sexta-feira, 5 de setembro de 2008

OBJETOS

O menino pega escondido a caneta de ouro de estimação do pai, que havia ganhado do avô do menino, quando se formou na faculdade:
– Filho, você é dotô, como tô orgulhoso. O garoto corre para o quarto, pega uma folha e começa a desenhar.
Vai aos aposentos da mãe. Vê uma echarpe sobre a cama. Gostava de ir à janela para que o vento a esvoaçasse. Imaginava que voava no tapete mágico, que nem na história de Aladim. A echarpe foi presente de um antigo namorado de sua mãe. Ela nunca deixou de amá-lo, mas gostava do marido também. Aliás, seu coração havia lugar para os três homens de sua vida...
Ele começa a brincar com um carrinho de madeira, que foi feito pelo seu avô paterno, quase não v0a. Não sabia o motivo do avô não visitá-lo.
Larga o brinquedo, vai ao quarto fechado pela mãe. Pega a chave da porta, escondida junto com as jóias. Quando entra no recinto, a primeira coisa que faz: olhar a foto da irmã morta. Era uma moça de dezoito anos e havia morrido de uma estranha hemorragia. Ninguém falava no assunto, o garoto só escutava frases soltas dos empregados. A foto da irmã foi tirada em Petrópolis, estava com um vestido azul que a avó materna lhe deu de presente. Sobre a cama, havia uma boneca loira de olhos azuis que o pai comprou nos Estados Unidos, quando viajou a negócios. O garoto imaginava que ela era sua princesa, inventava histórias cheias de aventuras e que era um guerreiro, que a salvava das situações mais perigosas.
De repente, uma xícara se quebra. O grito da mãe o assusta e vai ver o que está acontecendo. Vê o rosto da mãe desfigurado. Ela quase bate na empregada, por quebrar a frágil relíquia. O vendedor do antiquário lhe disse que pertencera a um rei famoso de nome complicado. Mas, ainda bem que não foi o uísque de doze anos do patrão, presente do embaixador inglês. O salário da empregada seria descontado até o dia da aposentadoria. O pai chega com o carro que toda vida sonhou em possuir. Nunca se cansa em olhar a casa antiga e espaçosa. Lembra-se que a mulher lhe diz sempre:
– Foi habitada por pessoas influentes.
A noite avança. Todos foram dormir. O menino dorme com um livro nos braços. A velha bá o lia para ele, quando era mais novo. Quando cresceu, a mãe dispensou os seus serviços. Não queria concorrência. Ele sempre se lembrava da "bá".
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