domingo, 26 de outubro de 2008

AS HISTÓRIAS DO AMADEU - QUINA DE TERNO

Por Ed Santos

 

- Bati! Próximo! – disse o Amadeu, feliz da vida por mais uma vitória.

- Sou eu e meu amigo aqui.

- Ô Seu Déco, senta aí! E o seu parceiro, quem é?

- É nosso novo vizinho. Ele é psicólogo, e tá montando consultório do lado do meu estabelecimento.

- Beleza! Senta aí então, e vamos pro jogo.

À mesa, sentaram-se para a partida o Amadeu em parceria com o Carlos, e o Seu Déco em parceria com o tal psicólogo. Depois de embaralhar bem as pedras, o Carlos, recolhendo as suas sete, pergunta:

- Quer dizer que o Seu Déco tá de folga hoje?

- É! Precisei sair pra ver umas coisas lá do bar, e vou jogar uma partidinha aqui até dar minha hora.

- E aproveitou pra tirar o nosso amigo doutor do seu ofício pra vir também?

- Nada disso, o doutor tá mudando ainda. Que pedra é essa aí? Nossa, não tô enxergando nada com esses óculos ridículos!

- É “quina”.

- Putz, passei! Joga Amadeu.

O Amadeu então acorda.

- É minha vez? Então vou dar uma moleza aqui pro doutor. O que o senhor viu aqui nessa região pra montar um consultório? Fez pesquisa antes? Tem muito doido por aqui?

O doutor sorri:

- Não amigo. Vim por que estou fazendo um estudo sobre a relação humana dos indivíduos aposentados.

- Então tá no lugar certo! Aqui nessa praça o que mais tem é aposentado. Pra onde você olhar, você vê um. Pedra dura essa aí em parceiro?

- O Seu Déco pegou um belo jogo. Deixa eu ver o que consigo fazer por aqui.

- E do que seu estudo trata doutor? – perguntou o Seu Déco, após tomar um “passe” do Carlos.

- Quero estudar os conflitos na vida do cidadão aposentado e a partir do resultado, estabelecer um indicador de padrão de vida relacionado a idade,  ou seja, quero identificar quais tipos de conflitos causam impacto na vida  desse cidadão, e quanto esses conflitos interferem no tempo de vida dele.

- Deixa eu ver se entendi. Você quer saber se eu tenho um problema psicológico e se o meu problema pode ser o motivo da minha morte? – questiona o Carlos, preocupado, e lembrando das suas pontes de safena.

- É mais ou menos isso. Quantas pedras você tem parceiro?

- Duas.

- Então eu vou deitar! - disse convicto da jogada o doutor.

O Amadeu parecia estar em outro mundo, segurando sua única pedra. Ele estava fixado no relato do doutor, e como Carlos preocupou-se também, a ponto de não ter prestado atenção o bastante no jogo.

- Passei – disse ele.

O parceiro não acreditava que a arquitetura de suas jogadas não deu certo, mas fazer o que? Jogo é jogo.

- Bati! - exclamou Seu Déco todo alegre.

- Nunca vem aqui, e quando vem, estraga a brincadeira dos outros! Que pedra você tem aí Amadeu? – perguntou o Carlos curioso e insatisfeito com a derrota.

- O que? – Amadeu não ouviu o parceiro. Continuava pensativo na história do doutor, e se viu como um potencial “paciente”. Seus problemas com a Marilda, aquela maldita descoberta do caso do Catatau, tudo poderia lhe trazer problemas e até quem sabe, a morte.

- Qual é a pedra que você tem aí criatura? Tá dormindo?

- Ah, é “quina de terno”.

O Carlos, então, gritou inconformado e enlouquecido:

- Passou com pedra na mão Amadeu?

 .

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