sábado, 20 de novembro de 2010

EXASPERADO

Por Gustavo do Carmo

Corria exasperado, como se sem destino, como se sem origem. Apareceu do nada na Praia de Botafogo. Muitos pensavam que era um morador de rua. A sua pele negra criava o preconceito daqueles transeuntes que também acharam que ele era um assaltante. Mas ele estava bem vestido.

Não com traje de gala, claro. Mas com calça jeans e camiseta novas. “Ah! Mas assaltante também anda bem vestido. Não veem os presidiários? Usam até roupas de marca”, insistiam os racistas. Mas o caderno, um livro e algumas apostilas expostas na sua mochila aberta, quase se arrebentando de tão pesada, dissiparam as desconfianças. “Deve ter roubado de alguém”. “E bandido rouba livros e cadernos?”, retrucou um outro. O pedestre apressado foi definitivamente absolvido pela justiça urbana. Era apenas um estudante, que pode ser de qualquer cor. Da mesma forma que um louro de olhos azuis com terno Armani também pode ser um bandido.

E o pedestre exasperado estava realmente apressado. A essa altura já estava na Marquês de Olinda, empurrando qualquer um que aparecia na frente. Não importava se era adulto, mulher, criança ou idoso. A desconfiança inicial voltara, mas também logo foi dissipada e o coitado do apressado absolvido novamente. Outros pensaram até que ele fosse a vítima. Mas não havia ninguém atrás dele. Nem bandido, nem mesmo a polícia ou alguma quadrilha rival, como ainda pensavam enrustidamente os preconceituosos de plantão.

Não corria mais. Flutuava. Litros de suor brotavam de seu couro cabeludo e escorriam da testa para baixo. A mesma coisa ocorria no centro do seu tórax igualmente abstruso. A calça jeans e a camiseta novas compradas a prestação na Leader Magazine estavam ensopadas.

O pedestre exasperado e realmente apressado se chamava Alfredo. Morava na Penha. Viajou no 484 achando que era o 485 e ainda estava atrasado para a prova do concurso público para o Banco do Brasil, para o qual tinha estudado até se esgotar e garantia saber todas as questões. Tropeçou no bueiro de ventilação do metrô já na Muniz Barreto. Ficou caído por quinze segundos, mas se levantou. O portão da faculdade onde Alfredo faria a porta se fechou.

O estudante e pedestre que corria exasperado, como se sem destino, como se sem origem ao aparecer do nada na Praia de Botafogo, onde muitos pensavam que ele era mendigo e assaltante por ser preto, mas foi absolvido pela mochila com cadernos, livros e apostilas porque bandido não rouba livro, pois na verdade estava apressado e atrasado, ficou de fora.

Mas o segurança da faculdade, gente boa, que também era negro e tratava os irmãos de cor como irmãos de pai e mãe, o deixou entrar e fazer a prova. Foi aprovado no concurso em primeiro lugar. Ganhou a tão sonhada estabilidade.

Este conto foi a minha homenagem ao Dia da Consciência Negra.

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