domingo, 28 de setembro de 2008

DOR DE DENTE

Por Ed Santos

De Aldir Blanc todo ouviu falar. Se não, pelo menos já ouviram O Bêbado e o Equilibrista dele e de João Bosco, sucesso na voz de Elis Regina. Mas e do dentista do Aldir? O musico como todo filho de Deus tinha suas necessidades de cura, suas dores de amores e suas dores de dente, que noite à dentro martelam como um bate-estaca no maxilar.

Diz o poeta que poesia é a mais humilde das artes, e ainda cita que os tijolos estão para os operários assim como a palavra está para o poeta, só que a diferença – não muito intensa, é verdade – é a forma da concepção. O operário segue as orientações de um construtor, que segue as orientações de um engenheiro obediente ao projeto de um arquiteto. O poeta não. O poeta assume as quatro funções de sua obra.

E a musica para o músico? O compositor compõe, o instrumentista toca e o intérprete põe alma à letra. Na minha humilde opinião o músico é utilizador assíduo e freqüente das funções do poeta e do operário, porém o diferencial é a parceria. O poeta é uno, excelso. O operário, obediente, submisso, auto-ordenado. Já o músico, além das características dos nobres confrades, precisa de parceiros, e muitas vezes essas parcerias acontecem de forma inusitada e necessariamente envolta a sentimentos concebíveis apenas através da alma.

Alguém disse que o homem escreve para matar a morte. Eu diria que quem faz música a faz para viver a vida. E a vida sem dor não é possível. É necessário sentir, sofrer, perder. Faz parte, sempre. Dores, dores, grandes incentivadoras da criação. Inclusive a dor de dente.

O Aldir Blanc tem como um de seus parceiros o violonista e compositor Guinga, que é dentista de profissão, e que eventualmente atende o colega. Uma dor como vemos, pode ser motivadora de criação. Nesse caso, literalmente.

Um comentário:

Gustavo do Carmo disse...

Crônica muito bem bolada.

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