de linha.
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

De Miguel Angel


Durante todo o trajeto pela Estrada do Mar não se olharam nem se falaram, até chegarem a São Paulo. No longo percurso, saboreando aquela onda inquietante de esperança e pesar mesclados, que o risco e o obstáculo vencido emprestam, perguntou-se uma só vez se Pierre, o chofer, manteria a discrição, até certo ponto cúmplice com seu gesto. Gorjeta extra ajudaria a imobilizar sua língua. Isso sempre dava certo com serviçais. Como Ezequiel, o mordomo. Mas este, ao contrário, era para ter a língua agitada e informá-la dos passos de Ricardo. Pelo menos os poucos que lhe interessavam. Depois, no silêncio da mansão vazia, foi o Carnaval mais ruidoso e pecaminoso já passado em toda sua vida. O Corso Paulista solto na rua; o seu titânico Momo, preso dentro dela.

Ao fim da jornada, alquebrada a alegoria, Ovídio espreguiçou no recôncavo das entrepernas. “Exausta, mas não saciada, teve de parar, ainda ardendo de volúpia”, antes de adormecer.

Certeza a branqueia queria era só seu picaçu. Além disso, gosta de mordiscar o pinguelo dela até fazê-la chorar de satisfação!

Derramou lentamente um pouco de bebida nas costas dele; isso o fez reagir arrepiado, virando-se e expondo o “picaçu” já ereto. Sua dureza ela constatou ao apertá-lo carinhosamente. Sorriram simultaneamente, cúmplices no mudo comentário sobre tamanho e solidez. Servindo-se da garrafa, encheu de novo o cálice ainda com resquícios de cocaína, e, após beber um gole, deixou o resto para bochechar. Inclinouse e borrifou em cima da ponta escura, antes de introduzi-la naturalmente na boca. O líquido borbulhante provocou nele mais arrepios. A língua acariciou a glande com rápidos movimentos, fazendo o frênulo tremer. Restos de bebida derramando da boca umedeciam e perfumavam ainda mais o fruto carnoso do seu “cabeça-de-negro”. Sentiu os dedos procurando a vulva ardente e tão molhada como o que possuía na boca.

Facilitou o encontro com movimento lânguido.

E tinha secura por mulher branca que gosta de sem-vergonheza. “Sinhá”, “Vosmecê”. Assim gosta que a chame. Graças a Deus tem tarimba prós assuntos de bimbada. Contrariamente não estaria levando essa vadiação tão boa. Não é, seu bicho preto?

Sabia perfeitamente quantas vezes se encontraram desde o dia em que o trouxe a São Paulo, praticamente seqüestrado. Conta que fazia questão de manter em dia, a fim de se martirizar impudicamente aguardando o próximo encontro naquele rancho escondido em algum subúrbio. Sustentava todos os seus gastos com a intenção de não vê-lo solto por aí. Queria tê-lo só para si, e o tinha! Escravo exclusivo. Necessitando-a, esperando por ela como ar, como refeição, como água, ou melhor ainda, cocaína e champanhe! Impregná-lo dela, mantendo-o dependente, fendedor acorrentado a seu corpo. Era sua vingança por estar sentindo o mesmo. Estaria amando o belo animal? Melhor seria tudo não passar da dolorosa, doce e perversa volúpia. Ou o nome que tivesse essa urgência quase constante de ser penetrada por ele, invadindo todas suas fendas, apaziguando o furor de seu útero, consumindo e sugando todas as faculdades mentais que os diferenciavam dos animais.

A tetéia vai chegando e, sem dizer “Oi”, arranca suas calças, pega nas prendas, amola seu canivete de fazer gosto té demais. Quando tão excitado, no trevareio, pede pelo amor de Deus, mas ela ri fazendo chapuletada na barriga que nem o jumento da fazenda, diz ela. Segura a vara que nem chicote até esporrar, espalhando pra todo lado. Mas fantasiar amar um negro ignorante que só sabia falar - se tanto - de sítios e terras das quais sonhava ser proprietário um dia? Um preto provavelmente fugitivo? Melhor era tirar essas idéias da cabeça e se deleitar com a outra cabeça dele, a que estava na sua garganta. O resto não importava, ele não precisava pensar.

Mesmo sendo branca, peituda ela, tinha esse pegadio com ele, pena metida nesse abusar do copo. De sociedade, respeitada e rica. Mocetona! Mas pra ele, quenga sempre quente, e gosta de lambuzar o traseiro com azeite e trastejar nele, levar beliscão nos peito. A buchela dela mordia seu picaçu igual nunca sentira antes. Quem diria, que mocambeiro feito ele, teria chamego com uma branca? E muito da perfumada! Antes dela só bronha ou o catinguento das decaídas, isso sobrando alguns contecos pra pagar a bimbada! Assim mesmo com medo de pegar doença. Troço feito na preocupação perde toda graça o tesão. Bestagem de trepar com aquelas lambisgóias, com mais frescuras de “sinhás” que as próprias. Mas esta aqui, vistosona por demais!

A grossura de milho, saindo e entrando até a garganta; pouco depois passar a língua em toda a extensão; as mãos acariciando os testículos e sentindo a fragrância; a volúpia de proporcionar prazer similar não lhe permitia considerar a possibilidade de aquilo acabar. Talvez ele estivesse apaixonado por ela. “Fantasia divertida e diabólica, Magda.” Por que não? Afinal, não existia chance nenhuma de ele encontrar mulher assim feito ela, branca, fogosa e gostosa, rica e... puta!

“Se fugisse da mesma maneira que fez o outro negro safado?”

Antes disso o mandaria matar, ou ela mesma o faria.

Tipão de mulher! Chaleira só da sua birimbela, o que interessa pr’ela. Só depois de muita sacanagem montava naquela égua branca, trotando até arrebentar. Ela não disse que finalmente tinha conseguido tora de home vistoso na sua vida? Até escrevera versos pr’ele! Gostou disso, seu tição do inferno?

No momento em que, abocanhador, mergulhou entre suas pernas sem ela precisar largar o que possuía na boca, nem terremoto moralista quatrocentista conseguiria arrancá-la dali ou impedi-la de continuar. Logo mais, atingindo o limite do gozo, ele virou-se estabanado, arrancando o membro da boca dela. Nesse movimento inesperado os dentes rasgaram de leve a pele. Ele mordeu o lábio, mais por surpresa e aflição, e olhou o membro ferido: sangue se misturava à saliva e ao champanhe.

Ela fez menção de levá-lo de novo à boca como a ampará-lo, mas ele deu-lhe um tabefe e um empurrão, fazendo a garrafa de champanhe virar, derramar o resto sobre a cama e ela tombar de costas. Com o impacto as molas rangeram ruidosamente. Montou sobre ela agarrando com força a garganta até o limite do sufoco; apartando-lhe as pernas, furioso a penetrou. Rebolando o toco morno e sangrento, esfregava-o, entranhado na vagina em vaivém vigoroso, abocanhando lábios e garganta alternadamente. Acelerou os movimentos ao sentir os músculos da vagina fechando em torno dele, sugando-o. E então...então o orgasmo vindo a paralisá-la pouco a pouco, espasmo voluptuoso a eletrificá-la, vindo, bem-recebido, bem pungente, vindo, “bem-vindo amor!” Nem sequer os anjos do céu (não estava no zênite?) nem capetas do inferno (não estava também nele?) teriam poder para deter o momento que ansiava eternizar. “Morrer assim”, soluçou entre dentes. No frenesi à beira do desmaio, o último som ouvido foi o alarido do gozo dele, o esfrega-esfrega dos seios suados no seu torso e o compasso das molas da cama. Desfaleceu molhada de esperma, sangue, champanhe e lágrimas.

Fragmento de capítulo do romance A Cena Muda de Miguel Angel Fernandez

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domingo, 22 de fevereiro de 2009

Por Ed Santos

Saímos cedo, por volta das 18h00. O horário de verão ajudava no percurso, porque dirigir à noite não era legal, nunca gostei. Ela vestia uma saia verde com listras brancas e uma blusa branca, gola careca. O salto discreto era baixo, e quem olhava de longe tinha a impressão de estar vendo uma mulher de estatura médio-alta. Colar e brincos de prata (eu acho) ornamentavam a silhueta em contraste à maquiagem retocada na saída do trabalho. Na mala, todos os acessórios e badulaques que as mulheres levam a qualquer lugar, qualquer viagem, além de outras duas malas e uma bolsa mais pesada que chumbo, e que não deu pra ver direito o que tinha dentro porque eu não tive paciência de ajudar a preparar na noite anterior.

Na minha bagagem, duas cuecas, duas bermudas, uma sunga, xampu, fio dental, pasta e escova de dente devidamente enrolados numa das três camisetas de lycra, daquelas que não amassam e conseqüentemente não precisam passar pela incandescente sensação de ser prensada por um ferro de passar. Tudo muito bem acomodado numa bolsa pequena que eu uso pra ir pro futebol. Não preciso de mais nada para passar um final de semana em Ubatuda. Quem olha de fora do carro só imagina que vou numa festa por conta do terno e gravata que estão num cabide pendurado por detrás do meu banco. Mas é isso mesmo, só não consigo entender como o Dorival, morando na praia resolve casar com as formalidades de como se estivesse em São Paulo. “Coisa da minha sogra”, defende ele que conheceu a noiva a não mais que três anos e já está casando.

A intenção é parar em São Luis do Paraitinga para dormir e seguir viagem no sábado pela manhã. Tomamos um café na pousada e tocamos. O casamento é as 12h00. Imagina só o calor insuportável que deve estar naquela igreja. Não consigo me ver defronte ao padre por mais de trinta segundos mantendo a pose e garantindo ao Dorival que estou muito feliz pelo casamento dele e por ele ter me convidado pra ser padrinho. Padrinho de um casal que vive numa cidade do litoral e que resolve casar na igreja, ao meio dia de um sábado de verão. Porque que não casam à beira-mar, roupas leves, brancas e despojadas, descalços ao som de Janis Joplin?

Pensando no casório enquanto olho pro meu terno alugado, vejo que ele é até muito bem alinhado e que as riscas de giz são discretas. A camisa branca tem os punhos e o colarinho bem cuidados e a gravata vinho também era muito bonita, mas não estava com o nó feito. E agora? Vou ter que me virar pra dar um nó nesse troço!

Quero saber quem foi o cara que inventou o nó de gravata.  E mais, como ele descobriu que ela só funcionaria com um nó? Ainda mais um nó tão difícil de dar. Com certeza o cara que inventou a gravata não morava na praia, se morasse, teria inventado uma bermuda com a barra desfiada, bolso rasgado e com um cinto sem fivela, apenas uma tira amarrada num nó de marinheiro.

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sábado, 21 de fevereiro de 2009

Gustavo do Carmo

Quando criança Fernandinho chorava de medo ao ver um bate-bola na rua. Se a turma de clóvis batesse forte a bexiga de plástico duro e colorido no chão, aí mesmo é que ele se desesperava. Pedia a mãe pra voltar para casa e ela o debochava, primeiro aos risos: “Deixa de ser bobo!”, mas depois perdia a paciência e esbravejava com o filho.

Preocupada com o medo do menino, a mãe de Fernandinho deixava o baile de carnaval no clube do bairro antes da hora. Para desespero da irmã mais velha de Fernando, que era obrigada a interromper o prazer de recolher todos os confetes que eram jogados no chão por outros foliões. Ela ia para os bailes com um saco na mão e voltava com dois. Mesmo saindo às pressas do clube, Fernandinho abria o berreiro quando encontrava um enorme bando de bate-bolas no caminho de volta para casa.

No ano seguinte, o medo de Fernandinho dos palhaços assustadores continuou. Já não ia ao clube, com medo de encontrá-los. Um dia, ao visitar a avó em Ramos, acompanhado do pai, encontrou mais um grupo deles.

Na segunda-feira de carnaval, voltava da casa da tia materna ao lado da mãe quando se assustou com uma dezena. Fernandinho não chorava mais à toa, mas neste dia se desesperou tanto, que ficou aos prantos e perdeu o ar de tanto soluçar. Desmaiou. O líder do grupo ficou tão preocupado que tirou a máscara e o acudiu. Acompanhou a sua mãe ao hospital onde o menino ficou em observação. Após melhorar, o rapaz, que aparentava ter uns vinte anos, ironizou, aos risos: — Você é a vergonha da nossa família! Em seguida, recolocou a máscara, reencontrou o seu grupo e voltou para a sua folia e seu anonimato.

Sim, Fernandinho se fantasiava todos os anos de bate-bola. Pedia à mãe uma fantasia diferente e uma máscara mais assustadora do que a outra a cada ano. O macacão de viscose era feito sempre pela tia do menino, irmã de sua mãe. A máscara comprada na Rua da Alfândega.

Mesmo com a máscara mais feia que usasse, Fernandinho ainda tinha medo dos seus irmãos de fantasia carnavalesca. Aparecia em muitas fotos, com o rosto descoberto e chorando. O seu macacão colorido de bolinhas ou estrelinhas pretas mais parecia o de um palhaço. Se quisesse se fantasiar assim ou de pierrô, bastava pintar o rosto.

Depois de pagar o mico de ser socorrido por um bate-bola, Fernandinho perdeu o medo. Parou de se afligir. Descobriu que eles eram do bem. Só queriam se divertir. Fernandinho entrou na brincadeira. Cada vez que ouvia uma batida de bola, por mais forte que seja, ele desafiava.

O tempo passou. Fernandinho cresceu e se cansou de frequentar bailes carnavalescos no clube, que passou a proibir a entrada de máscaras, por causa da violência. Não achava graça em ir a um lugar em que não pudesse usá-la. Não gostava de dançar. Só queria mesmo era assustar. A festa perdeu o sentido. A irmã, também crescida, já não ia ao baile para recolher outros confetes e sim para dançar com as amigas, como toda adolescente.

Fernandinho, por sua vez, não tinha muitos amigos. Foi crescendo, mudando de níveis de escolaridade, fazendo e desfazendo amizades. Era muito tímido. Não gostava de sair com eles. Parou de se fantasiar e de brincar. Carnaval para ele, agora, só assistindo pela televisão aos desfiles das escolas de samba. A irmã se casou e mudou-se para a Inglaterra. Seus pais se transformaram em senhores cansados e desanimados.

Aos trinta anos, Fernando também já se desiludiu com os desfiles de escola de samba. Os quatro dias e meio de carnaval se transformaram em uma boa oportunidade de descanso e colocar o trabalho em dia, corrigindo a prova dos seus alunos da faculdade onde dá aula.

Cinco anos depois, foi tomado por um forte sentimento de nostalgia ao ver, pela janela, um grupo de bate-bolas passando na rua, na sexta-feira à noite. No sábado, amanheceu na Rua da Alfândega e comprou uma máscara de látex com uma figura de um monstro bem feio, uma bola preta, uma capa roxa e, também, um macacão grená com finas listras brancas. A tia que confeccionava os seus macacões de criança já havia morrido há muitos anos.

Saiu fantasiado pelo centro da cidade no domingo de carnaval. Sentiu dois estalos fumegantes nas costas. Caiu abatido no asfalto ardente do verão carioca. O sangue lhe escorria por baixo da máscara. Já não ouvia mais um homem desvendar seu rosto pálido e comentar:

— Ô Catuaba, seu imbecil! Você acertou o cara errado. Este é um folião comum. Puta que pariu! Agora vai sujar pra gente! Vamo vazá!

— Foi mal, chefia.

Duas horas depois, o IML chegou para recolher o corpo e a polícia iniciar as investigações. O investigador dizia para o delegado:

— Tudo leva a crer que ele foi morto por engano.

— Sei não, mas esse cara não me é estranho. Disse o delegado, um quarentão gordo de cabelos grisalhos, camisa social com gravata, suspensório e coldre. Um figurino bem diferente daquele macacão de clóvis que vestia quando ajudou uma moça a levar o menino Fernandinho, que desmaiou de medo ao vê-lo e que era a vergonha da família.
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Por Dudu Oliva

...chegaram, ao lugarejo, exauridos. Contaram as últimas moedas para a estada; não queriam mais acampar no mato. Dormiram por horas e nem se importaram com o cheiro denso de suor. Quando começou a entardecer, um desejo brotou-lhes; foram ao lado da janela e começaram as carícias. Não perceberam que uma procissão passava através da janela. O rangido do ventilador de teto abafava os suspiros. Ele não era satânico, como naquele filme que não me lembro o nome; mas, cúmplice...
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009


Por João Paulo Simões



Com a morte de D. Fernando, a independência de Portugal estava em risco, pois este monarca não tinha filho varão que lhe sucedesse na governação do País. Tinha sim uma filha, casada com um soberano de Castela, pondo em perigo a nossa soberania. D. Leonor Teles, viúva de D. Fernando I, assumiu os destinos do País. O povo não gostava dela por ter ligações com um nobre galego, o Conde Andeiro.
A pequena nobreza apoiada pelo Mestre de Aviz, revoltados com a situação matam o Conde Andeiro e D. Leonor foge de Portugal. D. João I, Mestre de Aviz, é aclamado rei de Portugal.
D. Nuno Álvares Pereira, também apoiante do Mestre de Aviz foi reconhecido nas cortes pelos seus actos.Estes dois homens preparam uma estratégia para defender Portugal de uma invasão de Castela.
De facto, os Castelhanos invadem o nosso país e iam sendo derrotados ao longo do seu percurso, embora saqueassem igrejas, mosteiros, casas, tudo o que lhes aparecesse à frente.
Finalmente, chegados a Aljubarrota, encontraram novamente outra parte do nosso exército, tendo sido derrotados. A Batalha de Aljubarrota foi a demonstração da força com que os nossos antepassados defenderam a nossa independência.
Perante este facto, D. João I mandou construir um sumptuoso mosteiro no local da batalha, numa promessa que tinha feito à Virgem Santíssima. O Mosteiro de Santa Maria da Vitória, começou a ser edificado em 1385, tendo sido o arquitecto Afonso Domingues.
Este mosteiro serviu de base para a 2ª emissão de selos da Independência de Portugal, com uma fotografia directa do mosteiro e desenho de Roque Gameiro representando D. João I, gravura a talhe doce de George Harrisan e Norman Broad. Foram emitidos 181.800 selos de $03 azul, 491.800 selos de $05 sépia, 301.800 selos de $15verde cinzento, e 126.800 selos de $46 carmim.De notar que, estes selos venderam-se quase na sua totalidade, tendo havido um segundo período de circulação com sobretaxa em caracteres góticos conforme mostram as figuras.
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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Texto: Gustavo do Carmo
Foto: Reprodução do vídeo



A Resenha da Quinzena de hoje é mais para destacar a bela modelo do comercial do telefone celular LG Cookie do que para analisar a propaganda em si, que é ótima e não precisa de mais comentários.

De qualquer maneira, a versão tecno da 40ª Sinfonia de Mozart mesclada com a nota em piano, simulado na tela pela moreninha no início do vídeo, combinou muito bem com a demonstração das funções do aparelho, um concorrente mais barato do iPhone, que tem os mesmos recursos touch-screen.

O comercial exibido na tevê aberta brasileira é uma versão editada do vídeo demonstrativo e promocional completo que é mundial e está no link acima. Foram incluídas a locução em off com a identificação do modelo, o slogan "Bem-vindos à geração touch" e a assinatura publicitária da LG com vinheta e slogan (Life's Good).

Mesmo após intensa pesquisa, não consegui descobrir o nome da moça. Quem souber, me informe.


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terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

de Miguel Angel

A mão de Benjamin se abre, a arma fica assassinando o peito e, contra toda feitiçaria, os olhos do outro se abrem com assombro e terror nas pupilas. Benjamin sai do quarto aterrorizado, deixando para trás punhal, Marilda, medo e tragédia.
Ao anoitecer daquele dia, entre espasmos e gritos, o fazendeiro morre após agonia, sob os olhares impotentes dos condoídos empregados e da policia que acreditou em tudo que ela contou sobre o desconhecido assassino. A vila fica consternada pela notícia; mesmo tenso, o antigo bom humor de Benjamin se esconde nas ruas, mas assoma, abusado, nas mesas dos bares, onde ele brinda em segredo; quem vê, suspeita e nada comenta.
Dias depois do funeral, mascarando alma ditosa, mas inquieto demais, Benjamin sonha o caminho em direção da fazenda onde a amada o espera.
E hoje ele já cavalga o vento da noite. O brilho no olhar mitiga o cisco do remorso. Na algibeira: alegria, triunfo, amor total. A aurora começa a enfeitar o dia de luz e Marilda o aguarda. Agora a dez passos de seu cavalo, a sede da fazenda está coberta de estranha calma; a luz combalida do dia, ainda anuviada com nacos de noite de enterro, pouco ilumina.
Na soleira da porta que se abre de súbito à sua frente, a figura da amada traceja um espectro. Seus olhos se reencontram lagrimando amor, medo, culpa, e Marilda pensa:
Minhas entranhas desvelam filho de pai assassinado. Que a justiça dos homens não nos encontrem e perdão dos santos nos acompanhe. Me leva contigo antes que a bruxa que te governou, maldiga minhas entranhas.
Benjamin, feliz cavaleiro andante leva Marilda no lombo de seu cavalo em direção à madrugada, e seu tropel, abrindo trilhas na mata, se confunde com o bater dos três corações em fuga. E só um inocente.
Camuflado de voluntário nas tropas acampadas em Ouro Preto, Benjamin pretende continuar a fuga tão longa como a feliz liberdade que antevê. Despistarão seus perseguidores que, adivinha, logo virão atrás deles; procurando por Marilda, a família; por ele, a lei dos homens. – E à indulgência dos santos rezam ambos todo santo dia desde que fugiram.

Fragmento do romance Moscas e Aranhas de Guerra, de Dalton W. Reis
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sábado, 14 de fevereiro de 2009

Saiu a edição número 13 da revista virtual portuguesa de micronarrativas Minguante, com um texto meu mais uma vez: Sonho Proibido.
A nova edição, que tem o tema Superstição, também tem textos dos nossos colaboradores Dudu Oliva e Ed Santos, que faz a sua estréia no site. Parabéns e boas vindas, Ed!
A revista é trimestral e a próxima sai em maio com o tema O Fim. Quem quiser participar deve enviar um texto de no máximo 200 palavras até o dia 15 de abril para o e-mail participar@minguante.com
O endereço básico da revista é www.minguante.com
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Por Gustavo do Carmo


Toca o telefone. Depois de muita espera, é atendido por uma voz jovem.

— Alô?

— Alô, boa tarde? Eu queria falar com a Neyla Beatriz?

— É ela mesma.

— Oi, Neyla. Aqui é Norma Maia, do Teatro Municipal. Estou ligando para te dar uma boa notícia. Você foi aprovada no nosso teste para integrar o nosso corpo de baile e excursionar pela Europa. Foi uma seleção muito difícil. Tivemos mais de quinhentas finalistas. Por isso, houve essa demora de seis meses para escolher o elenco. Você foi escolhida para viajar conosco para Paris. Pode comparecer aqui amanhã para assinarmos o contrato e começarmos a tratar da viagem?

— (...)

— Alô? Neyla?

Um longo silêncio é percebido na linha. É interrompido apenas por uma série de soluços.

— Neyla? Você está chorando? É de emoção, não é? Mas pode comemorar! Você foi escolhida e vai fazer parte do balé mais importante do Brasil!

— EU NÃO POSSO MAIS DANÇAR! Grita Neyla

— Mas por quê?! Você foi a melhor bailarina do teste. Ouça bem: você foi aprovada! Não tem mais nenhuma etapa pela frente! Você já está contratada! CON-TRA-TA-DA! Ouviu? Não pode desistir agora que já foi escolhida.

— Eu não posso mais dançar... (interrompe entre soluços e prantos)... porque eu sofri um acidente há dois meses e... eu perdi uma perna.

— Oh! Meu Deus! Mas que pena! Como foi isso?

— Eu estava viajando na garupa da moto com o meu namorado quando ele se chocou com um caminhão. Ele havia me dado o seu capacete. Eu perdi a perna e ele não resistiu!

— Olha! Eu sinto muito pelo que aconteceu! Infelizmente, você realmente não vai poder participar do elenco. Mas quero que você viaje conosco para Paris como nossa convidada na platéia da primeira apresentação da turnê e do novo grupo. Não se abale! Veremos se podemos te convidar para um espetáculo com cadeirantes em breve.

Neyla perdeu o contrato para ser a bailarina do Teatro Municipal, mas ganhou uma viagem com tudo pago e hospedagem em hotel cinco estrelas na cidade-luz, além do melhor lugar na platéia do Ópera Garnier, onde seria realizada a apresentação. Viu-se no palco dançando. Não resistiu. A equipe paramédica foi acionada pelos seguranças do teatro.
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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

por Dudu Oliva

DESLIZA AS PÉTALAS ENTRE OS LÁBIOS
Sente a sensação de ser beijada.
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Por João Paulo Simões






A história da nossa independência remonta aos tempos em que a Península estava ocupada pelos Mouros e Visigodos. Quem iniciou a luta pela posse dessas terras foi o Conde Vimara Peres e os lugares a que hoje chamamos Porto, foram os primeiros a ser conquistados. A neta de Vimara instalou-se em Vimaraes, hoje Guimarães, tendo aí construído um mosteiro e um castelo que ainda hoje pode ser visto e visitado. Ficou então Guimarães conhecida como o Berço da Nacionalidade. Portucale começou a ser conhecido. Portucale deriva das palavras Portus – local de paragem dos barcos – e Calle, ali para os lados de Vila Nova de Gaia. Eram todas as terras existentes entre Douro e Minho. Com o tempo, o nome Portucale evoluiu para Portugal. Era um território que gozava de alguma autonomia em relação aos reinos de Leão e Castela. Mas os Mouros atacavam e D. Afonso VI pediu auxílio aos reinos europeus. Surgem então dois fidalgos franceses, de uma distinta família de Borgonha, D. Raimundo e D. Henrique que prestam tão importantes serviços ao rei de Leão e Castela, que este oferece as suas filhas D. Teresa e D. Urraca em casamento bem como terras. A D. Henrique e D. Teresa, cedeu o rei as terras de Portucale, como Condado. Desta união nasce um filho a que puseram o nome de Afonso Henriques. Recebeu a sua formação em armas e, após a morte do pai, decidiu expandir o Condado e torná-lo independente. Luta contra sua mãe pela independência do Condado ao saber que um segundo casamento da sua progenitora poderia pôr em causa Portucale. Esta era também a opinião de alguns nobres que, em 1128 na batalha de S. Mamede, derrotam D. Teresa.
Sempre avançando sobre os Mouros, D. Afonso Henriques conquista terras para Portugal. Em 1143, no Tratado de Zamora, D. Afonso Henriques é reconhecido como rei de Portucale pagando uma espécie de imposto a seu primo e ao Papa para assim assegurar o reconhecimento do território que agora compreendia as cidades de Braga, Guimarães, Porto e Coimbra.




(Baseado em “Nasce Portugal”, Colecção “A nossa história” de Crisóstomo Alberto, vol. 5)

(Continua)


Esta emissão, tem por base dez selos. Foram desenhados por Eduardo Avelino Ramos da Costa. A gravura é de talha doce de George Harrisson e Norman Broad, na Thomas de la Rue, de Londres.
A emissão foi feita em folhas de 10x10 selos que circularam de 13 de Agosto a 1 de Dezembro de 1926 em papel pontinhado em losangos denteado 14 de linha. As cores desta emissão são centro a preto e molduras como se segue na imagem do selo de D. Afonso Henriques de 4 centavos.
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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Por Gustavo do Carmo
Fonte: Caderno Ideias (Jornal do Brasil)



A escritora Clarice Lispector veio da Ucrânia aos dois anos de idade, mas foi no Brasil que ela cresceu, passou a maior parte da sua vida, se tornou escritora e fez sucesso com livros como A Hora da Estrela, A Maçã no Escuro e as coletâneas dos seus contos em Laços de Família, A Bela e a Fera e Legião Estrangeira. Foi no Brasil que Clarice morreu em 1977, um dia antes de completar 57 anos.

Considerada uma escritora brasileira, o sucesso de Clarice não ficou restrito ao nosso país. Prova disso é que a autora serviu de tema para um projeto de faculdade em Portugal. A estudante de Letras da Universidade do Porto Patrícia Lino espalhou pelas ruas da cidade fotos de Clarice Lispector para despertar a curiosidade das pessoas e divulgar a obra da autora lá do outro lado do oceano. Além disso ela convidou transeuntes e amigos a posarem para uma foto segurando uma imagem da escritora.

O projeto foi muito além do trabalho acadêmico original. Segundo uma reportagem do caderno Ideias do Jornal do Brasil, no dia 24 de janeiro, Patrícia já organizou sessões de leitura em escolas, escreveu artigos analisando a "imprevisibilidade explosiva" em contos da escritora, distribuiu panfletos e dirigiu uma curta-metragem (que pode ser vista em http://www.youtube.com/projectoclarice) sobre o mistério que permeia sua obra.

Parte do projeto pode ser vista no blog www.projectoclarice.blogspot.com , que traz as fotos dos convidados que posaram com fotos de Clarice, trechos de textos da autora e informações sobre o trabalho. Além do blog, ela está desenvolvendo um site, ainda sem data para entrar no ar.

Ao JB ela disse, por telefone:

- Quando você segura uma imagem para uma foto, é natural querer saber de quem é aquele rosto. Por isso, sempre que eu pedia para as pessoas posarem com a Clarice, me perguntavam quem era ela. Eu explicava, e muitas me pediam então que eu indicasse livros dela para lerem. Algumas dessas pessoas me procuraram depois, contando o que acharam da leitura.

Além do Jornal do Brasil, o projeto de Patricia já chegou a veículos prestigiados como a revista Ler e o jornal Público. E agora chega ao Tudo Cultural como a Dica da Segunda.
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domingo, 8 de fevereiro de 2009

Por Ed Santos

1982. Eu tinha 14 anos na época. Lembro que nossa diversão era jogar futebol e dançar. O futebol era sagrado aos sábados. Íamos à quadra da escola em uns vinte. Lá escolhíamos as equipes, sempre a partir dos goleiros. Tudo no par ou ímpar.  Dois times jogavam e dois ficavam “de próximo”. Vez por outra, chegava mais gente e eram montados mais times. Todos participavam. As partidas duravam 10 minutos, quem vencesse permanecia na quadra e disputava outra partida. Em caso de empate, permanecia em quadra o time que havia vencido a partida anterior. Não era de se estranhar em alguns casos, que os times mais fortes ficavam em quadra o dia inteiro. E isso era um problema.

        Naquela época a gente precisava de autorização dos pais pra sais de casa, não importava onde, a que horas e com quem. Tínhamos que pedir permissão. Agora imaginem a turma toda sair de casa para jogar futebol pela manhã e voltar no final da tarde? Era isso que acontecia. Imaginem, só como era difícil convencer os pais que “a gente tava jogando” até agora? Se pra jogar futebol era assim imaginem então como era difícil ir ao cinema, ao parque, aos bailinhos...

Era assim também quando a gente pensava em ir dançar. Domingo à tarde era o dia de ir no salão. Mas com aquela idade só pedindo pros pais. Lá em casa era assim: se eu quisesse sair no domingo, tinha que pedir pra minha mãe. Se durante a semana eu tivesse me comportado bem, com certeza ela me deixava sair. Dependendo da situação ela falava: “Fala com seu pai, se ele deixar...”. Nunca pedi nada pro velho.

Foi assim por muito tempo, até quando eu comecei a trabalhar. Aí, mais responsável (sé é que sou), já tinha meu dinheirinho, podia pegar condução, pagar minhas entradas e fazer “uma presença” pro pessoal. Mesmo assim, ainda tinha que pedir pra sair. Nessa época já ia nos bailinhos aos sábados, à noite, depois de passar o dia inteiro na quadra jogando. Era legal que naquela época a turma, quando não tinha lugar nenhum pra ir, inventava de fazer um baile na casa de algum sortudo. Era só avisar o povo que por volta das oito da noite a garagem ficava cheia.

Quando a gente demorava pra chegar em casa no sábado, ir na matine do domingo era praticamente impossível. Lembro da minha mãe dizendo: “Pode ir, mas volta as 23h00. Se chegar aqui 23h01, não sai amanhã”. Eu sempre chegava 22h40, 22h50.

Hoje vejo que as coisas mudaram. As baladas atuais começam no horário que eu chegava em casa, e o pessoal, provavelmente nem avisa os pais. Acho que a questão do respeito e da autoridade se perdeu um pouco e foi substituída pelo excesso de liberdade pregada pela moderna e atual administração familiar. Uma pena.

        Minha mãe primeiro avisava pra não sair da linha. Depois corrigia. Ela falava: “Eu disse que não era pra chegar tarde, né? Então agora você vai apanhar pra ver se aprende e obedece. Vai lá no armário e pega a cinta do teu pai pra eu te dar uma coça! E não corre porque se você correr, quando você voltar você apanha mais ainda!”

        Você acha que eu corria? Nunca quis ver pra crer. Não sou São Tomé!

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sábado, 7 de fevereiro de 2009

Por Gustavo do Carmo

O emprego do prefixo ex, acompanhado de um hífen, indica aquele substantivo que já não tem mais validade para quem o utiliza: ex-presidente, ex-governador, ex-prefeito, ex-jogador, ex-modelo, ex-integrante de banda, ex-marido, ex-mulher, ex-namorada e por aí vai.

Num relacionamento pessoal, o poder do ex é tão grande que ele já tem pernas para andar sozinho. Muita gente fala: “Aquele ali é o meu ex”, “A relação com a minha ex é muito boa”, “Esse aí na foto é o meu ex”, etc, etc. Sumariamente, ex já é passado.

E tem gente que gosta de inovar e empregar o ex em substantivos incomuns como o ex-prefeito que chamava a sua coluna na internet de ex-blog. Uma página que não podia ser blog e virou um ex-blog.

Portanto, se o ex-prefeito pode, eu também posso inventar. Então está criado o ex-carioca.

Um espírito de porco vai dizer: “Ah! Não se usa esse prefixo em gentílicos”. “Ninguém deixa de ser carioca, paulista ou mineiro”. “Ninguém deixa de ser brasileiro”. Deixa sim. E principalmente brasileiro, pois existe o documento que comprova o abandono pátrio: a naturalização.

O ex-carioca, vamos ficar neste exemplo, é aquele que deixa de ser carioca. No entanto, o ex-carioca não é aquele que deixa a cidade do Rio apenas para aproveitar uma oportunidade única e ganhar o seu sustento, mas ainda quer ser carioca da gema. O ex-carioca não é aquele que trabalha em outra cidade e conta os dias para chegar o final de semana e voltar saudoso para casa, após uma semana estafante.

O ex-carioca é aquele que abandona a sua cidade. Ou mesmo o seu estado. Mesmo que o gentílico para quem nasce no estado do Rio seja fluminense, eu também considero os fluminenses como cariocas. Então, niteroienses, petropolitanos e outros papa-goiabas que abandonam o estado do Rio merecem ser chamados de ex-cariocas sim.

O ex-carioca é aquele que pede pra sair. É aquele que procura oportunidade em qualquer lugar só para sair do Rio. E ainda faz loucuras para sair daqui. Até arrisca a vida de si e a dos outros. É aquele que vai morar em outro estado, principalmente em São Paulo, e quando volta (mais por obrigação, contrariado, do que por saudade) fica comparando as nossas mazelas com as qualidades do seu novo lar. Da sua nova cidade natal. E ainda acusa a sua ex-cidade de ter lhe negado oportunidades que nunca foram buscadas ou até recusadas pelo próprio reclamante. Mal sabe ele que é um dos maiores culpados pela cidade (inclusive o estado) estar pior do que a sua nova casa.

O ex-carioca é aquele que se esqueceu do lugar onde nasceu. É aquele que incorpora até o sotaque da nova terra. È aquele que ainda faz declarações de amor à sua nova pátria. É aquele que já não merece mais ser chamado de carioca.

O prefixo ex pode ser usado para outros gentílicos também: ex-mineiro, ex-paulista, ex-capixaba, ex-baiano, ex-pernambucano, ex-brasiliense... ex-brasileiro (destes há muitos e mesmo assim ainda são idolatrados). Mas só o ex-carioca rima com Iscariotes. Judas Iscariotes.
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Caros leitores, preciso compartilhar com vocês uma fantasia ridícula a respeito do meu blog. Na realidade, quero desabafar a fim de exorcizá-la da cabeça. É que imagino que uma pessoa famosa lê o meu espaço virtual e se encanta com os textos que escrevo; inclusive, faz comentários que expressam o valor literário dos meus escritos. Vocês acharão isto ridículo, eu também, mas isto independe de mim. Na realidade, além de " querer aparecer", não tenho personalidade suficiente para acreditar que tenho talentos; preciso que alguém faça o seu parecer. Caríssimos leitores, não contem a ninguém sobre minha confissão. Não gostaria de que os outros soubessem deste mico terrível.
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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009



A cantora cabo-verdiana Cesária Évora adiou os dois concertos marcados para este mês em Tel Avive (Israel), devido à situação de conflito armado que se vive naquele país.

A notícia foi confirmada à agência Lusa pelo empresário da cantora, Djô da Silva, que afirmou tratar-se de uma decisão da própria artista cabo-verdiana, que tem como princípio "não cantar em países que estejam em guerra".

Djô da Silva disse ainda que, provavelmente, os concertos de Cesária em Tel Avive deverão ser realizados em Outubro, "mas ainda se está a acertar a nova data".

O empresário disse ainda que não é a primeira vez que Cesária cancela concertos por este motivo e lembrou que, "há dois ou três anos, Cesária Évora já havia cancelado shows em Israel devido à existência de conflitos armados".

Na segunda-feira, a artista cabo-verdiana recebe a Legião de Honra da França das mãos da ministra francesa cultura, Christine Albanel, de acordo com o empresário da artista.
Cesária Évora foi distinguida com a Legião de Honra de França pelo Presidente francês, Jacques Chirac, em 2007, mas só agora vai receber o galardão.

A cantora Cesária Évora tem uma relação especial com a França, já que foi naquele país, na década de 1980, que começou a projectar-se a nível internacional, tornando-se depois a cantora cabo-verdiana mais conhecida no mundo.

Ainda neste mês, dia 27, Cesária fará um concerto no Palácio das Artes em Budapeste.
Na agenda da cantora, na sua página do MySpace, constam apenas os espectáculos de Março, com dois concertos em França - dia 15 em Sceaux e 24 em Sochaux - e uma apresentação dia 22 no Concert Hall de Varsóvia, Estados Unidos.
Fonte: Lusa
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É sem dúvida, uma das figuras maiores da prosa portuguesa do século XIX. A sua obra compõe um quadro da vida social portuguesa da região Entre Douro e Minho, abrangendo diversas camadas, desde o mundo rural até à boémia portuense, passando pelos “brasileiros” endinheirados até à aristocracia arruinada. Nasceu em Lisboa em 1825. Foi educado por parentes devido à morte prematura de seus pais, vivendo em Trás-os-Montes a sua infância e adolescência. É aí que começa a sua vida amorosa e parte para o Porto já casado, Coimbra, na tentativa de tirar Medicina, regressa ao norte raptando uma mulher com quem vive por pouco tempo. Terá participado nas lutas da Patuleia, até que se fixa no Porto. Com uma vida difícil, ora com alguma ostentação, ora com bastantes dificuldades, Camilo Castelo Branco começa a escrever para jornais seguindo o romance folhetinesco. A sua obra tem um carácter dramático e de intrigas em que a vingança e a violência servem de pano de fundo. Este tipo de narrativa vai ter o seu expoente com a obra Amor de Perdição onde se misturam todos os ingredientes da tragédia com o clima romântico desencadeado na impossibilidade final do amor. Camilo é autor de uma vasta obra que vai da novela ao conto, do romance ao teatro, poesia polémica e correspondência. Devido à sua cegueira e o facto de ela o impedir de voltar a escrever, suicida-se em São Miguel de Ceide, a 1 de Julho de 1890.
(Baseado na Enciclopédia Larouse vol. 5 do Círculo de Leitores)
A criação desta emissão de selos deveu-se à construção de um monumento a Camilo Castelo Branco cuja receita reverteria para este fim para comemorar o centenário do seu nascimento. O primeiro dia de circulação foi a 16 de Março de 1925 mas só circularam nos dias 26, 27 e 28 de Março desse ano para fins filatélicos. A emissão só voltou a circular em 1934 com os valores de $04 $05 $06 $10 $15 $20 $25 $30 $40 $50 $80 1$00 1$20 1$60 2$00 e 4$50, e em 1935 os valores de $75 10$00 e 20$00.Estes selos foram impressos por Waterlow & Sons Ltd. de Londres,em folhas de 100 selos com denteado 12,5 utilizando papel pontinhado em losangos. Tomaram por base as taxas da anterior série de Camões. Foram retirados de circulação a 1 de Outubro de 1945. Fica aqui reproduzido o selo de $40 com a figura do escritor.
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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009


Precipitações determinantes

Por Gustavo do Carmo


Na praia é o livro mais recente do escritor britânico Ian McEwan lançado no Brasil. O autor é um dos mais elogiados da atualidade. Seus outros livros, Sábado e Reparação, estão sempre na lista dos melhores livros. McEwan também teve O Inocente lançado no Brasil. Todos pela editora Companhia das Letras.

Traduzido para o português por Bernardo Carvalho, Na praia é uma crônica da insegurança e de precipitações de um casal. Precipitações determinantes que fizeram uma história de amor que tinha tudo para dar certo se transformar em um casamento natimorto.

Dois jovens ingleses, às vésperas da revolução sexual do início dos anos 60, se casam e vão passar a lua-de-mel no litoral inglês de Dorset. Últimos representantes da inibição sexual herdada do periodo vitoriano, Edward e Florence são virgens e pretendem consumar (já que tiveram preliminares antes do casamento) o primeiro ato sexual de suas vidas em um hotel próximo à praia inglesa de Chesil, às margens do Canal da Mancha. Mas ambos são inseguros. Esconderam os seus sentimentos um do outro, desde quando se conheceram em uma campanha pelo desarmamento nuclear que a moça organizava. Eles começaram a namorar, se afastaram por um tempo, se reencontraram, noivaram, se casaram aos vinte e dois anos e guardaram seus fantasmas e orgulhos até a noite de núpcias.

Edward, ao mesmo tempo que tinha medo de abusar da amada, receava não corresponder aos seus desejos. Não só sexuais, como também familiares e profissionais. Filho de um professor de ensino médio com uma mãe que ficou com problemas mentais depois de um acidente, foi criado na província e teve vida simples. Por isso, também tinha medo de não ser aceito pela família rica da noiva. Felizmente a rejeição não aconteceu. Recém-formado em história, Edward conseguiu conquistar o respeito do sogro e até teve uma oferta de emprego na indústria da família. Já Florence desejava ser violinista e tinha medo que o marido a impedisse de seguir a sua promissora carreira. Além disso, tinha horror a ser penetrada sexualmente. Queria ser mãe, desde que engravidasse como a Virgem Maria.

O casal realizava todos os protocolos da relação com calma até demais. Como, por exemplo, a distância do tempo em que Edward viu os seios de Florence e depois pôde tocá-los e muitos meses depois poder beijá-los. A primeira precipitação do casal aconteceu justamente na cama de dossel no quarto de hotel, depois do longo jantar e da demora dos garçons em deixá-los sozinhos. Edward teve um gesto involuntário que fez Florence pular da cama e fugir do quarto e do hotel. Ela foi se refugiar na praia até ser encontrada pelo novo marido. Em vez de se reconciliarem, tiveram uma áspera e dolorosa discussão que determinou o destino do casamento. Neste caso os dois se precipitaram juntos.

É a única ação que acontece na trama principal da novela (assim classificada pelo comentarista Rafael Rodrigues no site Digestivo Cultural, pois "romance", segundo ele, é uma narrativa com diversas ações acontecendo paralelamente, com tais ações tendo uma ligação entre si. Em Na praia há uma ação, uma história, e há também outras, mas que são contadas em flashbacks. Existe uma ligação, mas não são paralelas. E uma ação não interfere na outra).

Esses flashbacks, aliás são excessivos como os detalhamentos e, junto com os poucos diálogos, torna a leitura um pouco chata e sonolenta, apesar de ser um livro curto, de apenas 128 páginas e cinco capítulos. Mesmo assim, Na praia faz o leitor refletir sobre as nossas escolhas e atitudes. Ainda de acordo com Rafael Rodrigues, uma escolha mal feita, uma palavra mal dita, enfim, uma precipitação, pode ser o fim não só de um destino, mas de vários. Foi o que McEwan quis dizer.




SOBRE O LIVRO


Na Praia
Ian McEwan
2007
Formato (a x l): 21x14
128 páginas
Preço sugerido: R$ 34,00

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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009



Por Gustavo do Carmo
Ilustração: Eduardo Oliveira


Tá, esta dica deveria estar no Guscar. Mas carro clássico também é cultura. Aliás, releitura de carros clássicos.

Em 1998 o New Beetle começou com uma moda de carros do passado com roupagem moderna que ganhou diversos adeptos: Ford Thunderbird, Chrysler PT Cruiser, Chevrolet SSR (estes dois não eram um modelo específico), Ford GT40 e Mustang, Mini e os recentes Fiat 500, Dodge Challenger e Chevrolet Camaro.

Todos internacionais. Com exceção do Fusca, nenhum deles teve história no Brasil. E os nossos clássicos? (Brasília, Chevette, Corcel, Maverick, Monza, Veraneio, Escort, Rural, Simca Chambord e DKW)

Dois engenheiros brasileiros já apresentaram projetos de 'revival' do Willys Interlagos e do Brasinca Uirapuru. Outros contaram em revistas como seriam o Karmann-Ghia e o Opala. Já o designer Eduardo Oliveira (que não é o nosso colaborador Dudu Oliva) criou um blog inteiramente dedicado a esse exercício de imaginação, que é a Dica da Segunda desta semana.

A maioria das ilustrações é feita com base em fotos de modelos atuais, mas ele também cria as projeções em computação gráfica, como o seu trabalho mais recente: a Rural Willys (foto abaixo).
Os clássicos em novas roupagens são o atrativo do blog, mas também há ideias para reestilizações e versões inusitadas.

O nome do blog e o endereço são tão curiosos quanto o conteúdo: http://irmaododecio.blogspot.com/

Vale a pena acessar.



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domingo, 1 de fevereiro de 2009

Por Ed Santos

Eram 06h47. Acordei atrasado pra variar, e nem tomei banho. Peguei as chaves e sai. Só quando estava dobrando a primeira esquina percebi que estava chovendo porque tive que ligar o limpador do pára-brisas. A Dona Helena chega religiosamente as 07H00, toda quinta-feira faça chuva ou faça sol, e eu saio pro trabalho às sempre que dá, às 07h30.

Na noite anterior trabalhei até tarde e não lembrei de passar no caixa eletrônico, então saí correndo pra poder tirar dinheiro pra pagar a diária. Moro próximo do centro da cidade, é só descer uma rua que já estou lá. Fui no banco que tenho conta, e adivinha? Sim, todas as telas dos caixas eletrônicos estavam desligadas, sem nenhum sinal de vida.

Segui para a XV de Novembro e parei o carro. A chuva apertou e eu não tinha guarda-chuvas, mas tinha que descer. Atravessei a rua correndo, e entrei em outro banco na esperança de usar aquele serviço de transferência eletrônica que interliga diversos bancos. Tudo bem que eu iria pagar uma taxa (o que não é novidade nenhuma em se tratando de serviços bancários), mas tinha que pagar a Dona Helena. Depois que consegui abrir a porta de vidro já todo molhado, tive a enorme surpresa de encontrar os caixas todos vazios, e funcionando! Que maravilha! Só não consegui efetuar minha transação porque na tela aparecia uma teimosa mensagem: “Sua instituição financeira está temporariamente sem comunicação. Favor tentar novamente mais tarde.”

A chuva apertou. São 07h15 e eu atravesso a rua agora para o lado par. Já não me importo com a água. Entro em outro banco pra ver se conseguiria pagar minha diarista, mas já sem um pingo (sem trocadilho!) de esperança. Não consegui sacar nenhum centavo e a mensagem na tela era “Sem comunicação com sua instituição.” Agora a saída era ir no caixa eletrônico do posto de gasolina que fica no lado oposto do centro. Lá sempre dá certo, aliás, não sei por que não fui direto pra lá.

Agora sim. Desço todo molhado do carro, mas isso não me incomodava mais. Nem percebi que além da chuva ter parado, estacionei o carro na cobertura do posto. Podia cair o maior toró que eu não iria me molhar. Mais. Ninguém na fila, o terminal aparentemente funcionando normalmente. Entrei. Digitei o valor senha, letras de segurança, data de nascimento e cruzei os dedos. “...Aguarde enquanto processamos sua transação ...”. “..Retire seu dinheiro”. Agora sim, tudo certo. Peguei minhas notas, e ao me virar pra sair, alguém que aguardava do lado de fora perguntou:

- Tá funcionando?

- Para a felicidade da Dona Helena, sim!
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