terça-feira, 16 de setembro de 2008

Conto


Suzana dos Santos Schneider era loira, gordinha clara, olhos azuis, herdados do pai (dentista alemão, jurara a mãe, que fora assistente dele e conhecera a cadeira dos pacientes sem abrir a boca, só as pernas, e devia ser verdade, porque ela era mulata.) Suzana andava pelas ruas do bairro, para onde tinha mudado recentemente, numa bicicleta cor de rosa, sacudindo o rabo herdado da mãe, um no selim e o outro, de cavalo, no penteado. Todos os dias, sempre à hora da sesta, quando as ruas do bairro estavam quase vazias, passava como se deslizando, graças à força de um empurrão invisível dado no início da rua em declive, pela porta da casa de Oscar que, ao voltar da escola, sentava na soleira da porta, a bocejar a modorra depois do almoço.
Ao passar, manobrando o guidão com a jovial destreza de seus aparentes quinze anos, ela olhava com seus olhos azuis para ele com a brevidade que o recato permitia e logo se perdia na esquina próxima. Minutos depois de contornar a quadra, voltaria a passar e repetir seu olhar, às vezes acrescido de um sorriso tão breve que Oscar duvidava de tê-lo notado. Mas seu coração o via, provocando o palpitar agitado da certeza. Mas sua covardia e a dúvida das intenções dela lhe manietavam qualquer iniciativa.
Uma semana nesse ir e vir e ainda não sabia onde ela morava. Mas sabia a hora em que ela desapareceria, para retornar só no dia seguinte, à mesma hora. E o Onã que havia nele a imaginava virgem, nua e sua. E lhe indicava maneiras de chegar nela: jogar-se na frente da bicicleta quando ela passa-se! Jogar uma flor em sua direção! Um beijo! Um grito!
Na segunda volta do décimo dia, Suzana, o destino, ou ambos, resolveram facilitar o encontro: O pneu da bicicleta rosada murchou a poucos metros dele. Desamarrando as algemas do embaraço de seus tornozelos, ele chegou perto dela, e de pé a seu lado, perguntou:
– Furou o pneu? – abaixada ao lado da bicicleta examinando a roda, ela levantou o rosto vermelho de exercício e iluminado de olhos azuis, e respondeu:
– Parece. – ao sorrir, seus lábios grossos deixaram à mostra pequeninos dentes e seu decote, pequeninos peitos juvenis. – Vou ter de andar até em casa. Resolveu ela, erguendo-se.
– Deixa eu te ajudar. – propôs ele e, segurando o guidão, se apresentou: – Meu nome é Oscar.
– O meu é Suzana. – disse ela sorrindo, deixando-o conduzir o veículo, andando a seu lado.
“Pronto” suspirou Oscar, com a alegria exagerada da mocidade.
Na rua atrás do mesmo quarteirão, ela parou à porta de uma casa.
– Pronto. Chegamos. – disse ela. – Obrigada pela ajuda.
– Tem como arrumar o pneu? – perguntou ele.
– Tenho um estepe.
– Posso trocar para você agora.
– Não tem pressa. – disse Suzana retomando o guidão e roçando a mão dele. – Mas, pode ser. Quer entrar? – convidou.
– Claro. – respondeu Oscar sem saber mais o que dizer ou pensar com tamanha sorte.
– Vem comigo. – Ordenou a moça, abrindo a porta e entrando. Ele foi atrás, arrastando a bicicleta. No pequeno quintal, pendurado num prego na parede, o estepe. Suzana logo foi abrindo um pequeno baú e dele tirou algumas ferramentas.
– Servem estas? – disse ela.
– A chave ou um alicate bastam. – Suzana lhe estendeu a de fenda e ficou bem perto dele, a observar.
Manipulando parafusos e excitação pelo calor que o hálito perfumado dela lhe provocava, Oscar distraiu-se e a chave de fenda foi lhe rasgar um dos dedos; o sangue jorrou, molhando o chão. Suzana, condoída, disse:
– Ai! Coitado. – Segurando-o pelo braço, ordenou: – Vamos limpar essa ferida, vem comigo.
Ele foi atrás dela, e atravessando cozinha e sala, ela explicou o silêncio da casa. – Minha mãe esta no serviço. – Na porta do banheiro ordenou: – Entra aqui. – Abrindo a porta do armário espelhado, mostrou remédios diversos: – Minha mãe trabalha num posto e traz monte de remédios. Deixa vê esse dedo. – Oscar estendeu a mão. – Tadinho. – sorriu ela e lambeu a ferida. O resto do sangue do corpo dele provocou-lhe uma ereção instantânea que não conseguiu segurar, nem esconder. – E esse aí? Também quer remédio? – zombou ela, e riu do rubor dele. – Primeiro este aqui. – E puxou o braço até ele encostar o corpo inteiro atrás dela, que abriu a torneira e lavou o dedo machucado por um minuto, no qual a ferida ardeu e o falo doeu de inchaço. – Não queremos uma infecção nem hemorragia, certo? E lambuzou o dedo com uma pomada e a seguir enrolou gaze que prendeu com um esparadrapo. – Pronto, assim minha mãe cura meus machucados. Como este aqui! – E levantou a saia até o inicio das coxas e da calcinha para mostrar o joelho e a cicatrização de uma pequena lesão. O priapo de Oscar latejava mais que o dedo enfaixado e não pode evitar pôr a mão sobre o volume da calça, tentando esconder. – E esse aí? Quer algum remédio? – sorriu Suzana.
– Sim. Não. – disse ele, prendendo a respiração.
– Tadinho. Deixa ver esse dodói. – Oscar a deixou afastar a mão cobrindo a braguilha e ficou imóvel. – Ta com medo? – brincou ela. – Não vai doer nada. – E acariciou o vulto com carinhoso desprendimento. O embaraço de Oscar contrastava com a licenciosidade dela e sem precisar desnudar o “tadinho” ele sentiu o gozo molhar a cueca. Sufocado pela vergonha que lhe tirara o fôlego, saiu correndo. Enquanto atravessava a sala e a cozinha, ouviu a risada dela ecoar no banheiro. Saiu à rua e em dois quarteirões, entrava em sua casa e, num pulo, em seu quarto. E até a noite, deitado na cama dividida com Onã, relembrou tudo em detalhe e, imaginado o que não acontecera, molhou o lençol algumas vezes, até o sol raiar.
Apavorado de vergonha pelo que poderia ter acontecido, sem aparecer na porta da casa por dois dias, escreveu e reescreveu um bilhete pedindo desculpas e prometendo mundos e fundos de amores devidos e por dar.
No terceiro dia foi sentar-se na soleira da porta, dobrando e desdobrando, lendo e relendo o bilhete, aguardando ela passar.
Mas nesse, e no quarto dia, Suzana não apareceu na rua.
A angustia do mistério e do desejo lhe insuflaram a valentia que o levaram em direção da casa dela. Ao chegar à esquina do quarteirão, viu Suzana acompanhada de um rapaz que, segurando a bicicleta com um pneu murcho, entrava na casa atrás dela.

3 comentários:

Anônimo disse...

Caríssimo

Mais do que apenas um conto, retrataste, metafórica e magnificamente, a VIDA. Como criamos e perdemos sonhos e oportunidades, pelas mais diversas razões...
Melancólico mas, como sempre, belo!
Parabéns e mil abraços.
Comissária

Anônimo disse...

Mocinhos e mocinhas, dadivosos!
Gostei!!!!
Beijocas.
A Condessa.

Ed Santos disse...

Muito bom!

Como disse a comissária, é a vida!!!

Abraço,

Ed.

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