sexta-feira, 12 de setembro de 2008

A DONA DE CASA

A mãe tinha comprado um patinho de vidro azul, para enfeitar a estante da sala. A sua filha de um ano ficava fascinada, com aquela coisa azul, que não sabia o que era. Ela era mais viva do que humana e ainda estava aprendendo, a construir um olhar sobre mundo em que vivia.



O pai odiava os enfeites que a mulher comprava para casa. Era um homem seco e sarcástico. Teve a idéia de pegar a filha no colo, deixando a nanem tocar no patinho. A mãe só escutou o barulho de algo se partindo. Correu para sala. Quando olhou para o chão, viu estilhaços azuis.



De repente, sentiu um ódio mortal e pensou: "Ele não quer deixar, que eu tenha nada" . Pensou na filha, resolveu varrer os cacos para preparar o almoço. Com o tempo, esqueceu da maldade do marido. Tinha assuntos mais importantes.



Anos mais tarde, com a morte do marido, encheu a casa de patinhos de vidro azul; colocou quadros de fundo espelhados por toda a casa; comprou uma pequena fonte e colocou no canto da sala; arranjou uma mesinha de centro, repleta de porta-retratos da família.



Arrumou a casa do seu jeito, sem implicâncias do marido, que sempre dizia: – Isso é muito cafona; – Você não tem gosto mesmo–. Pela primeira vez, ela se sentiu dona da casa e uma liberdade plena.



Todo final de semana preparava um almoço gostoso e uma sobremesa deliciosa para a filha, o genro e os netos. Era uma boa avó, mas a única coisa que ela não permitia, era que mexessem nas suas bugigangas. Não deixaria mais ninguém quebrá-las.

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http://dudv-descarrego.blogspot.com/

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