quarta-feira, 2 de julho de 2008

RESENHA DA QUINZENA - AOS MEUS AMIGOS


Comparação Inevitável
Por Gustavo do Carmo


Começo esta resenha fazendo uma correção. Em fevereiro, quando dei aqui a minissérie da Rede Globo Queridos Amigos como a Dica da Segunda, disse que a produção foi baseada no livro Aos Meus Amigos, da mesma autora Maria Adelaide Amaral. Errei. Na verdade, a minissérie foi apenas inspirada na história do livro. E que inspiração!

A adaptação foi totalmente diferente. Bem melhor. Mais dinâmica. Não quero julgar o trabalho da novelista, mas ela parece ter reconhecido que a roteirização (sugerida às pressas depois do cancelamento de uma produção épica que teria o mesmo ator Dan Stulbach) merecia mais ação. Do livro escrito em 1992 e relançado este ano por causa da minissérie, foram usadas a época (o ano de 1989, que marcou a redemocratização definitiva do Brasil e a queda do comunismo), a maioria das personagens e poucas cenas, é verdade. No entanto, é maioria porque não foram todos. A Globo não utilizou os personagens Adonis e Caio Senise. Este último foi condensado no anti-social Benny, interpretado por Guilherme Webber. Já Ucha, antiga namorada do protagonista, de loura, coroa e de descendência dinamarquesa, virou uma jovem morena e brasileiríssima do nordeste, chamada Karina. Só a beleza e a decadente carreira de modelo permaneceram praticamente as mesmas.

A primeira diferença da minissérie para o livro é o mote da trama. Neste, o suicídio do protagonista Leo reúne todos os seus amigos para o seu velório e cremação. E a ação fica quase toda concentrada neste ritual. As histórias e vivências das personagens são contadas pelo narrador em forma de pensamentos. Algumas foram encenadas com mais destaque na produção televisiva que também inventou outras. Esta transformou o suicídio de Leo em um almoço de reencontro. Leo descobria que estava com uma grave doença e pediu para reunir todos os seus amigos durante um fim-de-semana em sua casa. Esses amigos, para ele, eram uma família. Mas a união praticamente já não existia, e acabou expondo rusgas e traumas do passado entre os coadjuvantes. Um dia depois, Leo desaparecia em um acidente de carro, simulando um suicídio (no livro ele se jogou pela janela do seu apartamento) para reaparecer, aos poucos, nos momentos mais difíceis de seus queridos amigos. Ao contrário da obra escrita, em que o protagonista tinha um caráter deprimido e pessimista, visto com mágoas e pena pelos amigos. Na televisão, sua verdadeira morte, ocorrida no final, foi natural e poética.

Confesso que li o livro pensando na minissérie e esta visão pode ter me viciado na leitura. Mas terminei de ler um mês depois do encerramento de Queridos Amigos e já tinha me livrado das referências visuais. Independente disso, os diálogos rápidos e curtos do início davam a impressão de que teríamos um texto leve, de leitura agradável e com muitas ações. Porém, a narrativa permaneceu densa demais, com conversas demasiadamente factuais e melosamente românticas e idealistas, repetidos em excesso, principalmente pelo trio Lena, Ivan e Tito. O diferente perfil dos personagens, o segundo tema central e a outra única ação que ocorre na história não vou contar nesta resenha porque é tornar Aos meus amigos ainda mais desinteressante.

SOBRE O LIVRO

Aos meus amigos
Maria Adelaide Amaral
Editora Globo
1992 com reedições em 2002 e 2008
Formato (a x l): 21x14 cm
336 páginas
Preço sugerido: R$ 23,00

Um comentário:

Álvaro disse...

Oi Gustavo, Assisti a minissérie Queridos Amigos e estou lendo o livro. Achei estranho quando vi o personagem Adonis e só me vinha na cabeça a imagem do ator Otávio Muller.
Como vc disse, é difícil não associar os personagens do livro as referencias visuais. Mais por ter gostado muito da Minissérie fico a cada dia mais instigado em ler o livro.

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