domingo, 20 de julho de 2008

VAGÕES DE CONTENTAMENTO

Por Ed Santos

Abriu a gaveta, pegou o MP3 e saiu em direção à lixeira para deixar algumas sacolas, depois ficou batendo papo com o porteiro até a ela chegar. Ele ia se encontrar com um parceiro de projetos e ela, tinha se programado pra sair sem muito compromisso e passear pela cidade. Ele não sabia a que horas voltaria e ela até deixou o relógio em casa. Desde que a filha nasceu ela nunca mais tinha saído assim sem preocupação com o horário e sem se preocupar com o que fazer para o almoço.

Eles foram a pé até a estação de trem contemplando o sol daquela bela manhã de inverno e desfrutaram mesmo daquele momento rápido de estarem juntos, só os dois a andar pela calçada da rua com asfalto em reforma.

Se não fosse a Daniela que parou pra bater papo com o casal, não teriam perdido o trem que viram sair assim que chegaram na bilheteria da estação, mas não se importaram com isso. Pela primeira vez na vida de casados não estavam com pressa, aliás, a pressa é uma das grandes inimigas do homem moderno. A gente vive correndo pra cima e pra baixo sempre sem tempo pra nada. Nos preocupamos com a falta de tempo afirmando que dele somos escravos. Somos escravos dos nossos compromissos, isso sim. Não sabemos dizer não, e sempre estamos com muitas coisas pra fazer ao mesmo tempo. Mas se não for assim, como seria então?

Até estranharam quando entraram no trem sem serem empurrados pelos eternos apressados do horário de pico, e sentaram-se um ao lado do outro. Coisa rara de acontecer, também. Ela viu várias pessoas lendo e disse ao pé do ouvido dele: ”Putz! Faz tempo que não leio nada!”. Ele abriu a pasta, puxou um livro deu pra ela. Ela folheou e depois de algumas palavras disse que achou bom, cheio de rima. “É o Bandeira, o Manoel. Esse é muito bom mesmo. Lê esse outro aqui, você vai gostar”. Ela leu. “Caramba! Ele não usou nenhuma pontuação! Achei legal”. Haroldo de Campos, excerto das Galáxias.

O dia passou que nenhum dois percebeu. Ela ligou e disse que já estava indo embora, e ele respondeu que iria demorar um pouco mais, mas o compromisso da noite estava de pé. Festa na casa do Marcos. Ele terminou o que tinha de fazer com o parceiro de projetos, e foi até a estação pegar o trem de volta. Ligou o MP3, pôs os fones, e leu alguns poemas. Ficou tão concentrado na leitura, que a viagem não demorou nada pra chegar no seu final. Desceu do trem mais queria terminar pelo menos aquele capítulo. Sentou-se num banco da plataforma e continuou lendo até o final da página 107, depois saiu andando, de novo sem pressa ouvindo “Yes”. O Marcos era um cara legal não iria se incomodar se ele chegasse atrasado na festa.

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