segunda-feira, 18 de agosto de 2008

DIRETO DO ARQUIVO - PONTO DE ENCONTRO DA HISTÓRIA



Resenha do livro Rua do Ouvidor 110 - Uma história da Livraria José Olympio, de Lucila Soares, por Gustavo do Carmo (publicada em 08/04/2007). Texto original com algumas correções.

O livro sobre a história da Livraria José Olympio Editora foi lançado em novembro do ano passado (n.a: em 2006) em comemoração aos 75 anos da editora. Confesso que só o adquiri no Natal. Li em uma semana. Terminei de ler exatamente no primeiro dia do ano. Antes de resenhar, fiz questão de conferir pessoalmente o que ocupa o endereço atualmente.

Mesmo estando 'in loco' no endereço Rua do Ouvidor 110, ainda tenho dúvidas do que se transformou o local. É que a história diz que o Edifício Portella, que abrigava a livraria em sua loja no térreo e pertencia à Casa Colombo, uma espécie de Lojas Americanas da época, foi demolido para a construção do novo prédio do Banco Nacional de Minas Gerais, da família Magalhães Pinto, de frente para a Avenida Rio Branco. Anos depois, o BNMG, que se transformou no famoso Banco Nacional (o banco do guarda-chuva) foi adquirido pelo Unibanco, que hoje ocupa o provável prédio. Só que o imóvel atual está no lado ímpar. Se não houve uma mudança na numeração, o endereço par da livraria atualmente é ocupado pelo Banco Santander. Aguardo correções.

A livraria tinha os dois primeiros nomes de José Olympio Pereira Filho, um visionário que saiu de Batatais, cidade do interior paulista, para ganhar a vida na capital. Ganhou um emprego modesto na famosa livraria paulistana Garraux, indicado pelo então presidente (cargo hoje chamado de governador) do Estado de São Paulo, Altino Arantes. José o escolheu pessoalmente para ser o seu padrinho de crisma, exatamente com a intenção de mudar de cidade. José foi crescendo no emprego e promovido aos poucos, até se tornar sócio. Em 1931, comprou a biblioteca recheada de livros raros do falecido membro da ABL Alfredo Pujol -advogado, bibliófilo e biógrafo de Machado de Assis - e abriu a livraria que leva o seu nome.

Três anos depois, a José Olympio transferiu-se para o Rio de Janeiro, no endereço que entitulou a historiografia. O empresário e editor já era casado com Vera Pacheco Jordão, de família aristocrática paulistana. Eram bons tempos para a então capital do país, referência cultural e política naqueles anos 30. Já São Paulo sofria, não apenas com o esvaziamento econômico provocado pela quebra da Bolsa de Nova York em 1929, como, também, o boicote político que gerou a Revolução Constitucionalista de 1932. Hoje ocorre exatamente o contrário.

Estabelecido no Rio, José Olympio editava os grandes nomes da literatura nacional da época como Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Jorge Amado, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Rubem Braga, entre outros. Tornou-se o maior editor da primeira metade do século XX. Foi o pioneiro no adiantamento dos direitos autorais. Já a sua livraria tornou-se não apenas uma referência no varejo como também um ponto de encontro e até a segunda casa de alguns desses escritores. Zé Lins, Graciliano, Drummond e Rachel foram os grandes amigos de J.O. (seu apelido). Houve até algumas discussões que culminaram em agressões físicas, dentro da livraria. Por outro lado, aspirantes a escritores também podiam pedir autógrafos, conversar ou mesmo pedir que seus ídolos lessem os seus textos.

A Livraria José Olympio funcionou no endereço imortalizado até 1955, quando o Edifício Portella precisou ser demolido para a construção da nova sede do Banco Nacional. A editora, que já passara pelo segundo andar do antigo prédio, pela Praça Quinze e pela Rua Nilo Peçanha, sempre no Centro da cidade, mudou-se definitivamente para a Rua Marquês de Olinda, 12, em Botafogo, zona sul, em 1964. Era a primeira vez que a José Olympio tinha uma sede própria. O terreno e a construção do prédio de quatro andares foram financiados com a indenização contratual paga por Magalhães Pinto. O empresário José Olympio ainda realizou o sonho de ter um restaurante para os funcionários, que se localizava no quarto andar e se chamava Cantina Batatais, em homenagem à sua cidade natal. O estabelecimento passou a ser o anfitrião de animados almoços semanais entre os escritores. Alguns freqüentadores do antigo endereço já haviam morrido, como Graciliano Ramos e José Lins do Rêgo. Mas novas gerações passaram a freqüentar, como Ariano Suassuna. Apesar da alegria, o novo ponto de encontro já não tinha mais a alma da loja na Rua do Ouvidor, assim como a livraria que funcionava no térreo da nova casa. Em 1973 o restaurante fechou. Dois anos depois, a empresa ficou sob a administração do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (atual BNDES). José Olympio morreu em 1990. Hoje, a editora é um dos selos do Grupo Editorial Record.

Em formato diferenciado (21,5 x 21,5 cm), Rua do Ouvidor 110 conta a história da livraria e editora em em 203 páginas através de artigos breves, que compõem os sete capítulos do livro. É escrito com emoção, mas bem didático. Foi recheado de fotos e reproduções de matérias de jornais da época. Há ainda crônicas de Graciliano Ramos e Carlos Drummond de Andrade. A diagramação e suas ilustrações são inspiradas nos livros publicados pela J.O. Patrocinado pela Biblioteca Nacional, foi escrito por Lucila Soares, jornalista e neta de José Olympio. O prefácio é de Laurence Hallewell, além da apresentação da própria autora. Preço de capa: 40 reais. Mais detalhes no site da Record

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