domingo, 5 de outubro de 2008

ESCADINHA *

Por Ed Santos

Eu, até então estava louco pra poder encontrar algo que me fizesse bem.

Ela, por aqui, infelizmente não conseguia manipular a secretária eletrônica para ver os recados.

Estávamos todos reunidos de novo em volta do balcão do bar do Freitas, e ele sempre disse que ela e eu iríamos casar e ter filhos lindos. A turma toda estava lá, e quando ela chegou, foi como se o céu caísse. Os olhos emputecidos, as mãos frias, e aquela insuportável dor de dente, que ela nunca conseguiu curar.

Eu sei que quando saíamos por aí, ela queria voltar logo pra casa, mas eu adorava a noite paulista, e só lamentava por ter que ir embora antes da meia-noite, por causa do metrô. Merda!
Pedimos mais uma rodada, e pra beliscar, uma tábua de frios.

O Valdemar, aquela bicha louca, ia fazer 50 anos no outro dia e a festa ia ser na rua mesmo, com feijoada, e tudo. Bom que tava frio pra caralho e a caipirinha ia cair como uma luva. A expectativa era de que viriam todos os pederastas que ele conhecia. Mas ele afirmava de pé junto que ia ser uma festa familiar: "Traz a molecada pra vir também. Vai ter refri!". Aquela bicha era louca, literalmente.

A Dalva apresentou a namorada, uma menina de desessete anos. Nova pra ela que era uma manicure com quarenta e cinco. Ficou puta da vida em saber que o Valdemar ia fechar a rua no sábado, dia de maior movimento no salão. Mas foi convencida de relaxar: "Calma amor, a gente vai pra festa também pra se divertir. Depois a gente recupera o tempo perdido", disse a ninfa adolescente e gay.

Ficamos eu, o Freitas e minha deusa a divagar sobre a festa do Valdemar, esperando que ele não abusasse muito. O Freitas contou que certa vez ele deu uma festa no apartamento de um namoradinho, e que a polícia só não levou todo mundo pra delegacia no fim da festa, por que ele conseguiu convencer os guardas a "ficar mais um pouquinho". E eles ficaram, os guardas.

Eu não queria ir embora, mas ela disse que o dente, aquele porra daquele dente, estava doendo demais. o Valdemar me agarrou pelo braço e me mostrou dois caras se beijando, e disse: " Se você quiser, eu mando buscar vocês amanhã. É daí pra pior!", acenou com a cabeça.

Quando chegamos em casa, depois de irmos ao dentista, a primeira coisa que ela fez foi ver os recados da secretária eletrônica. Tinha dois do Valdemar dizendo que estava esperando a gente ir pro aniversário dele. Ela falou que não saía de casa nem que pagassem. Eu peguei meu cachecol, as chaves e bati a porta. Nem a beleza daqueles olhos emputecidos, nem aquelas mãos frias, foram capazes de me prender.


* Escadinha, era como a turma chamava o bar do Freitas.

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