domingo, 31 de agosto de 2008

O DESTINO (NÃO) QUIS ASSIM

Por Ed Santos

Eles se esbarraram na saída da faculdade. Na catraca eletrônica. Ela fazia botânica e ele administração. Ele estava se formando, ela ficou sabendo. Desceram até o ponto de ônibus juntos, e foi o suficiente pra trocarem telefones.

Ela era especialista em continuar solteira, mesmo procurando incessantemente por um parceiro. Não admitia que aos 36 anos, ainda não havia substituído o sonho de casar pela realização do sucesso profissional e da independência financeira feminina.

Naquela cidade, dizia-se haver 250 mil homens. Destes, dois terços eram solteiros. Ela não gostava destas estatísticas, nunca gostou. Aliás, nunca se deu muito bem com números, por isso escolheu a área biológica. Ficava deprimida sempre que encontrava a Ana, amiga de infância, que quando cresceu determinou como meta, sair com dois homens diferentes por mês.

Se nos últimos três anos a Ana conseguiu atingir a meta, então teve a companhia de 72 homens diferentes no período. Já a Neusa, nestes três anos conheceu só o Franco, o cara da faculdade.

Alguns papos ao telefone, e finalmente marcam um encontro. Um jantar na casa da Neusa. Ela que mora sozinha fez creme de palmito, preparou a mesa com um belo e vistoso pão italiano, guardanapos decorados e duas lindas taças pro vinho que ele ficou de trazer, apesar dela sempre ter uma garrafa em casa. Todo solteiro que mora sozinha, tem uma dessas em casa. Às vezes duas, depende da rotina.

Três horas depois do combinado, ela liga pra amiga Ana:

- Ana, aos 25, eu não ligava muito, mas agora, tomar um bolo na minha idade é o fim!

- Ele ainda não chegou amiga?

- Ainda? Ele tá atrasado “só” três horas. Já requentei o creme de palmito duas vezes!

- Amiga, quer um conselho?

- Diga.

- Abra o vinho, bota uma música e relaxa.

- E se eu ligar?

- Se você prefere...

- Depois a gente se fala, beijo.

A Neusa pega a agenda, olha lá na letra “F”, e disca.

- Boa noite, o Franco está?

- Quem quer falar com ele?

- É a Neusa.

- Olha Neusa, eu sou a mãe do Franco.

- Olá. A senhora me faz um favor? Diga ao seu filho que não me procure mais. E aproveita pra tentar reeducá-lo tá. Deixar as pessoas esperando é de muita falta de educação. Nem ao menos avisa...

- Minha querida, sinto muito, mas não vou poder fazer o que você está me pedindo.

- A é? E porque não?

- O Franco morreu hoje pela manhã. Foi atropelado quando desceu do ônibus na porta do trabalho.

Um comentário:

Gustavo do Carmo disse...

Pelo título cheguei a achar que eles se separaram ao seguirem caminhos diferentes.

Comigo aconteceu algo parecido meses atrás. Me preparei para receber uma equipe de televisão em casa e levei um bolo. Só que aí não foi destino. Foi falta de respeito e profissionalismo mesmo.

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