domingo, 31 de agosto de 2008

Por Ed Santos

Eles se esbarraram na saída da faculdade. Na catraca eletrônica. Ela fazia botânica e ele administração. Ele estava se formando, ela ficou sabendo. Desceram até o ponto de ônibus juntos, e foi o suficiente pra trocarem telefones.

Ela era especialista em continuar solteira, mesmo procurando incessantemente por um parceiro. Não admitia que aos 36 anos, ainda não havia substituído o sonho de casar pela realização do sucesso profissional e da independência financeira feminina.

Naquela cidade, dizia-se haver 250 mil homens. Destes, dois terços eram solteiros. Ela não gostava destas estatísticas, nunca gostou. Aliás, nunca se deu muito bem com números, por isso escolheu a área biológica. Ficava deprimida sempre que encontrava a Ana, amiga de infância, que quando cresceu determinou como meta, sair com dois homens diferentes por mês.

Se nos últimos três anos a Ana conseguiu atingir a meta, então teve a companhia de 72 homens diferentes no período. Já a Neusa, nestes três anos conheceu só o Franco, o cara da faculdade.

Alguns papos ao telefone, e finalmente marcam um encontro. Um jantar na casa da Neusa. Ela que mora sozinha fez creme de palmito, preparou a mesa com um belo e vistoso pão italiano, guardanapos decorados e duas lindas taças pro vinho que ele ficou de trazer, apesar dela sempre ter uma garrafa em casa. Todo solteiro que mora sozinha, tem uma dessas em casa. Às vezes duas, depende da rotina.

Três horas depois do combinado, ela liga pra amiga Ana:

- Ana, aos 25, eu não ligava muito, mas agora, tomar um bolo na minha idade é o fim!

- Ele ainda não chegou amiga?

- Ainda? Ele tá atrasado “só” três horas. Já requentei o creme de palmito duas vezes!

- Amiga, quer um conselho?

- Diga.

- Abra o vinho, bota uma música e relaxa.

- E se eu ligar?

- Se você prefere...

- Depois a gente se fala, beijo.

A Neusa pega a agenda, olha lá na letra “F”, e disca.

- Boa noite, o Franco está?

- Quem quer falar com ele?

- É a Neusa.

- Olha Neusa, eu sou a mãe do Franco.

- Olá. A senhora me faz um favor? Diga ao seu filho que não me procure mais. E aproveita pra tentar reeducá-lo tá. Deixar as pessoas esperando é de muita falta de educação. Nem ao menos avisa...

- Minha querida, sinto muito, mas não vou poder fazer o que você está me pedindo.

- A é? E porque não?

- O Franco morreu hoje pela manhã. Foi atropelado quando desceu do ônibus na porta do trabalho.
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sábado, 30 de agosto de 2008

O maior desastrado
Pedro J. Bondaczuk*


O sujeito desastrado, aquele que invariavelmente tropeça onde e quando não deveria tropeçar, que mostra extrema inabilidade nas tarefas e relacionamentos mais triviais e que faz tudo errado, quando as circunstâncias lhe são benignas e favoráveis, faz a delícia dos que vivem de fazer humor. Hollywood sempre explorou com competência o tipo, para fazer multidões rirem (mais do que isso, chorarem de tanto gargalhar) com personagens trapalhões, como o imortal Carlitos de Charles Chaplin, o Gordo e o Magro, os Três Patetas, Cantiflas, Edie Murphy e tantos e tantos outros, que ao longo dos anos foram um santo remédio para desopilar nosso fígado.
Na literatura, o tipo também (como não poderia deixar de ser) é bastante explorado. Na televisão, nem é preciso lembrar. Todos os programas humorísticos têm lá o seu trapalhão, com ou sem bordões característicos, a garantirem o Ibope das emissoras. Todos nós, porém, em maior ou menor medida, somos, em determinadas circunstâncias, incorrigíveis desastrados. Nem sempre nossas trapalhadas são motivos de riso para os outros e, pior, para nós mesmos. Às vezes, são para se lamentar e se chorar. Marcam nossas vidas e, não raro, as arruínam.
No mundo, convenhamos, não faltam pessoas desastradas, que fazem tudo errado e depois se queixam das conseqüências, que quase sempre são óbvias e, portanto, evitáveis. Há, por exemplo, os que envenenam os relacionamentos afetivos com prepotência, egoísmo e ciúme e depois acham estranho o fato de acabarem sozinhos.

Há, também, os que se mostram irresponsáveis na execução de suas tarefas e se lamentam quando são demitidos. Mas o maior desastrado de todos é o sujeito com reconhecido potencial para ser bem-sucedido nas artes, nos esportes, em alguma profissão etc., mas desperdiça seu talento ao fazer escolhas equivocadas.

A maior insensatez é a da pessoa com obsessão pelo dinheiro. É a de quem concentra toda a atenção e esforços somente nisso, a pretexto de “ganhar a vida”. Todavia, agindo assim, na verdade a desperdiça, deixando de usufruir bons momentos que surgem em seu caminho e que dificilmente voltam depois de haverem passado.

O que devemos é nutrir um ideal elevado e sair na sua conquista, empenhando, nisso, o que tivermos de melhor. Escreva um poema ou um romance; componha uma sinfonia; pinte uma tela com competência; esculpa uma escultura perfeita; construa uma casa ou uma ponte; descubra a cura de uma doença ou faça outra coisa bela ou útil qualquer, mas sem se preocupar com o que ou o quanto isso irá lhe render.

Se o que você fizer de fato tiver valor, fatalmente você será recompensado por isso. E se não for? A satisfação íntima da realização de uma obra-prima será uma compensação mais do que valiosa, pois é algo que não tem preço. Não seja, pois, o desastrado dos desastrados. Não faça como aquela mãe que jogou o bebê junto com a água do banho. Nunca jogue a vida fora!

Um dos princípios fundamentais do budismo diz que para evitarmos sofrimentos – causados, sobretudo, pela frustração – temos que eliminar os desejos. Se não todos, pelo menos a maior parte deles precisa ser eliminada. Quanto mais os eliminarmos, maiores serão as possibilidades de nos sentirmos felizes. Impossível? Não! Mas é extremamente difícil.

Somos (salvo raríssimas exceções) desastrados nesse aspecto. Desejamos tanto o que pode ser alcançado, quanto (e principalmente) o que está absolutamente fora do nosso alcance. E este último tipo de desejo é que se torna a grande armadilha, que nos impede de encontrar (e de trilhar) o caminho da felicidade.

Quantas vezes somos sumamente felizes e sequer percebemos! Se mantivéssemos essa situação ideal, se a usufruíssemos em sua plenitude e se não desejássemos nada, além dela, nossa vida transcorreria no que os poetas chamam de “mar de rosas”. Não é isso, porém, o que fazemos.
Queremos mais, mais e mais, sempre mais, e nem tudo o que desejamos (diria a maioria) nos é conveniente, útil, saudável, benigno ou, sobretudo, factível. Em três tempos, a frustração, o ressentimento, a sensação de fracasso e a mágoa toldam-nos o céu que, nublado, não nos permite vislumbrar o resplendor das estrelas. E, num piscar de olhos, deixamos que fuja de nossas mãos o pássaro esquivo da felicidade.

O poeta Vicente de Carvalho disse isso com elegância, classe e beleza. Escreveu, no terceto com que encerrou seu célebre soneto “Velho tema – I”: “Essa felicidade que supomos/árvore milagrosa que sonhamos/toda arreada de dourados pomos,//existe, sim; mas nós não a alcançamos/porque está sempre apenas onde a pomos/e nunca a pomos onde nós estamos”. E não é verdade? Somos ou não somos, pois, incorrigíveis trapalhões, imensos desastrados?!
(*) Jornalista, radialista e escritor. É editor do portal Literário do Comunique-se, do qual tenho a honra de participar regularmente todas as quintas-feiras há três semanas (É necessário se cadastrar). Pedro também trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos). Blog O Escrevinhador.
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quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Para que houvesse um aproveitamento dos selos retirados de circulação, cujos saldos ainda existiam na Casa da Moeda, foi determinado que os mesmos voltariam a circular depois de sobretaxados com 2,5 reis. Chegando-se à conclusão de que não seriam precisos tantos selos dessa taxa, mantiveram-se os valores faciais, determinando-se a sobrecarga “PROVISÓRIA” e que a Casa da Moeda passou para “PROVISÓRIO” referindo-se ao selo e não à estampilha ou franquia.

Foram sobrecarregados 3 176 725 selos de 5 reis preto, e 1 682 000 selos de 10 reis verde com a sobrecarga “PROVISÓRIO”, sendo horizontal nos selos a preto e diagonal a vermelho.

Com a sobrecarga na diagonal, ficaram os selos de cor vermelha, preta, verde e azul. A preto nos restantes.

Note-se que esta emissão é de D. Luís, de que já falei em artigos anteriores.

Por uma questão de aproveitamento dos selos, voltaram a entrar em circulação nas datas referidas no título.

Em baixo, o selo de 10 reis verde, com sobrecarga a vermelho.

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Por Ed Santos

No meu primeiro post aqui no Entre 15 e 30 linhas, falei sobre Machado de Assis e da sua importância para a literatura. Hoje falarei de um dos mais polêmicos poetas comtemporâneos do Brasil:
WALY DIAS SALOMÃO: Filho de pai sírio muçulmano e mãe beata sertaneja, Waly nasceu em Jequié, no sudoeste da Bahia, em 1943. Me Segura Qu''Eu Vou Dar Um Troço, seu primeiro livro de poemas, foi lançado em 1971. Foi escrito enquanto Waly esteve preso no Carandiru, em São Paulo. A partir de então, o poeta tornou-se um dos nomes mais conhecidos da contracultura brasileira, associado aos colegas tropicalistas Hélio Oiticica e Torquato Neto. É autor de Hélio Oiticica - Qual É O Parangolé? (Rocco), ensaio sobre o artista plástico carioca. Com Ana Duarte, organizou a obra póstuma do poeta piauiense Torquato Neto. Com Torquato, Waly criou a revista Navilouca - O Almanaque dos Aqualoucos, impressa em 1974 e marco da poesia de vanguarda nacional. Flertou com a MPB, tendo trabalhado com Caetano Veloso, Antonio Cicero e Adriana Calcanhotto, entre outros. A canção Vapor Barato, letra dele e música de Jards Macalé, consagrou-se na voz de Gal Costa e voltou a fazer sucesso em meados dos anos 1990 com o filme Terra Estrangeira, de Walter Salles, e a regravação da banda O Rappa. Em 2003, foi nomeado secretário do Livro e Leitura por Gilberto Gil, ministro da Cultura do governo Lula. Morreu quatro meses após assumir o cargo. Desde 1998, a Rocco publica sua obra: Lábia, Tarifa de Embarque, O Mel do Melhor, Pescados Vivos, Armarinho de Miudezas, Algaravias: Câmara de Ecos e Gigolô de Bibelôs.

Fonte:estadao.com.br – edição de 30/07/2008
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quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Por Gustavo do Carmo

Toda época de eleição é a mesma coisa: somos bombardeados por campanhas que estimulam o voto consciente e responsável, nos convencendo a escolher o candidato certo que vai nos representar no governo da nossa cidade, estado ou país durante quatro anos. É inegável o valor e a necessidade dessas campanhas, mas já estamos cansados de saber disso (embora tenha gente que não saiba e para esses existem essas propagandas). Porém, enquanto os eleitores aprendem a votar, os candidatos não aprendem a exercer o seu cargo.

O TSE, mantendo a tradição, lançou, para as eleições municipais deste ano, mais uma campanha de conscientização com a assinatura Vota Brasil. Depois de focar a família, os jovens e até as crianças, futuras eleitoras, o alvo desta vez parece ter sido os neuróticos. Brincadeira. Na verdade a intenção foi mostrar, em mensagens subliminares, o incômodo que o candidato errado pode trazer para o eleitor através de pessoas normais com problemas incomuns como andar em círculos na hora da pressa, conviver com uma abelha dentro do ouvido durante quatro anos, inconter o choro quando toca o telefone celular e sapatear durante o nervosismo. Ao final de cada vídeo uma dica falada de como votar bem.

A campanha, criada voluntariamente pela W/Brasil, na verdade, começou com outra temática: a perda da oportunidade. Com o mote "Perder uma oportunidade pode fazer você perder muito tempo nos próximos quatro anos", mostrava duas situações através de dois homens. Em "Cometa", um observador acampado para ver um cometa raro (provavelmente o Halley, que só passa a cada 76 anos, tendo passado a última em 1986) aguardava pela luneta sofisticada quando o vento apaga a lamparina. Enquanto tenta acender, o cometa vai passando lentamente atrás dele, sem que o astrônomo amador perceba. Em "Carro" o motorista é obrigado a parar e esperar um longo trem passar para atravessar a passagem de nível. Para se distrair decide ouvir uma música. Mas ao procurar o CD preferido no porta-luvas, caem vários no assoalho. Enquanto ele se abaixa para catá-los e procurar o disco que queria o trem termina de passar e a cancela se abre dando passagem, mas o rapaz ainda está procurando Quando o tal CD cai na sua cabeça ele volta a atenção para o trânsito, mas a cancela se fecha novamente para a passagem de outro trem. 

É uma idéia bem-humorada para retratar o tempo que o eleitor perde votando no candidato errado. Mas o tema oportunidade não é novo. Há alguns anos o banco HSBC fez um comercial do tipo mostrando um fã da jornalista Valéria Monteiro (ainda no auge do sucesso) viajando num carro cheio de fotos dela. Enquanto uma cai no chão e ele se abaixa para pegar, o carro passa pela estrada, impedindo que fã visse o seu ídolo parado no acostamento esperando alguém que a ajudasse a chamar o reboque ou trocar o pneu. Muito parecida com a do trem, lembra?





Coincidência ou não, logo depois estreou a outra série de filmes com o mote: "Quatro anos é muito tempo. Principalmente quando as coisas não vão bem". Foi então que entraram em cena quatro novos personagens que, ao contrário da primeira fase, ganharam nome e voz, dando depoimentos sobre como conviver com algo desagradável por quatro anos. No filme "Círculos" Mariana é uma executiva que anda em círculos quando está apressada. Ela tenta andar reto, mas seus pés simplesmente preferem fazer a volta. O episódio quer dizer que votando errado o cidadão ou mesmo o país não sai do lugar, não evolui. 

Em "Abelhas", Mário é um homem simples que estava no parque quando uma abelha entrou em seu ouvido. Ele quase enlouqueceu, mas se acostumou a ponto de colocar mel no próprio ouvido para acalmar a bichinha e mostrar que quem não votou direito vai ter que se acostumar com o incômodo do vereador errado te representando na sua cidade. 

Já João Paulo fez a escolha errada em "Emoções" e vai ficar chorando à toa por quatro anos com o toque do celular (ou o vereador, na mensagem). Por sua vez o envergonhado Lúcio começa a sapatear em ocasiões impróprias toda a vez que fica nervoso. Durante a apresentação do projeto no trabalho e no próprio casamento a situação é tão vexatória que ele reconhece que isso acaba com a reputação de um sujeito. A mensagem dentro do filme "Sapateado"? Quem não votou direito, dança!





Quando estreou no início de agosto o tema me pareceu non-sense demais para uma campanha séria e oficial. No entanto, após várias exibições, como muito telespectador-eleitor, fui captando as mensagens subliminares e, por isso, acabei me simpatizando com os peculiares personagens. Logo, pude concluir que esta é a campanha mais criativa de todas criadas pela Justiça Eleitoral.



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segunda-feira, 25 de agosto de 2008


Texto: Divulgação com edição de Gustavo do Carmo

Estréia nos cinemas nesta sexta-feira, dia 29, o filme Os Desafinados, dirigido por Walter Lima Jr (de A Ostra e o Vento) e produzido por Flávio R.Tambellini. Apesar de fazer parte das comemorações dos 50 anos da Bossa Nova, Os Desafinados não foi produzido com a finalidade de festejar a data. Segundo Walter não é um filme sobre a Bossa Nova. É um filme bossa nova, que tenta traduzir o espírito dos últimos 50 anos do Brasil. É uma fantasia histórica e musical da época.

Tem no elenco Selton Mello, Cláudia Abreu, Rodrigo Santoro, Ângelo Paes Leme, Jair Oliveira (o Jairzinho), André Moraes e Alessandra Negrini, além de Vanessa Gerbelli, Genésio de Barros, Aílton Graça, Camila Amado, Antônio Pedro, entre outros.

Misturando romantismo intenso, muita música, muito desejo de liberdade e de mudar o mundo, com intensa politização, o filme começa quando o cineasta Dico, ao ouvir no rádio que a cantora brasileira Gloria Baker havia morrido num acidente de carro na Itália, resolve fazer um documentário sobre o quarteto de bossa nova Os Desafinados, formado por amigos seus de juventude e do qual Gloria participara como cantora. Para isso, Dico reúne os sobreviventes do grupo numa boate de Copacabana, onde eles costumavam se encontrar nos anos 60. Da memória deles e das imagens em preto e branco feitas por Dico na época, ressurge a história do pianista Joaquim (Quin), do saxofonista Davi, do baixista Geraldo e do baterista PC. O sonho do quarteto era se apresentar no show do Carnegie Hall, em Nova Iorque, em dezembro de 1962, que revelaria a bossa nova brasileira ao mundo. Rejeitados pelo empresário do show, eles vão mesmo assim a Manhattan, acompanhados do próprio Dico, que filma tudo. Lá, têm intensa vivência musical e existencial. Joaquim, que deixara a esposa Luiza grávida no Brasil, conhece Gloria, uma cantora sofisticada e cosmopolita. Os dois se apaixonam.Fracassada a experiência americana, o grupo volta a um Brasil já agitado pelo Golpe Militar de 1964. Enquanto Dico faz seu primeiro filme, o drama agrário “Bala certeira”, o quarteto prossegue sua carreira musical e Quin permanece dividido entre Gloria e Luiza. Até que, numa turnê na Argentina, a tragédia política atinge Joaquim, o que vai mudar a vida de todos para sempre.

A trama, os personagens e até a banda Os Desafinados são fictícios, mas o filme contém várias referências a amigos (inclusive o nome), acontecimentos e vivências reais do diretor Walter Lima Jr.

Assista ao trailer abaixo. Mais informações no site http://www.osdesafinados.com.br/


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domingo, 24 de agosto de 2008

Por Ed Santos

- Catatau!
- Fala mulher!
- Tô com um pressentimento...
- Tipo o que?
- Sei lá! Parece que vai acontecer alguma coisa ruim, sabe?
- Meu! O que mais pode acontecer de ruim? O que tinha que acontecer, já aconteceu! Seu marido já descobriu, você já levou fama de vagabunda, e sua filhinha querida deve tá se acabando de chorar lá naquela cidadezinha de gente que acha que tem visão, mas não tem. Num entendo. Eu to di boa.
- Para de falar assim! Não gosto quando você fica aí todo sem culpa, e falando mal dos outros. Eles eram minha família!
- Disse bem ERAM! Não são mais. Você abandonou o barco! Cê acha que eles ainda querem olhar na tua cara? É ruim, hein!
- Será que dá pra você não falar desse jeito? Afinal larguei tudo pra ficar com você!
- Tá bom, tá bom. Então vai lá dentro pegar uma sunga pra mim que quero dar um mergulho nessa nossa piscina. Vou aproveitar que a gente tá com pouco hóspede.
- Boa idéia. Acho que vou fazer a mesma coisa.
- Mas você não disse que ia cuidar da horta?
- Disse mais depois eu cuido. Quero ficar aqui também
- Ô Marilda! Desse jeito não vai dar não! Assim a gente vai falir logo logo. Essa pousada não vai pra frente não, hein!
- E porque você não vai então?
- Porque você disse que ia. Aí eu me programei pra dar uns mergulhos.
- Se programou? Então eu trabalho, e você fica no bem bom?
- Eu já fiz a minha parte hoje.
- Parte! Que parte?
- Baixei a tampa da privada depois de fazer xixi. E olha que não deixei cair nenhuma gota fora, hein!
- Pelo amor de Deus! Não sei como minha filha te agüentava!
- Da mesma forma que a mãe agüenta, minha deusa!
- Sai fora ô! Que deusa o que? Tô vendo que isso vai ficar esquisito.
- Vai lá vai, minha sogrinha querida, pega uma sunguinha pro seu genro vai! Depois eu te dou uns beijinhos.
- Se você quiser, que vá você. Aqui não tem nenhuma empregada sua não. Eu vou é lá pra minha horta que eu ganho mais.
- Agora sei por que o velho Amadeu não te suportava! Você é muito mal-humorada! Mas pelo menos se vê que trabalha. Quando vier da horta, trás alguma coisa pra eu comer que to me acabando de fome.

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O Amadeu mesmo sem concordar com a filha Flavinha, resolveu esperar pra ver o que ela queria fazer quando encontrasse o pai, que foi buscá-la no aeroporto. Chegou um pouco depois do horário previsto para o pouso, mas o vôo da filha atrasou um pouco também, e ele resolveu tomar um café.

- Um expresso por favor. Pequeno.
- Puro ou com leite, meu rei?
- Puro.
- Vai um pãozinho de queijo pra acompanhar?
- Não, obrigado.
- Se precisar de alguma coisa a mais me chame tá?
- Obrigado, mas só o café por enquanto.
Enquanto espera o preparo, Amadeu resolve perguntar:
- Me diga. Você é dono aqui ou é empregado?
- Empregado, meu rei. Eu lá tenho cara de barão? Tu é que tem esse cara aí de turista carioca que vem pra Bahia pra não querer voltar mais. Já viu o que que a baiana tem?
- Como posso falar com o dono?
- Pra que tu quer saber?
- Quero falar com ele, só isso.
- Tome aqui o cartão dele. Mas o homem tá pra Salvador. Muito negócio sabe, ele num para não. Só vai tá por aqui para a semana.
- Obrigado!
- Por nada.

Apreciando o líquido em generosas goladas na xícara branca, ele ouve a voz metalizada: “Passageiros do vôo 322, desembarque pelo portão 1”. Era o vôo da Flavinha.
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sábado, 23 de agosto de 2008

Por Gustavo do Carmo

Ninguém apresentava melhor o telejornal da noite do que Francisca Patrese. Era segura e transmitia credibilidade no primeiro olhar para a câmera. Ela conseguia mudar o tom do assunto perfeitamente. Se uma notícia séria ou triste vinha logo depois de uma imagem engraçada ou positiva - com a qual sorria facilmente - ela rapidamente fechava o semblante. Nas entrevistas com convidados, era simpática. Em algumas matérias, dava a sua opinião isenta e transparente.

A caixa de correspondências, físicas e virtuais, da emissora onde Francisca trabalhava vivia lotada com opiniões concordantes (em sua maioria), elogios, sugestões, dúvidas e até cantadas. Além de competente, Francisca era carismática e bonita: alta, tinha cabelos castanhos claros, olhos verdes e pele clara.

Começou a trabalhar como repórter de rua. Já cobriu muito tiroteio em favela (levou um tiro de raspão uma vez), enchentes, pisou em muita lama de bairro abandonado pela prefeitura, viu pessoas morrerem na fila do hospital público, entre outras mazelas do país. Também já saltou de pára-quedas, fez alpinismo e voou de asa-delta. Em seis meses assumiu interinamente a bancada do telejornal local da manhã. Com a mesma rapidez virou âncora titular da tal edição e a da tarde. No ano seguinte, foi transferida para São Paulo e tornou-se uma das apresentadoras do jornal de rede da noite. Dividia a bancada com um veterano jornalista trinta anos mais experiente.

Roubou a atenção do público com o seu talento. E o espaço do companheiro de bancada. Francisca Patrese assumiu a apresentação solitária do jornal. Quando virou editora-chefe pediu para voltar ao Rio de Janeiro, levando toda a produção. Amava a sua cidade natal e morria de saudades do casal de filhos e do marido que só podia visitar uma vez por mês quando trabalhava em São Paulo.

O jornal da noite sempre teve boa audiência. Com a chegada de Francisca à bancada, o número de televisores sintonizados na TVNEWS duplicou. Triplicou quando ela assumiu o comando total. E caía quando ela era substituída nos finais de semana, feriados, faltas e férias. Isso começou a preocupar a emissora, que diminuiu a sua folga semanal, mas compensou sua nova estrela com um aumento de salário.

Os finais de semana e feriados não atrapalhavam muito porque os telespectadores saíam mais de casa. O maior desafio era manter a boa audiência com os interinos nos períodos de férias, licença-maternidade e afastamento por doença de Francisca. E a emissora sempre levava a pior.

Tentou dez substitutos. Entre estes, cinco foram contratados só para cobrir Francisca. O primeiro foi o seu antecessor e antigo companheiro de bancada, Júlio Orestes. Aquele com trinta anos de experiência. Não tinha mais a mesma credibilidade do passado. Principalmente depois que foi descoberto recebendo propina de um deputado cassado por corrupção. O índice de audiência baixou ainda mais. Só durou uma semana. Desligou-se da emissora logo depois.

Vieram outros interinos. Homens e mulheres. Reeditaram a dupla de âncoras. Um casal. Dois homens. Duas mulheres. Tentaram de tudo. Nada adiantou. A volta de Francisca neste meio tempo era um alívio para a diretoria da emissora. A audiência voltava a subir.

E o estrelismo de Francisca também. Com o seu carisma conquistou o carinho dos fãs. Mas o sentimento não era muito recíproco. Ela raramente respondia aos e-mails dos telespectadores. Mandava a produção fazer isso. Na redação era antipática. Gritava com os câmeras, produtores e estagiários. Esnobava os colegas experientes. Estes tinham ciúme do tratamento dado pela diretoria a ela. Os homens mais novos apostavam que ela subiu na emissora por causa do teste do sofá. As mulheres destilavam inveja. Seus únicos amigos eram, exatamente, os diretores do jornalismo e o dono da emissora.

Mesmo assim, Francisca continuava como o trunfo da emissora. Até chegar o jovem repórter Fernando Inácio. Depois de dois anos atuando como repórter de praça, ganhou a chance de substituir a famosa âncora por uma semana quando ela precisou faltar para cuidar da mãe doente.

Francisca não teria com o que se preocupar. Afinal, ela era a estrela da emissora e sua presença representava mais audiência e mais patrocinadores. O que a TVNEWS não imaginava era que Fernando manteve a audiência do telejornal da noite. No dia seguinte, o índice duplicou. Só voltou ao normal quando Francisca reassumiu a apresentação.

Exatamente por ter registrado um novo recorde de audiência para o jornal, Fernando foi efetivado como co-apresentador. Ao lado de Francisca na bancada. A estrela da emissora logicamente não gostou. Ficou nervosa no primeiro dia com o novo parceiro. Gaguejou, atravessou a locução do colega, chamou a matéria errada, suou frio. Chorou na frente das câmeras. Nunca havia passado por essa experiência. Nem nos seus tempos de “foca”. Abandonou a bancada antes do fim do telejornal. A câmera estava fechada em Fernando. Mas foi possível ver o ruído de irritação e a famosa âncora fugindo transtornada. Virou hit na internet.

Francisca Patrese ganhou um “gancho” de uma semana. Desta vez, sua ausência não fez falta para os telespectadores. Fernando Inácio tornou-se o titular do Jornal das Oito. Quando voltou da suspensão, ao saber que havia perdido os postos de âncora principal e editora-chefe, além de ser obrigada a voltar para a reportagem externa, Francisca jurou vingança.

A primeira providência foi borrifar um forte perfume barato no cenário antes do jornal começar. Ela sabia que Fernando era alérgico e queria provocar um constrangimento ao vivo do rival.

Quase conseguiu. O novo âncora chegou a dar um espirro e alguns tossidos no ar. Estrategicamente o jornal foi interrompido com aquele tradicional selo informativo de problemas técnicos e entrou um intervalo comercial de três minutos enquanto Fernando tomava o seu remédio e a produção borrifava os seus olhos vermelhos com água e ajeitava a maquiagem. Voltou a apresentar normalmente, superando com a sua elegância habitual a adversidade de saúde pela qual acabara de passar. Só não conseguiu disfarçar a vermelhidão dos olhos.
Em sua casa, Francisca dava gargalhadas quando via Fernando tossir e espirrar na abertura do telejornal. Chamou a atenção do marido e do filho mais velho. A menina, bebê, não entendia. Acreditava que ninguém descobriria. Ledo engano. No dia seguinte foi demitida por justa causa e pessoalmente pelo dono da emissora. O desespero e a sede de vingança por ter perdido a vaga de estrela do noticiário a fez esquecer que a redação era monitorada por câmeras de segurança. Um recurso tão óbvio que até as crianças sabem disso.

E-mails ameaçadores vindos do endereço eletrônico de Francisca começaram a entrar na caixa de mensagens de Fernando. Ele ignorou. Depois apareceram os torpedos. E também os telefonemas com voz feminina. O jovem jornalista não deu queixa. Até sua esposa grávida receber uma encomenda com duas aranhas venenosas.

Pelo remetente, a polícia prendeu Francisca Patrese, a ex-apresentadora do Jornal das Oito da TVNEWS. Ela foi indiciada por ameaça e tentativa de homicídio. Acusação da qual saiu absolvida.

Durante o processo, a polícia identificou que o verdadeiro autor das ameaças por e-mail, sms, telefone e os aracnídeos peçonhentos era o veterano âncora Júlio Orestes. Mesmo desligado da emissora tinha informantes lá dentro. Um deles ouviu o juramento de vingança feito por Francisca, de cabeça quente, quando do seu afastamento do telejornal. Orestes contratou um hacker para invadir o computador de Francisca e enviar os e-mails. O celular foi clonado. E as aranhas saíram do Butantã depois de um funcionário receber uma propina. Tudo que o aposentado jornalista queria era se vingar de Francisca por ter lhe tirado o seu posto de âncora que ocupava há trinta anos.

Júlio Orestes foi preso e condenado por corrupção ativa, ameaça e tentativa de homicídio. Francisca fez um acordo com a emissora e ganhou uma indenização com a qual abriu uma produtora e criou um programa feminino com receitas culinárias, dicas de decoração e entrevistas de celebridades num horário local comprado para ser exibido no meio da madrugada de quarta-feira. Já Fernando perdoou Francisca pelo desodorante no estúdio, única culpa que a colega teve, e tornou-se o seu único e verdadeiro amigo. A primeira ajuda que pediu foi como recuperar o seu posto de âncora, perdido para uma bela e jovem repórter que o substituiu definitivamente por causa dos índices de audiência.
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sexta-feira, 22 de agosto de 2008

– Peço com franqueza... PÁRA DE ESCREVER, percebo que até os amigos próximos ficam com olhar de tédio e cochichando, quando lê em voz alta seus textos, que( não me leva a mal) são super chatos. Não insista mais, sai deste computador; vamos passear, viajar, transar. Não gosto de vê-lo passar por idiota. Não quero ser cruel, eu te amo, por isso, estou te dando um toque. Esqueça esta baboseira toda. Tem um filme que tá passando no canal a cabo, que falam muito bem dele, vamo vê? Quer pizza?! Preparo rapidinho. Se quiser a gente liga pro Carlinho e pra Laura, sei lá, podemos ir ao cinema juntos e depois esticar num barzinho... Se você pudesse ler a minha mente, veria o amor imenso que tenho por ti. Tentei gostar de ler seus textos e até falei pra procurar uma oficina de escritores, NÃO ADIANTOU NADA. Escolhe outra coisa, o mundo tem tantas alternativas interessantes. Desista ou será infeliz pra sempre. Se fosse só eu, mas, TODO MUNDO tem vontade de fugir de você, quando aparece com uma folha qualquer. Sei que talvez esteja sendo muito dura, é para o seu bem. Assisti num programa de televisão, uma psicóloga que disse que amar de verdade é ser sempre sincero, doa que quem doer... Como foi o seu dia hoje? Está tão quieto... não fica assim, fiz o que meu coração mandou. Vai pra onde? O quê? Quer me mostrar o último texto que fez... Jura que é último... mesmo... tudo bem, mozão, estou pronta...
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http://dudv-descarrego.blogspot.com/
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quinta-feira, 21 de agosto de 2008



Foi o 32º rei de Portugal.

Nasceu em Lisboa em 1863, filho da rainha D. Maria Pia de Sabóia e de D. Luís I. Sendo ainda príncipe herdeiro casou em Lisboa, a 22 de Maio de 1886, com a princesa senhora D. Maria Amélia Luísa Helena de Orléans, filha de Luís Filipe Alberto, conde de Paris, e neta de Luís Filipe, rei de França. Antes do casamento empreendeu uma viagem pelas principais cidades da Europa, acompanhado pelo eminente homem de ciência António Augusto de Aguiar, seu preceptor. Por motivo das últimas viagens de el-rei D. Luís I ao estrangeiro, ficou regente do reino várias vezes, sendo as suas proclamações datadas de 27 de Julho de 1882, 2 de Agosto de 1886 e 30 de Julho de 1888. Por morte do mesmo monarca subiu ao trono em 19 de Outubro de 1889, sendo aclamado, com todo o cerimonial do estilo, a 28 de Dezembro do referido ano.
El-Rei senhor D. Carlos é justamente considerado uma individualidade artística, homem de ciência e habilíssimo em todos os exercícios físicos, tais como a caça, a pesca, equitação, etc. Espírito desde cedo muito culto, tem pelas belas artes a paixão dum verdadeiro artista, distinguindo-se especialmente na aguarela e no desenho a pastel. Em quase todas as exposições nacionais tem apresentado os seus apreciados quadros, alcançando as mais altas distinções. Ainda ultimamente, em 24 de Janeiro de 1905, se dignou Sua Majestade aceitar o diploma de académico de mérito que lhe conferiu a Academia Portuense de Belas Artes. Seria difícil dar uma lista completa das medalhas e diplomas de honra que El-Rei senhor D. Carlos tem recebido pelos seus trabalhos artísticos e científicos. Aos estudos oceanográficos tem Sua Majestade dedicado a mais particular atenção.
Os resultados dessas investigações receberam rasgados elogios de alguns sábios estrangeiros e constam dos quatro seguintes livros publicados: Yacht «Amelia» – Campanha oceanographica de 1896, Lisboa, 1897. Resultados das investigações scientificas feitas a bordo do yacht «Amelia» e sob a direcção de D. Carlos de Bragança ­Pescas maritimas – I – A pesca do atum no Algarve em 1898 (avec un resumé en français) – Lisboa 1899. Buletin des Campagnes Scientifiques accomplies sur le yacht «Amelia» par D. Carlos de Bragança ‑Vol. I – Rapport préliminaire sur les Campagnes de 1896 à 1900 – Fascicule I – Introduction – Campagne de 1896 – Lisbonne, 1902. Resultado das investigações scientificas feitas a bordo do yacht «Amelia» e sob a direcção de D. Carlos de Bragança – Ichthyologia – II – ­Esqualos obtidos nas costas de Portugal durante as campanhas de 1896 a 1903 (Texto em portuguez e francez) Lisboa 1904.
(Baseado em http://www.arqnet.pt/dicionario/carlos1rei.html)
O busto de D. Carlos I aparece na Filatelia desenhado por Manuel Diogo Neto e a cercadura por José Sérgio de Carvalho e Silva.
É uma série de doze selos, que circularam de 1 de Maio de 1892 até 30 de Abril de 1896. O papel é de porcelana pontinhado e denteado 11 1/12, 12 1/12 e 13 ½.
Em 1905, foram feitas reimpressões desta série, com novas cores segundo a 5ª Convenção Postal Internacional, reunida em Washington, de 5 a 15 de Junho de 1887 que determinou novas cores para os selos correspondentes aos portes de jornais e amostras, fazendo com que os nossos selos de 15, 25 e 50 reis, passassem respectivamente às cores verde, carmim e azul.
Um aspecto curioso
A moldura do retrato do soberano, tem dois escudos reais nos cantos superiores, um ramo de louro no canto inferior esquerdo e um ramo de carvalho no canto inferior direito, que simbolizam assim, a realeza, a glória e a força.




O selo aqui apresentado, faz parte da minha colecção, e tem o valor de 75 reis.

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Confesso que nunca consegui ler nada do Prémio Nobel da Literatura Portuguesa (1998).

Parece incrrível, não é?

Um Português não ler o seu primeiro Prémio Nobel da Literatura!

Mas é verdade e explico porquê.

Não ponho em dúvida o mérito deste escritor, pois caso contrário, não seria Prémio Nobel. Mas o problema não reside aí. A sua escrita é quase isenta de pontuação. É uma escrita muito própria à qual ainda não me habituei.
Mas uma coisa é certa. Tenho cá em casa vários livros dele, inclusivé o que escreveu pós-Prémio - "A Caverna" - com uma dedicatória do Autor.

Fica aqui a promessa. Se os outros lêem, eu também tenho de ler!

Em acabando o livro que estou a ler, vou pegar em Saramago e tentar compreender a sua escrita.

Um desafio a mim mesmo!

Deixo-vos o link da sua home page para que possam visitar e ficar a conhecer melhor José Saramago.


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terça-feira, 19 de agosto de 2008

miguelaf/guache/papel

Ana Paula mal desfez as malas ao chegar e, no dia seguinte, pouco antes de encher a mala com renovadas mudas de roupas, disse a Lenilson, “conheci alguém” e voltou para Minas , onde havia passado alguns dias de férias, sozinha-sem ele - um descanso que resolveram dar ao casal depois de dez anos morando juntos, e conhecera esse alguém na casa da amiga comum que a hospedara.
Lenilson ficou arrasado por um mês, comia pouco, muito bebia e chorava andando pela casa, trocando as músicas alegres pelas tristes, no rádio e no toca-fitas. Nunca a mais de cinco metros do telefone. Três vezes, todos os dias, ligava para Minas, à casa da amiga onde Ana Paula se instalara. Poucas vezes conseguira falar com ela. Acabara de sair - era a resposta, a qualquer hora que liga-se. Quando era ela que atendia, Lenilson percebia o desencanto na voz, pronunciando: “Ah, é você.” “Então? Não vai voltar?” murmurava ele, respirando mal. “Sei lá. Por enquanto, to procurando emprego por aqui”, respondia ela com enfado.
Dois meses depois, quando Lenilson resolvera mudar de emprego, de casa e de atitude, Ana Paula avisou, numa chamada a cobrar, em tom grave. “Vou voltar”
No dia seguinte, ela chegou, jogou as malas na sala, deu-lhe um beijinho na boca e disse “To morta, vou dormir um pouco, depois falamos”. No quarto, trancou a porta.
Na semana que se seguiu, e durante um mês, Ana Paula mal comia e chorava escondida, andando pela casa e trocando as músicas alegres pelas tristes, no rádio e no toca-fitas. As mesmas de Lenilson. E nunca a mais de cinco metros do telefone.
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segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Exposição: José Olympio - o editor e sua casa
Período: de 30 de julho a 22 de agosto de 2008
Horário: de Segunda a Sexta, das 10h às 17h;aos sábados, das 10h às 15h
Local: Fundação Biblioteca Nacional
Espaço Cultural Eliseu Visconti
Rua México, s/n° (acesso pelo jardim)
Centro - Rio de Janeiro - RJ
Entrada Franca






É uma dica para aproveitar até sexta-feira. Por problemas de agenda, somente agora, última semana da exposição, tive a oportunidade de postá-la. Para quem não puder ir, a segunda dica (apesar do salgado preço de 150 reais) é o livro com a biografia do livreiro e a trajetória de sua editora como diz o texto de divulgação abaixo.

José Olympio – O editor e sua Casa documenta a trajetória da editora, fundada em 1931, responsável pela publicação de nomes fundamentais, tanto em prosa como poesia. Drummond, João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes, Rubem Braga, Fernando Sabino, Antonio Callado, Otto Lara Resende, Ariano Suassuna, Manuel Bandeira, Ledo Ivo, Clarice Lispector, Aurélio Buarque de Hollanda, Lygia Fagundes Telles e Nélida Piñon são alguns deles.

A história da Editora José Olympio confunde-se, em grande parte, com a história da literatura brasileira do século XX. Na definição do sociólogo Gilberto Freyre, a editora não era ”apenas um estabelecimento comercial, mas uma força, um ânimo, um espírito, há anos inseparável da cultura brasileira”.

É o segundo livro sobre José Olympio lançado no mercado. O primeiro foi Rua do Ouvidor, 110, escrito por Lucila Soares, neta de Olympio, publicado pela José Olympio Editora, hoje do Grupo Record. No ano passado, fiz uma resenha sobre ele, publicada no Tudo Cultural Blog-se que eu republico no post abaixo.

SOBRE O NOVO LIVRO:

José Olympio - O Editor e sua Casa
José Mario Pereira
Editora Sextante
2008
Formato (a x l): 30x23 cm, espessura de 5 cm, com capa dura.
424 páginas
Preço sugerido: R$ 150,00

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Resenha do livro Rua do Ouvidor 110 - Uma história da Livraria José Olympio, de Lucila Soares, por Gustavo do Carmo (publicada em 08/04/2007). Texto original com algumas correções.

O livro sobre a história da Livraria José Olympio Editora foi lançado em novembro do ano passado (n.a: em 2006) em comemoração aos 75 anos da editora. Confesso que só o adquiri no Natal. Li em uma semana. Terminei de ler exatamente no primeiro dia do ano. Antes de resenhar, fiz questão de conferir pessoalmente o que ocupa o endereço atualmente.

Mesmo estando 'in loco' no endereço Rua do Ouvidor 110, ainda tenho dúvidas do que se transformou o local. É que a história diz que o Edifício Portella, que abrigava a livraria em sua loja no térreo e pertencia à Casa Colombo, uma espécie de Lojas Americanas da época, foi demolido para a construção do novo prédio do Banco Nacional de Minas Gerais, da família Magalhães Pinto, de frente para a Avenida Rio Branco. Anos depois, o BNMG, que se transformou no famoso Banco Nacional (o banco do guarda-chuva) foi adquirido pelo Unibanco, que hoje ocupa o provável prédio. Só que o imóvel atual está no lado ímpar. Se não houve uma mudança na numeração, o endereço par da livraria atualmente é ocupado pelo Banco Santander. Aguardo correções.

A livraria tinha os dois primeiros nomes de José Olympio Pereira Filho, um visionário que saiu de Batatais, cidade do interior paulista, para ganhar a vida na capital. Ganhou um emprego modesto na famosa livraria paulistana Garraux, indicado pelo então presidente (cargo hoje chamado de governador) do Estado de São Paulo, Altino Arantes. José o escolheu pessoalmente para ser o seu padrinho de crisma, exatamente com a intenção de mudar de cidade. José foi crescendo no emprego e promovido aos poucos, até se tornar sócio. Em 1931, comprou a biblioteca recheada de livros raros do falecido membro da ABL Alfredo Pujol -advogado, bibliófilo e biógrafo de Machado de Assis - e abriu a livraria que leva o seu nome.

Três anos depois, a José Olympio transferiu-se para o Rio de Janeiro, no endereço que entitulou a historiografia. O empresário e editor já era casado com Vera Pacheco Jordão, de família aristocrática paulistana. Eram bons tempos para a então capital do país, referência cultural e política naqueles anos 30. Já São Paulo sofria, não apenas com o esvaziamento econômico provocado pela quebra da Bolsa de Nova York em 1929, como, também, o boicote político que gerou a Revolução Constitucionalista de 1932. Hoje ocorre exatamente o contrário.

Estabelecido no Rio, José Olympio editava os grandes nomes da literatura nacional da época como Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Jorge Amado, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Rubem Braga, entre outros. Tornou-se o maior editor da primeira metade do século XX. Foi o pioneiro no adiantamento dos direitos autorais. Já a sua livraria tornou-se não apenas uma referência no varejo como também um ponto de encontro e até a segunda casa de alguns desses escritores. Zé Lins, Graciliano, Drummond e Rachel foram os grandes amigos de J.O. (seu apelido). Houve até algumas discussões que culminaram em agressões físicas, dentro da livraria. Por outro lado, aspirantes a escritores também podiam pedir autógrafos, conversar ou mesmo pedir que seus ídolos lessem os seus textos.

A Livraria José Olympio funcionou no endereço imortalizado até 1955, quando o Edifício Portella precisou ser demolido para a construção da nova sede do Banco Nacional. A editora, que já passara pelo segundo andar do antigo prédio, pela Praça Quinze e pela Rua Nilo Peçanha, sempre no Centro da cidade, mudou-se definitivamente para a Rua Marquês de Olinda, 12, em Botafogo, zona sul, em 1964. Era a primeira vez que a José Olympio tinha uma sede própria. O terreno e a construção do prédio de quatro andares foram financiados com a indenização contratual paga por Magalhães Pinto. O empresário José Olympio ainda realizou o sonho de ter um restaurante para os funcionários, que se localizava no quarto andar e se chamava Cantina Batatais, em homenagem à sua cidade natal. O estabelecimento passou a ser o anfitrião de animados almoços semanais entre os escritores. Alguns freqüentadores do antigo endereço já haviam morrido, como Graciliano Ramos e José Lins do Rêgo. Mas novas gerações passaram a freqüentar, como Ariano Suassuna. Apesar da alegria, o novo ponto de encontro já não tinha mais a alma da loja na Rua do Ouvidor, assim como a livraria que funcionava no térreo da nova casa. Em 1973 o restaurante fechou. Dois anos depois, a empresa ficou sob a administração do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (atual BNDES). José Olympio morreu em 1990. Hoje, a editora é um dos selos do Grupo Editorial Record.

Em formato diferenciado (21,5 x 21,5 cm), Rua do Ouvidor 110 conta a história da livraria e editora em em 203 páginas através de artigos breves, que compõem os sete capítulos do livro. É escrito com emoção, mas bem didático. Foi recheado de fotos e reproduções de matérias de jornais da época. Há ainda crônicas de Graciliano Ramos e Carlos Drummond de Andrade. A diagramação e suas ilustrações são inspiradas nos livros publicados pela J.O. Patrocinado pela Biblioteca Nacional, foi escrito por Lucila Soares, jornalista e neta de José Olympio. O prefácio é de Laurence Hallewell, além da apresentação da própria autora. Preço de capa: 40 reais. Mais detalhes no site da Record
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domingo, 17 de agosto de 2008

Por Ed Santos


Finzinho de tarde. Aqueles prédios residenciais à direita da linha nunca entraram no detalhe do meu olhar. Hoje, vi que lá existe vida. Não saberia precisar qual o andar correto, mas vi alguém estendendo roupas no varal. Acho que era uma mulher, mas não posso afirmar. A única coisa que tive certeza era que uma calcinha estava sendo posta a secar. Como sabia? Sei lá! Apenas tinha certeza.

Homem tem dessas coisas, sempre tem certeza do que não vê, e aí, dimensiona o fato em proporções que lhe sejam favoráveis sempre.

- Você viu aquilo?

- O que?

- Aquela calcinha.

- Onde?

- No varal.

- Que???

- No varal! Tinha uma pessoa estendendo uma calcinha no varal de um apartamento ali atrás!

- Ali onde cara?

- Num daqueles prédios que a gente vê logo quando sai da estação.

- Sei.

- Então, cê viu?

- Vi nada. Aliás, como você conseguiu ver que era uma calcinha. Naquela distância toda!

- Tenho certeza!

- E a mulher, ao menos era bonita?

- Isso eu não vi não.

- Então cê tá querendo me dizer que viu que era uma calcinha, mas não viu quem tava pondo ela no varal?

- É!

- Cê tá maluco!

- Tô nada. Olha, posso dar os detalhes. Era uma calcinha branca com babados vermelhos na cintura e nas pernas. De algodão. Ainda bem, não gosto de lycra. Não parecia ser daquelas muito extravagantes e cavadas. Era do time das discretas. A calcinha. A dona... bom a dona eu acho que era uma mulher madura, mas que usava aquele tipo de calcinha pra provocar os homens, mostrando-lhes que tinha sentimento adolescente. Mas não vi sequer a sombra dela, apenas vi a calcinha. Foi o que me chamou a atenção.

- Cê viaja!

- Com certeza. Todo dia nesse trem! E nunca tinha visto uma calcinha tão bela.
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sábado, 16 de agosto de 2008

Por Gustavo do Carmo

Crônica escrita em junho de 2007, atualizada agora.


Só estive duas vezes no Maracanã em toda a minha vida de trinta anos. Ambas para assistir a jogos do Botafogo e acompanhado do meu pai. A primeira vez foi em 1996. Um amistoso contra o Palmeiras destinado a arrecadar fundos para a renovação de contrato do zagueiro alvinegro Gonçalves, herói do título brasileiro conquistado no ano anterior e que estava prestes a sair porque o clube não tinha dinheiro em caixa. O chamado jogo “Fica Gonçalves”. Assistimos de cadeira especial, cada uma por 50 reais. Fomos embora no início do segundo tempo, para não pegar tumulto na saída da partida, que terminou em 1 a 1. Mas cheguei a ver o gol do Botafogo, ainda no primeiro tempo.

No ano seguinte, fiquei de cadeira comum para assistir à decisão da Taça Guanabara contra o Vasco em um domingo de Páscoa. Desta vez, além do meu pai, estava com um colega de trabalho dele e um primo meu. O Botafogo venceu por 1 a 0 e conquistou a taça que valeu como o primeiro turno daquele campeonato que conquistaria definitivamente na decisão contra o mesmo Vasco, meses depois. Nas duas vezes, fiquei fascinado pelo brilho do placar eletrônico.

Inaugurado em 1979, o painel que informa o resultado dos jogos realizados no Maracanã finalmente se aposentou em junho de 2007. Despediu-se no jogo Botafogo (mais uma vez) 3 x 1 Náutico, pelo campeonato brasileiro. Depois, o estádio foi fechado para os Jogos Pan-americanos, o que causou a grande polêmica anual do torneio nacional entre os clubes cariocas e o comitê organizador do evento poliesportivo.

O velho placar já foi substituído por um modelo eletrônico colorido, de formato estreito e longo, inspirado nos primeiros marcadores manuais do estádio, cuja história vou contar abaixo e que será tema de uma próxima crônica.

O Maracanã nasceu em 1950 com algumas placas emendadas de madeira, fundo branco e letras pretas. No meio, um relógio de ponteiros. Quando passou a realizar jogos noturnos, ganhou um novo placar, ainda manual, mas com mudança por manivela. Os clubes eram identificados pelas suas iniciais (CRF, BFR, FFC e CRVG) e havia uma luz de fundo. Mesmo assim, ficava lá, discreto nas arquibancadas, como o seu antecessor. Sem ofuscar o espetáculo que acontecia no palco verde.

O moderníssimo (para a época) placar eletrônico era, na verdade, três. Foram distribuídos pelas três curvas da elipse, na estrutura divisória entre as arquibancadas e as cadeiras comuns, e no centro oposto à cabine da rádio. Foi nesta posição que o quadro se tornou mais vistoso e famoso. Dominou o cenário do estádio nos últimos vinte e oito anos. Emoldurou as grandes jogadas de Roberto Dinamite, Zico e Romário.

O gol que iniciou a contagem do novo placar foi feito por Reinaldo Gueldini, na goleada de 4 a 0 do Flamengo sobre a América, no dia 11 de fevereiro de 1979, valendo pelo campeonato carioca especial.


O grande retângulo preto era formado por três painéis. No lado esquerdo circulavam informações úteis como achados e perdidos, publicidade, notícias gerais ou de outros jogos, homenagens e as informações do jogo corrente: escalação, substituições, público, bilheteria, advertências, expulsões e assinatura do gol. Neste último quando era de Zico ou Roberto Dinamite, aparecia até a imagem dos jogadores em meio a vários efeitos visuais, limitados pelas milhares de pequenas lâmpadas. No centro ficava o marcador de tempo de jogo, que foi proibido pela FIFA, dando lugar ao relógio comum. Embaixo ficava a temperatura ambiente. Finalmente, no lado direito, tínhamos o placar do jogo, com o nome do time e o resultado, um sobre o outro. Em seus últimos momentos, estava praticamente sucateado. O painel do relógio não existia mais e estava coberto por uma placa de publicidade. Algumas lâmpadas também estavam queimadas.

No último jogo antes de ser fechado para o Pan, despediu-se com o tradicional boa noite, acompanhado da uma expressão bem carioca: “Fui!”.
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quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Durante estas semanas, foquei as várias séries, valores, cores de D. Luís I na História da Filatelia Portuguesa.

Antes de passar a descrever a próxima emissão, não queria deixar de falar, embora resumidamente, da biografia deste monarca.

Afinal, quem foi D. Luís I?

Segundo o livro “Reis e Rainhas de Portugal” de Maria de Lurdes Marcelo, este, foi o “trigésimo terceiro rei de Portugal, e governou de 1861 a 1889. (…) Oficial da Marinha e vinha de regresso de Antuérpia na corveta Bartolomeu Dias, por si comandada, quando ao entrar na barra do Tejo, a 14 de Novembro, soube do inesperado fim de seu irmão, o rei D. Pedro V, que morrera a 11 de Novembro, assim como dois irmãos. Partira príncipe, entrara rei. (…)

O povo queria agora proteger D. Luís, o novo rei, de ser envenenado, como julgavam que tinha acontecido a D. Pedro V. Os populares atribuíam culpas aos Ministros e aos Secretários de Estado e, em revoltas e desordens, manifestavam a sua vontade de derrubar o Governo (…).

D. Luís era um artista. Pintava, tocava violoncelo, piano, e compunha. Falava correctamente várias línguas e traduziu Shakespeare, autor que escreveu num inglês antigo e difícil. Era oficial e comandante da Marinha. Viajou por gosto e por profissão. Mas de todas as suas qualidades, ou características, uma das mais marcantes era, sem dúvida, a sua natureza pacifista (…).
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Com a série de D. Luís, de perfil, houve a substituição dos selos de relevo pelos selos estampados. Mas esta série estava condenada ao fracasso. Primeiro, foi a efígie do monarca que teve de ser aberta de memória pelo gravador, por não existir na Casa da Moeda um retrato do rei.

O primeiro selo a sair, foi por isso de 25 reis cinzento, que mais tarde foi prontamente substituído por outro da mesma taxa logo que foi possível arranjar o retrato do monarca.

Mas a fotografia não era da melhor qualidade. Logo, a peça gravada, também não saiu nas devidas condições. No entanto, serviu para o segundo tipo de 25 reis desta emissão e também para os valores de 5 e 10 reis.

Por ter sido condenada ao fracasso tal emissão, logo se pensou em reproduzir novos desenhos, abandonando-se assim a série de perfil.

O desenho e gravura desta emissão foram de autoria de João Pedroso Gomes da Silva e circularam entre 5 de Janeiro de 1880 e 28 de Fevereiro de 1882.
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quarta-feira, 13 de agosto de 2008


Filosofia em primeiro lugar
Por Gustavo do Carmo


Wanderley Guilherme dos Santos é bacharel em Filosofia e PhD em Ciência Política pela Stanford University, nos Estados Unidos. Tornou-se um dos mais renomados ensaístas do cenário acadêmico brasileiro ao publicar os livros Décadas de espanto e uma apologia democrática, O paradoxo de Rousseau e Razões da desordem. Seu best-seller foi Horizonte do desejo. Também colabora com o jornal Valor Econômico.

Este ano, cansado das limitações de linguagem dos ensaios acadêmicos, Wanderley decidiu estrear na ficção com o romance Acervo de Maldizer. Com uma leve inspiração autobiográfica o autor filosofou sobre um homem que no seu aniversário percebe a sua velhice, com seu corpo começando a decrepitar, e começa a despejar todas as suas mágoas contra todos que o humilharam durante a sua vida como as carolas que o obrigavam a se vestir de santo na infância, a gangue da rua, os amores adolescentes não correspondidos e o adultério da mãe, por quem o protagonista sentia um desejo sexual.

Com um vocabulário rico e sofisticado além da narrativa encaminhada para a prosa poética, o autor colocou, em seis capítulos e em primeira pessoa, a filosofia em primeiro lugar. Por isso, a leitura por vezes se torna chata e cansativa e a compreensão da história se perde em alguns momentos. A descrição de algumas fantasias incestuosas com a mãe chega a ser exagerada de tão íntima, para não dizer vulgar.

A minha avaliação seria ainda mais rigorosa se eu não tivesse feito uma revisão na leitura. Somente na releitura deu para compreender algumas passagens da história. Portanto, Acervo de Maldizer é um romance que merece ser lido duas vezes para ser melhor entendido.

SOBRE O LIVRO

Acervo de Maldizer
Wanderley Guilherme dos Santos
Editora Rocco
2008
Formato (a x l): 21x14 cm
128 páginas
Preço sugerido: R$ 19,00

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domingo, 10 de agosto de 2008

Por Ed Santos

Quando nasceu, sua mãe botou o nome de Alberto. Normal e pacata a vida do menino que não teve médico a dar-lhe palmadas na bunda. O bairro simples e humilde era longe do mais próximo hospital público. Dona Albertina foi quem ajudou sua avó e sua mãe na “boa hora”. A tal parteira tinha mais de cem meninos nas costas.

Infância remelenta, tampão do dedão sempre arrancado nas inúmeras peladas de rua. Na adolescência o maior presente foi um rádio FM. Adorava música. O pai vez por outra, nas festas de família puxava a parceira pra cá, dava uns giros pra lá, e o menino delirava.

Seu melhor amigo, nesta fase da vida era o Jorge. Não tinha explicação a amizade dos dois, a não ser a idade e o fato de morarem na mesma rua. Mas por que logo o Jorge, se na mesma rua havia outro Jorge, em pouco mais velho que o outro? O Jorge mais velho não jogava futebol como o outro. O outro era melhor e o Beto vivia disputando com ele quem era o melhor jogador da rua. Chegaram até a jogar juntos na categoria dente de leite de um time profissional, até o dia em que o pai do Beto disse que a hora de trabalhar tinha chegado, e o futebol ficou pra traz.

Beto teve poucos empregos e em alguns, teve amigos. Mas os mais chegados foram só dois. Dois Jorges. Nunca havia parado pra pensar nisso, se deu conta quando num papo de botequim, lembrou que das duas vezes que fora padrinho de casamento, os afilhados foram os Jorges.

Como o tempo passa e a rotina das pessoas segue como corredeiras, Beto vez por outra vê um dos Jorges, mas muito pouco, o que o levou então ao passado e recordou de outro amigo que teve. Mas que não chamava Jorge. Alberto tinha conhecido Norberto no ginásio, quando tinha 13 aos. Sentavam-se um do lado do outro. Regra da escola. Pegavam a mesma condução e moravam no mesmo bairro. A vida de ambos tomou rumos diferentes e se distanciaram.

Após cinco anos reencontraram-se numa outra sala de aula e selaram a eterna amizade. Só pra se ter uma idéia da grandeza da amizade entre os dois, namoravam a mesma menina, ao mesmo tempo. O triangulo era um símbolo da amizade dos dois. Dos três.

Norberto foi-se, virou lembrança. Beto ficou e eternizou o amigo em dedicatória. Talvez se fosse Jorge, pelo menos, viveria. Esquecido.
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Gustavo do Carmo

O pai de Afonsinho trabalhava tanto que mal tinha tempo para o filho. Saía de manhã cedo e chegava tarde da noite. Só tinha uma época do ano em que seu Geovane se dedicava integralmente ao filho. Era nas suas férias, todo mês de abril. Um dia, no mês de setembro, Afonsinho chegou da escola e encontrou o pai em casa, de camiseta e short.

— Oi, pai. Você entrou de férias de novo?
— Não, meu filho. Papai foi despedido do emprego.

Um feliz Dia dos Pais para todos os leitores e seus pais.
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sábado, 9 de agosto de 2008

Gustavo do Carmo


A adrenalina parecia explodir o seu cérebro. O sangue corria nas veias, ao mesmo ritmo incessante do maratonista, prestes a ficar engarrafado na artéria engordurada do coração, o que provocaria um colapso. Felisberto resiste. Rompeu a fita de chegada, imediatamente solta pelos assistentes. Caiu morto.



Felisberto estava desempregado havia nove meses. Tempo de gestação de uma vida, que praticamente já não existia para ele. A da sua esposa terminara há um ano, derrotada por uma doença rara e incurável que a deixou vegetativa por três anos. Não ouvia, não falava e não enxergava. Não teve filhos. Nem deu tempo. Juliana descobriu os primeiros sintomas da doença duas semanas depois do casamento.

O dinheiro dos pais já não tinha mais. A mãe, doente, carecia de remédios e tratamento contra o Mal de Alzheimer. O pai, com problemas financeiros, há cinco anos, vendeu a padaria que tinha e só vivia com a aposentadoria ínfima, com os medicamentos da esposa comendo a metade.

Trabalhava no telemarketing de uma financeira. Recebia um ordenado de seiscentos reais que mal dava para pagar o aluguel e as despesas do apartamento de um pequeno e velho prédio na Penha, onde morava com os pais e a esposa falecida. Quando a moça adoeceu, aí que o orçamento ficou ainda mais apertado. Por isso, começou a faltar ao serviço. Quando Julianinha morreu, ausentou-se do trabalho por um mês. Ganhou licença definitiva.

Felisberto já tinha quarenta anos e se sentia velho demais para arrumar outro emprego. Tentou trabalhar em outras operadoras de telemarketing. Só que diante das exigências do mercado selvagem, nada conseguiu. Além de não ter curso de inglês, também abandonou o segundo grau na metade.

Para a situação piorar, só faltava ser despejado... Aconteceu há um mês. E foi exatamente isso que o levou a tomar uma atitude drástica: tentar o suicídio. Beber álcool doméstico ou inseticida, cravar uma faca no peito, riscar o pulso com uma navalha afiada, enforcar-se com o cinto no chuveiro, jogar-se do alto do morro ou de um edifício bem alto. Não conseguiu nada disso. Pensava nos pais e era impedido pelo instinto de sobrevivência.

Na sua última tentativa, caminhava pela Presidente Vargas. Ia provocar um atropelamento quando viu, pendurado nos postes da avenida, repetidos galhardetes anunciando a maratona do Rio de Janeiro. Decidiu inscrever-se na hora. Pagou a inscrição com os últimos cinqüenta reais que tinha. Aproveitou a cópia dos documentos que havia levado a uma financeira no centro, onde teve o pedido de empréstimo negado. Não tinha mais crédito na praça. Só lhe restava um mês para procurar um novo lugar para morar ou encontrar a morte.

Felisberto não tinha um porte atlético. Mesmo com a fome que se iniciava com a sua nascente miséria, ainda portava uma indisfarçável barriga e alguns pneuzinhos. Ele sabia. Foi a sua idéia. Se não tinha coragem para dar cabo de sua vida, pelo menos, correria sem nenhuma preparação os quarenta e dois quilômetros da maratona.

Com a gordura que já deve ter dominado os seus vasos sangüíneos, acreditava ter um infarto provocado pela incapacidade do sangue ser bombeado durante tanto esforço. Se não morresse, poderia ganhar a corrida, obter uma boa classificação ou mesmo completar a prova, o que poderia render um dinheiro razoável para, pelo menos, pagar um mês em uma pensão barata no centro da cidade.

Na segunda pior das hipóteses, a maratona serviria de treino para uma futura carreira nas provas de fundo do atletismo. Levou para casa o kit com o número de inscrição e o chip da cronometragem, além de alguns brindes. Mesmo assim, chegou em casa abatido, dizendo logo para os pais que não conseguiu o empréstimo. O pai chorou em desespero e também tossiu. Tem um grande enfisema pulmonar que o deixou internado diversas vezes. A mãe, com o Alzheimer avançando, se esqueceu da penúria pela qual estava passando com o filho e o marido.

Acordou cedo, disposto a morrer. Vestiu uma camiseta velha, uma bermuda surrada e calçou o seu tênis encardido e furado. Foi ao quarto dos pais que ainda dormiam e beijou a testa de cada um. Pensou em escrever um bilhete de despedida, mas recuou porque não queria assustá-los com anúncios de morte. Rabiscou que ia procurar emprego.

Chegou ao local da maratona. Concorreria com milhares de pessoas. Largaria no último pelotão. Havia alguns mais vigorosos que, em grupo, pareciam desdenhar de todos que competiriam com eles. Os magrinhos eram os mais humildes. Um deles até puxou conversa. Perguntou se ele estava preparado para a corrida. Com vergonha de dizer que estava ali para morrer, Felisberto limitou-se a dizer que sim. Como resposta ouviu todo o processo de treinamento e nutrição do colega. Fingiu estar interessado. No pelotão também havia gente mais velha que os seus pais. Escutou uma senhora dizer que estava correndo apenas por prazer. Outro contava que estava se recuperando de uma ponte de safena.

O juiz disparou a pistola de ar comprimido. Lá na frente, os quenianos já disparavam. Num ímpeto impressionante, Felisberto parecia andar um metro a cada passo. Flutuava sobre os concorrentes do último pelotão. Em cinco minutos, já deixava para trás os fortes que os desdenhavam, os magrinhos humildes e, claro, os velhinhos safenados que corriam por prazer.

No décimo quilômetro, ultrapassou o segundo pelotão sem nenhuma perda de ritmo. Estava na metade da prova quando alcançou os cinco primeiros colocados, todos quenianos, que se assustaram com a aproximação do adversário desconhecido. A imprensa estranhou a aparência de Felisberto. Achou que ele era um simples coelho de prova. Os fiscais checaram a cronometragem para certificarem de que ele não era um penetra louco. Os computadores indicaram corretamente que o número 8888 estava na sexta colocação.

Mesmo com o fôlego maior que na largada, Felisberto bebeu apenas um copo de água dado pela organização. Nem sequer banhou-se nos chuveirinhos que apareciam em alguns trechos do percurso.

A adrenalina parecia explodir o seu cérebro. O sangue corria nas veias, ao mesmo ritmo incessante de Felisberto, prestes a ficar engarrafado na artéria engordurada do coração, o que provocaria um colapso que poderia fulminar a embrionária carreira do atleta suicida. Rompeu a fita de chegada, imediatamente solta pelos fiscais de linha. Caiu morto. De cansaço.

O veneno atlético de Felisberto não fez efeito. Ele, que pretendia morrer correndo, venceu surpreendentemente a maratona. Depois de acordar do desmaio e sair da observação do ambulatório, subiu ao pódio, entre quatro quenianos. Ganhou uma coroa de louros, um carro zero-quilômetro e um cheque de duzentos mil reais. Ouviu o hino nacional.
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quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Após a introdução do primeiro selo em Portugal, este foi tendo a sua evolução. Das folhas cortadas à tesoura para recortar os selos, até ao picotado, a evolução foi grande.

Continuando a análise dos selos de D. Luís I, entre 1879 e 1880, foram introduzidas novas cores nas espécies.

Entre outras resoluções tomadas no 2º Congresso da União Geral dos Correios, realizado em 1878, decidiu-se a fixação dos seguintes portes do primeiro escalão e peso, comuns para as correspondências entre países membros europeus:

· Cartas – 25 cêntimos
· Bilhetes postais – 10 Cêntimos
· Impressos – 5 cêntimos

Em moeda portuguesa, correspondiam estas taxas a 50, 20 e 10 reis entrando em vigor a 1 de Abril de 1879.Após este congresso, denominado então União Postal Universal. Aí, e por unanimidade, foi determinado q estes valores teriam novas cores. Ora como Portugal era também membro, foi necessário mudar as cores dos seguintes selos:

· 10 reis – de amarelo para verde
· 50 reis – de verde para azul
· 150 reis – de azul para amarelo

Teve assim origem um novo conjunto de selos deste monarca, com fita direita, em cores alteradas, que começaram a aparecer a partir de 1879.

Em Julho de 1882 imprimiram-se na Casa da Moeda, 112 000 selos de 500 reis, fita direita, a preto. Foi como uma medida de precaução que foram produzidos para o caso do selo da mesma taxa não estar pronto a tempo de entrar em circulação o que não aconteceu. Foram por isso destruídas 4 000 folhas dos 500 reis em existência.

É no entanto conhecido um destes exemplares.

Veja abaixo: Memória entre 15 e 30 linhas - Ducal (por Gustavo do Carmo)


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quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Por Gustavo do Carmo





Em 1950, aos trinta anos de idade, o empresário José Vasconcelos de Carvalho pôs em prática o que aprendeu nos cursos de especialização em administração que fez nos Estados Unidos e na rede de lojas A Exposição, de seu pai Lauro de Souza Carvalho, e abriu, junto com dois primos - os irmãos José Cândido e José Luiz Moreira de Souza - uma confecção de roupas e uma loja na Praça Tiradentes, no centro do Rio de Janeiro.

Assim nasceu a Ducal, que remetia ao nobre título de duque. Mas o significado mais popular surgiu graças à promoção que se tornou a sua marca registrada: quem comprava um terno completo, ganhava uma segunda calça. Assim, o cliente ficava com DUas CALças. A Ducal também inovou ao vender a crédito e financiar a compra em até 24 vezes. O investimento fez sucesso e a Cia Brasileira de Roupas, sua razão social, cresceu. A pequena loja da Praça Tiradentes se transformou em uma grande rede que se espalhou pela cidade do Rio, por São Paulo e Minas Gerais. A Ducal tornou referência em moda masculina dos anos 50 à metade dos 70. Patrocinou programas esportivos e teve Pelé e Emerson Fittipaldi como garotos-propaganda.

Mesmo ainda no auge, a inflação começou a trazer grandes prejuízos, por causa do seu crediário em parcelas fixas e sem correção monetária. Foi necessário que a Ducal se unisse à igualmente famosa rede mineira de eletrodomésticos Bemoreira em 1966 para sobreviver.

A parceria chegou a fazer sucesso, mas a inflação continuava prejudicando o sistema de crédito, sem falar na mudança no comportamento de compra e moda do público. Conseqüentemente, a Bemoreira-Ducal entrou em decadência. À medida que o grupo saía da mídia, as lojas começavam a ser fechadas, uma a uma. A última, localizada no município de Duque de Caxias, no Estado do Rio de Janeiro, foi desativada em 1986.

Fonte: Reportagem Ducal - Agosto de 1965, cópia de um informativo institucional gentilmente cedida por Paulo Afonso de Carvalho, irmão de José Vasconcelos, quando o entrevistei para pesquisar para fazer a minha monografia de publicidade. Meus agradecimentos e cumprimentos a ele.
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segunda-feira, 4 de agosto de 2008



A Dica da Segunda desta semana é a minha participação na revista virtual portuguesa de micronarrativas Minguante. Neste número 11, a minha quarta participação é com o conto A Lâmpada Mágica. Clique na foto.

Para ver outros textos, como o do nosso colaborador Dudu Oliva (que está presente como Eduardo Oliveira Freire), clique em: http://www.minguante.com
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domingo, 3 de agosto de 2008

Por Ed Santos

Enquanto tomo um café em pé, colado no balcão, vejo em sã consciência que as pessoas por aqui, não andam, elas perambulam. Sim, perambulam, com suas frivolidades e de mãos dadas à inocência de quem incansavelmente espera na fila para uma foto com o Papai Noel. E pagam por isso. Uma foto ao lado do velho bonachão de barbas brancas custa cinco reais.

Engraçado como as pessoas estão ansiosas e ao mesmo tempo pacientes. Umas ficam por aqui, horas paradas na fila, outras, horas andando pra cima e pra baixo, perambulando mesmo. Enquanto dou minhas goladas, um casal, que já passou por aqui umas duas vezes em menos de cinco minutos, continua sua ronda, e acho que eles ainda vão passar por aqui outras vezes. Eles talvez estejam a fim de tirar uma foto com o Papai Noel, mas estão sem paciência para enfrentar a fila, ou simplesmente estão perambulando mesmo.

A moça que pagava um café aqui do lado, espera pra ser servida, enquanto a crise do petróleo e a prisão do chinês contrabandista, são os ícones da imagem projetada nas telas espalhadas pelas prateleiras da loja em frente. Será talvez que os enfeites da árvore de natal são de origem desconhecida? O casal dá mais uma volta por aqui. Pura apatia, enquanto a mulher toma o último gole do seu café, e sai.

Eu fico por aqui a apreciar um pouco mais o movimento(?), sem saber ao certo se vou entrar naquela fila e dar um abraço no Papai Noel, ou se saio por aí à vaguear pelos corredores sem me importar com o amanhã.

A indecisão não me seduz e resolvo então sair e andar (ou será perambular?) um pouco. Saí sem compromisso daquele café e caminhei em direção a lugar nenhum, apenas andei. Continuava a minha observação, agora de outro nível, mas com a mesma sensação de perceber as pessoas e seus comportamentos. Não consigo me lembrar de muita coisa, apenas lembro que em dado momento, dei de cara com a mulher que estava tomando café no mesmo local que eu. Ela estava saindo de uma loja. Vi-me, então, interessado apenas em observar àquela mulher, cada passo que dava.

Ela me pareceu a única diferente naquele local, não estava andando por aí sem destino, parecia ter um objetivo definido. Seus passos eram firmes e ela seguia determinada. Eu acompanhava com olhares, só de longe. E ela continuava na sua caminhada. Em alguns momentos diminuía a velocidade, e parecia que ia parar, mas continuava o percurso. Nem ela e nem eu olhávamos para os lados, ela dedicada em sua trilha, eu dedicado em saber aonde ela iria.

Só percebi onde estava quando ela parou em uma fila, e ali ficou. Eu, pra disfarçar e não me deixar perceber, parei pra tomar outro café, e fiquei ao longe. Alguns minutos passaram, um homem acompanhado de uma linda menina se aproximou da mulher e lhe deu um beijo no rosto. Ela abaixou, beijou a linda menina, e continuaram ali naquela fila. A menina não escondia a ansiedade de registrar em foto a felicidade de ver o Papai Noel de perto. O movimento lá fora continua, e meu segundo café já está frio. Aquele casal que dava voltas por ali, agora estava também naquela fila. Talvez tenham deixado de lado a impaciência, ou talvez não queiram mais perambular por ai.
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sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Dudu Oliva

Paulinho muitas vezes não sabia os nomes das coisas, mas sentia. Era uma tarde quente, a mãe como de costume foi buscá-lo na escolinha. Quando ia atravessar à rua, encontrou uma menina. Não sabia o porquê de seu pequeno e selvagem coração pulsar mais forte e de um desejo súbito de ir ao encontro da garota. O sinal estava fechado, ele largou a mão da mãe e se aproximou da menina. Disse instintivamente: - Quer ser minha amiga – dando-lhe uma bitoca na boca. Sentiu um gosto de doce: "Gostoso, a boca dela parece bala", pensou. Os lábios da menina estavam melados de pirulito, que havia comido na sobremesa depois do lanche.O sinal ficou verde, a mãe do Lúcio o pegou e o repreendeu . Mas no fundo estava emocionada: " Como ele é carinhoso..."A outra mãe não ligou muito, tinha pressa para preparar um jantar gostoso. O marido ia chegar de viagem. As duas crianças se despediram com rápida troca de olhares. Sabiam desde já que nunca mais se veriam.

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http://dudv-descarrego.blogspot.com/
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