quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Por Gustavo do Carmo

O filho que estava na barriga de sua esposa era a esperança de Juvenal esquecer o péssimo ano que teve no trabalho. Jogador de futebol profissional, seu clube foi rebaixado no campeonato nacional com o último lugar.

O jovem atleta lembrou-se de uma coincidência que poderia sepultar de vez o ano velho: havia a possibilidade do neném nascer na virada do ano. Se Johnson fosse o primeiro bebê de 2009 a imprensa o procuraria, pararia de culpá-lo pela queda de divisão do time e ele ficaria orgulhoso de conquistar o primeiro lugar em alguma coisa.

Depois de muita insistência do marido, Ravielli tentou marcar uma cesariana para o dia 31 de dezembro às onze e meia da noite. Ética, a obstetra recusou o agendamento. Além de não querer uma cesariana desnecessária por vaidade e egoísmo, a médica queria passar a virada de ano com a família. Só aceitaria realizar o parto se ele fosse natural. Aí sim teria o maior prazer de ser chamada às pressas para trabalhar.

Juvenal foi obrigado a se conformar e contar com a sorte que lhe faltou durante todo o campeonato. Ravielli deu graças a Deus por não poder se submeter aos caprichos do marido. Ela mesma preferia o parto normal.

A festa de réveillon na Marina da Glória teve de ser adiada para o ano seguinte. A família se reuniria na maternidade. Ravielli teve as primeiras contrações em casa por volta de nove da noite. Às onze entrou em trabalho de parto. Johnson nasceu com quatro quilos e duzentos gramas no dia 31 de dezembro de 2008, às onze e cinqüenta e nove da noite. O primogênito de Juvenal foi o último bebê do ano.

Recebeu a notícia do nascimento do filho juntamente com os votos de Feliz Ano Novo diretamente da obstetra, ainda com a touca, a máscara no queixo e o avental. Juvenal ficou paralisado por dez segundos. Uma hora depois, o escrivão da delegacia do bairro emitiu o primeiro boletim de ocorrência do ano.
0

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Por Gustavo do Carmo

Quatro horas da tarde do dia 25 de dezembro em uma casa no subúrbio. O dono, a esposa e os parentes estão dormindo no chão da sala porque encheram a cara de vinho. As crianças também dormem no mesmo lugar. Não por causa da bebida, mas de tanto chorar porque o Papai Noel não chegou à meia-noite.

Ele chega exatamente (bem) depois da festa de Natal. Acordando todo mundo com o seu “hohoho” ele começa a distribuir os presentes. Primeiro para as crianças, que, mesmo com o rosto ainda manchado de lágrimas da noite anterior, esqueceram a frustração do atraso. Elas se animam e começam a rasgar os embrulhos. Imediatamente, pedem às suas respectivas mães para estrearem os novos brinquedos na pracinha do bairro. Os adultos acordam morrendo de dor de cabeça da ressaca.

O primo do dono da casa, um homem gordo na faixa dos trinta e cinco anos reclama com o Papai Noel:

— Pôxa, Papai Noel, o senhor não acha que chegou tarde demais, não? Esperamos por você até as oito da manhã e nada! As crianças se desesperaram de tristeza. Choraram a noite inteira. Nós enchemos a cara para nos acalmarmos e tentar tranquilizá-las.

— Ho, ho, ho, eu tive uma agenda cheia. E mesmo assim, vocês brasileiros são muito precipitados. O Natal é no dia 25 e não no dia 24. Que mania de usar o dia certo de natal para curar a ressaca!
0

Por Gustavo do Carmo

Astorzinho era um bom menino. Obediente em casa, alegre e divertido, adorava brincar. Principalmente na escola. Durante as aulas. E por esse motivo suas notas começaram a baixar.

Até a quarta série, mesmo se divertindo nas aulas, Astorzinho nunca havia tirado uma nota vermelha. Mas a partir da quinta série, o rendimento do menino começou a cair. Veio a primeira anotação na caderneta por indisciplina.

A mãe de Astorzinho, Helena, disse que só ia assinar para evitar algum problema burocrático. Mas, para manter o controle disciplinar sobre o filho, o ameaçava que se tivesse que assinar mais uma vez ela não faria e, se fosse expulso, o filho teria que estudar numa escola pública. E a primeira nota vermelha que tirasse ficaria um ano de castigo, sem sobremesa, sem brincar com os amigos e sem ganhar presentes de aniversário, de Dia das Crianças de Natal. Se ele repetisse de ano, ela nem queria pensar...

Astorzinho ficava com medo no início, principalmente quando o pai apoiava a mãe. Depois o menino relaxava e voltava a aprontar. Astorzinho era obediente para qualquer coisa. Menos para estudar.

Acabou levando a primeira nota vermelha, que veio junto com mais duas advertências. Mais uma ele seria suspenso. A mãe cumpriu a promessa. Não assinou os comunicados e nem o boletim. Colocou o menino de castigo, impedindo a visita dos seus colegas e o obrigou a estudar. Colocou a irmã mais velha como cão de guarda. Para completar, deixou de comprar o vídeo-game que ele esperava ganhar de aniversário.

Astorzinho acabou ganhando o presente, dado pelo pai, Adamastor Florêncio. Ainda o liberou do castigo e assinou o que tinha que assinar. Não queria complicações no desempenho do filho. Mas apoiou a esposa na ordem de estudos.

Helena, naturalmente, não gostou. Em um tom ríspido criticou o marido:

— É assim que você quer educar o seu filho, Adamastor?

— Sim.

— Você quer que ele cresça como você?

— Não. Eu quero que ele seja um homem honesto e inteligente. Mas a gente não pode ser duro com ele. Senão pode ser pior. E pára de ficar ameaçando o Júnior com castigo eterno, privação de amizade e estudar em escola pública! Assim você vai acabar o deixando traumatizado, revoltado e aumentar o preconceito dele contra o ensino público.

— Mas eu não quero fazer isso com ele. Só que eu preciso ser dura às vezes porque senão ele se acomoda e não estuda direito. Senão vai virar um...

— Completa o que você ia dizer, Helena? Um derrotado como eu ou um folgado?

— Se a carapuça servir... Mas se você acha que consegue educar o nosso filho do seu jeito, faça o que quiser. Depois não venha me culpar. Eu lavo as minhas mãos.

Adamastor conversou com o filho. Disse que a sua mãe tinha razão ao lhe obrigar a estudar. E que isso ele ia fazer como pai. Mas o seu trabalho acabou lhe impedindo de cumprir a promessa. Resultado: Astorzinho relaxou mais uma vez e as notas vermelhas aumentaram.

As dificuldades do trabalho de Adamastor também aumentaram. Nervoso, com medo do futuro, ele se transformou num pai mais severo com o filho. O obrigou definitivamente a estudar. Mesmo às chineladas. Na prova final já precisava tirar no mínimo uma nota 8 em todas as matérias. Se ficasse reprovado em mais de duas não teria direito nem à recuperação. Se zerasse em alguma era repetência sumária.

Finalmente Adamastor Júnior estudou. Português, Matemática, História, Geografia, Ciências, OSPB e Inglês. Só não precisava estudar Educação Física. Nesta última já fora aprovado com tranqüilidade. Estudou, estudou e estudou. Parou de brincar com os colegas. Decorou todos os livros que tinha que decorar. Quase enlouqueceu. Se estressou. Brigou aos tapas com a irmã mais velha, que era uma aluna aplicada já do ensino médio, quando ela pressionou ao seu jeito. Fez a prova final. Achou que se saiu bem.

Morreu de medo do resultado que receberia na semana anterior ao Natal. Tirou 10 em Português. Nove em Inglês, História e Geografia. Oito e meio em Ciências e OSPB. Mas Astorzinho foi reprovado. Tirou zero em Matemática. A média final ficou tão baixa que a recuperação era inviável.

Astorzinho se desesperou. Chorou. Soluçou. A severa mãe lhe negou o iPod que ele tinha pedido. Disse que ele não estudou o suficiente. A irmã botou lenha na fogueira ao delatar que Astorzinho deixou de estudar por umas horas para brincar. Adamastor estava viajando a serviço. Quando voltou de casa, arrasado, não quis saber da repetência do filho. Ficou fechado no seu drama pessoal. No seu fracasso. Como o filho.

Astorzinho e sua família tiveram um Natal razoavelmente feliz, próximo à iluminada Árvore de Natal da casa. O menino ganhou o iPod e ainda ganhou o notebook que queria do pai. A irmã ficou indignada.

— Eu estudo o ano inteiro e quem ganha um notebook é esse pirralho burro?

— Você continua mimando o Júnior, não é Adamastor? O menino não se dedicou, repetiu de ano e você ainda o presenteou com um notebook. Assim ele vai acabar como você...

— Eu sei, Helena, jogador de futebol e depois presidente de clube rebaixado para a segunda divisão, não é? Eu também não consegui fazer o meu time se manter no grupo de elite. Ele precisava vencer com combinação de resultados. Os outros jogos ajudaram, mas o meu time foi goleado na última rodada. Quem sou eu para condenar o garoto?
0

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Por Gustavo do Carmo

As crianças freqüentadoras do Shopping Esperança, uma pequena galeria comercial localizada em uma cidade qualquer no interior do estado do Rio de Janeiro, se recusavam a sentar-se no colo do Papai Noel. A maioria o achava nojento e tinha medo de ser contagioso. Uma minoria tinha pena. Dentro desta pequena parte, metade achava, mesmo piedosa, que aquele Papai Noel seria incapaz de realizar o seu sonho de Natal. A outra metade tinha pena e pronto.

— Ai! Eu não quero sentar no colo dele. Ele é muito feio. Dizia uma menina loura.
— Esse Papai Noel está com defeito. Reclamava, aos risos, um garotinho negro.

Os pais sequer repreendiam os filhos pelo preconceito. Pelo contrário, ainda os apoiavam. E boicotavam o shopping. Por causa deste preconceito o movimento caiu bastante. E uma queda de movimento em época de Natal poderia ser fatal. Os lojistas começaram a pressionar o dono do shopping, Orlando, a demitir o homem que se vestia de Papai Noel.

— Se esse Papai Noel deficiente acabar com o movimento das nossas lojas, abandonaremos esse shopping. Ameaçou um lojista.
— É ele ou a gente. Exigiu uma mulher, dona de uma butique.

Eleotério era o grande culpado pela polêmica do Shopping Esperança. Homem de meia-idade, cabelos grisalhos, era corretor imobiliário na cidade do Rio de Janeiro. Tinha mulher e dois filhos pré-adolescentes e lhes dava uma vida confortável. Mas sofreu um acidente de carro num dia chuvoso e perdeu parte das duas pernas. Ficou desempregado.

Um amigo, exatamente o dono da galeria, que foi seu colega nos tempos de escola, lhe ofereceu uma vaga temporária de Papai Noel. Depois o empregaria na gerência. Eleotério, preocupado com o preconceito dos freqüentadores do shopping, ameaçou recusar.

— Eu não posso aceitar. Eu não tenho pernas.
— E daí? Desdenhou Orlando.
— Daí que os lojistas e freqüentadores da sua galeria vão se assustar e fugir. Não quero que o seu empreendimento vá à falência por minha causa.
— Deixa disso, Eleotério. Isso é problema meu. Pode confiar em mim.
A necessidade de dinheiro para comprar pernas mecânicas, os presentes dos filhos, pagar as dívidas de fim de ano, além do desejo de felicidade nas festas de Natal e Ano Novo e de levantar a auto-estima depois de um acidente que eliminou uma parte do seu corpo para sempre foram fundamentais para que Eleotério pensasse na proposta. O apoio da esposa complementou o do amigo empregador.
— Você tem que aceitar esse emprego, amor.
— Mas eu não posso. Em cidades do interior há muita gente preconceituosa. Vão ficar com nojo de mim. Vou espantar a freguesia do meu amigo.
— Deixa de bobagem. As pessoas vão ter que te aceitar do jeito que você está. E essa é a sua única oportunidade para a gente ter um Natal feliz. Senão vamos ficar cheio de dívidas. Aceite pela nossa família.

E assim Eleotério acabou aceitando a proposta do amigo Orlando. No primeiro dia, aquele Papai Noel andando de cadeira de rodas segurando o cajado brilhante já assustou alguns freqüentadores. Os lojistas começaram a ficar com pena. As criancinhas de colo choravam. As maiorszinhas fugiam amedrontadas. As mais levadas jogavam bolinhas de papel. Os pais destas repreendiam apenas o gesto violento, mas faziam como os das demais: sorriam amarelo de preconceito e de pena e deixavam a galeria que começava a esvaziar. Os gerentes das lojas bufavam de raiva. Um chegou a ameaçar:

— Eu vou expulsar esse Papai Noel aos pontapés. Você vai ver.
— Vamos nos unir e contratar um outro Papai Noel para este shopping. De preferência que tenha pernas. Propôs um outro.
Todos concordaram e procuraram Orlando para comunicar a decisão.
— Não, não e não. Gritava Orlando em seu escritório. Para Eleotério, que ameaçava se demitir ao ver a reação negativa das pessoas que o estavam colocando para baixo. — Você não vai embora deste shopping!
— Mas, Orlando, esse preconceito está me abalando também. Por que quer manter aqui? Está sendo ruim para mim, está sendo ruim para você.
Orlando sentou-se em sua mesa, baixou a cabeça, enxugou as primeiras lágrimas que saíam e suspirou:
— Você quer mesmo saber por que eu te mantenho aqui? Eu digo. Eu tive uma filha. Uma filha linda, bondosa, alegre e cheia de saúde. Um dia ela estava na pracinha andando de bicicleta...Orlando embarga a voz para chorar. Ele continua: — eu estava comprando um cachorro-quente para ela. Estava de costas quando ouvi uma freada de carro e olhei pra trás, ela havia sido atropelada.
— Ela morreu? Perguntou Eleotério, batendo nos ombros do amigo como sinal de conforto.
— Não naquela hora. Ela chegou a ser socorrida. Sobreviveu do acidente, mas perdeu as duas pernas como você. Ela já sabia do que ocorrera, estava se conformando com o seu novo corpo. Deu nova pausa para chorar. — Mas teve uma infecção generalizada e morreu. Por isso, sou contra qualquer preconceito. E empreguei um Papai Noel deficiente em homenagem a ela. Mas decidi isso somente depois que fiquei sabendo do seu acidente.
— Como você ficou sabendo do meu desastre?
— Quando você se acidentou e estava em coma, a sua mãe me ligou, pois ela lembrava muito da época em que eu ia brincar na sua casa. Ela sempre me recebia bem e fazia lanches para a gente.
A secretária interrompe a conversa dos dois amigos para anunciar que os lojistas queriam falar com ele. Eleotério, empurrando as rodas da sua cadeira prontificou-se a sair, mas foi contido por Orlando.
— Não, não, Eleotério. Você fica aqui. Eu vou recebê-los na sua frente. Eles vão ter que acabar com esse preconceito besta. Pode mandá-los entrar, Juliana.

A secretária saiu e voltou com um grupo de cinco lojistas acompanhado de um senhor barrigudo, de cabelos e barba brancos e fartos. Tudo natural. Vestia uma camisa social e uma calça jeans. Duas pessoas do grupo fugiram assim que viram Eleotério, que estava vestido com a roupa vermelha, mas sem o gorro e a barba postiça.

O líder do grupo, um homem aparentando trinta anos, evita olhar para o Papai Noel cadeirante e diz logo a que veio:

— Orlando, a gente veio para exigir uma solução definitiva da sua parte sobre esse Papai Noel deficiente. Conseguimos este senhor que é o perfeito Papai Noel para substituí-lo. Pode deixar que a gente arca com os custos. Mas se não aceitá-lo vamos rescindir agora mesmo o contrato de locação.

Orlando bate forte na mesa, impaciente com a intolerância dos seus lojistas. Gritou:

— Chega! Seus preconceituosos filhos-da-puta! Vocês não têm compaixão pelos outros?! Só pensam em dinheiro e movimento! Se esqueceram que eu perdi uma filha que passou pelo mesmo drama do Eleotério? Se quiserem abandonar o shopping, abandonem! Mas o Eleotério vai ficar!

Eleotério baixou a cabeça, empurrou a sua cadeira de rodas em direção a porta e saía quando foi segurado pelo braço pelo senhor contratado pelos lojistas. Ele se manifestou. Contra os seus empregadores:

— Você fica, Eleotério. Eu me recuso a te substituir. Peraí, gente! Quando vocês me procuraram, me falaram que era para substituir alguém que estava doente, faltando com o trabalho ou que não gostava de crianças. Mas não. Vocês queriam que eu substituísse este cidadão apenas por causa de um preconceito? Vocês me enganaram. Quando eu cheguei ao shopping vi este senhor trabalhando. Ou melhor, tentando trabalhar. Fiquei com pena dele. Não da sua limitação física, mas da paciência que ele tinha com as crianças que o repeliam. Que não o deixavam exercer a sua função por causa de moradores de uma cidade preconceituosa. Com esse tratamento, qualquer um fica em depressão. Eu estou fora. Seu Eleotério, o senhor tem todo o meu apoio e pode contar comigo para o que quiser. Eu vou procurar um outro shopping na cidade vizinha porque esse aqui já tem o seu Papai Noel. Com licença.

E o senhor barrigudo de cabelos brancos saiu empurrando os lojistas que o trouxeram. O lojista líder, envergonhado com as lições de moral de Orlando e do Papai Noel contratado por eles, decidiu pedir educadamente uma solução para que o movimento do shopping não caia mais.

— Vocês têm razão. Nós não podemos ser preconceituosos. Mas não sabemos como mudar a idéia das pessoas. Fizemos isso não foi por maldade, mas por medo. Os fregueses estavam rejeitando o Eleotério do jeito que ele está e o movimento das nossas lojas estava caindo muito. Nós também temos família. Nós também precisamos de dinheiro para o nosso sustento. Em vez de pagarmos um outro Papai Noel podemos, pelo menos, oferecer uma perna mecânica para você? Esta foi a solução mais prática que eu encontrei para disfarçar, me desculpe o termo, a sua deficiência.
Orlando e Eleotério se entreolharam. Suspiraram e concordaram. Orlando respondeu.

— Não é a solução mais adequada para acabar com o preconceito, mas pode. A minha intenção é ajudar vocês também.

— E eu estava mesmo querendo um par de pernas mecânicas. É o meu primeiro plano de investimento para o próximo ano. E seria um ótimo presente de Natal.
Pela primeira vez o lojista líder abriu um sorriso antes de dizer.

— E será o presente que vamos te dar.

Os lojistas, inclusive os que fugiram no início da reunião quando viram Eleotério, fizeram as pazes com este e Orlando. A perna mecânica demoraria para chegar. Depois da reunião, ainda sem as próteses, Eleotério já se acostumara com a rejeição das crianças quando uma menina morena aproximou-se dele (não podia sentar no seu colo) e lhe pediu um presente de Natal.

— Ho, ho, ho, a menina linda não tem medo de mim por eu não ter pernas?
— Medo de quê? Meu irmãozinho também não tem.
— E por que ele não veio me ver?
— Ele está gripado. Não pôde vir. Outro dia eu trago ele aqui.
— Melhoras para ele. E o que você vai querer de Natal? Uma perna mecânica para ele?
— Não. Perna mecânica ele já vai ganhar da mamãe. Pra ele eu quero pedir uma raquete de tênis. E pra mim uma bicicleta.
Eleotério começou a chorar emocionado, lembrando da filha do amigo Orlando. A menina ficou com pena e o abraçou.

Os lojistas e freqüentadores pararam para ver a cena. A menina abraçando carinhosamente Eleotério. Outras crianças quiseram falar com o Papai Noel sem pernas. Formou-se uma fila. O movimento do Shopping Esperança voltou a crescer. Os prejuízos da primeira semana de dezembro foram recuperados.

Eleotério ganhou as suas próteses na véspera do Natal. Mas decidiu dispensá-las quando a menina e o irmão o viram com elas e se sentiram traídos, ficando emburrados. O Papai Noel as retirou ali mesmo no seu trono. Para aplausos dos freqüentadores e dos jornalistas da capital e do resto do país, que quiseram conhecer o famoso Papai Noel Sem Pernas.
0

Arquivo do blog