sábado, 26 de julho de 2008

FELIZ ANO TAL

Por Gustavo do Carmo

Qual a finalidade dessas camisetas que anunciam o ano novo? Fazer uma pergunta dessas pode ser uma idiotice e a possibilidade se torna certeza na época do réveillon. Mas e depois que o ano já chegou, as festas acabaram, o carnaval passou e o usuário das tais volta ao batente para viver o ano que carregou no peito durante o réveillon? Será que essas camisas Feliz Ano Tal têm finalidade depois da passagem de ano? Bem, mesmo assim, a pergunta ainda é imbecil: a camisa serve para vestir, cara pálida!

A minha mãe tem uma dessas. Toda branca, com a estampa 2003 bordada na mesma cor desenhada simulando a espuma do champanhe. E tem algum brilho de purpurina. De vez em quando ela usa em casa. Lembro que ela comprou em Cabo Frio. Comprou depois do réveillon. Portanto, para ela, foi apenas uma camisa nova com uma estampa qualquer. A sorte é que 2003 foi um ano muito bom para nós. O ano em que o meu pai comprou o nosso apartamento de Cabo Frio. Uma coincidência feliz. Neste caso, não poderia ser mais apropriada. E se o ano tivesse sido ruim? Será que ela teria coragem de usá-la ainda? Será que eu teria coragem de vê-la com essa camisa?

Muitos não devem ter tido um 2003 bom. Para alguns, 2003 pode ter sido um ano péssimo. O ano em que morreu um parente próximo. O ano em que o negócio que prometia ser lucrativo fechou. O ano da demissão. O ano do despejo. Ficaria até com medo que algum louco traumatizado atacasse a minha mãe por causa disso se a visse com a camisa Feliz 2003. Felizmente isso nunca aconteceu. Se alguém que não teve um bom 2003 viu a camisa deve ter abaixado a cabeça, mudado de calçada, guardado suas más lembranças para si ou simplesmente não ter reparado. Afinal, a estampa era branca. Ou será que rogou uma praga? No ano passado, a minha mãe fraturou o ombro exatamente em Cabo Frio e ficou seis meses de molho.

De qualquer maneira, ela não usa mais essa camisa na rua. Seria felizmente ou não faz diferença? A camisa velha que anunciava o ano novo já foi aposentada mesmo. Está até esquecida no armário lá de Cabo Frio.

Posso estar mentindo só de escrever este texto, mas não tenho nada contra quem usa essas camisas feliz ano tal. Não direi que nunca vou usá-las, só que eu não gostaria de comprar uma para mim. Acho que é uma estampa que sai de moda rapidamente e serve apenas para ficar guardada na lembrança e identificar o ano da fotografia do réveillon. Está aqui a minha resposta para a primeira pergunta da crônica. Para quem a usa depois da virada do ano e dos próximos não vou criticar por vestir o passado. Vou sempre entender que não tinha outra para vestir, teve um ano excelente ou é apenas uma camisa. Mico, mesmo, são aqueles óculos grandalhões que anunciam o ano tal.

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