sábado, 20 de março de 2010

POR ONDE ANDA?


Por Gustavo do Carmo


Em um sebo imundo e escuro na Praça Tiradentes, cercado por revistas antigas e empoeiradas, Orlando agachou-se muito de mau jeito para folhear as raridades que estavam ao pé da estante, praticamente no chão. Tinha que encontrar, entre duas pilhas de quase um metro de publicações com mais de quarenta anos, reportagens ou anúncios sobre uma loja de eletrodomésticos existente na época, já extinta atualmente.

Orlando pesquisava para a monografia de conclusão do seu curso de publicidade. Prometeu ao orientador produzir um histórico sobre a empresa e ressuscitá-la ficticiamente, elaborando um plano de marketing completo, desde o planejamento até a criação das novas campanhas publicitárias, novos layouts, etc, além de traçar as estratégias de mídia.

Não achava nada. A rede de varejo parecia existir só na cabeça dele, embora fosse muito famosa. Acabou se distraindo com as pérolas que encontrava no acervo. Viu logomarcas antigas de grandes empresas. Descobriu uma empresa que parecia ser nova, mas já tinha mais de setenta anos. Encontrou entrevistas de celebridades mortas há anos contando os seus planos para o futuro. Localizou atrizes que hoje são avós, iniciando a carreira com rostos virginais, assim como jogadores de futebol, há muito tempo aposentados, frágeis de tão novatos, mas já posando no time campeão. E até princesas, hoje entrando na meia idade, nascendo.

Aliás, falando nisso, achou uma revista, cuja matéria de capa mostrava um parto em detalhes, documentado em fotos bem grandes. Da preparação do enxoval, semanas antes do nascimento, até o bebê ser entregue, pela enfermeira, à mãe de primeira viagem.

A revista era dos anos sessenta. A gestante parecia ser uma modelo fotográfica ou atriz de fotonovela. Branca, cabelos lisos, negros e presos naquele coque clássico, com franja e uma mecha caindo para o rosto, maquiagem da época tão pesada que a sombra e os cílios, aparentemente postiços, pareciam esconder os seus lindos olhos verdes. A não ser pela protuberância da barriga, seu corpo era magro e estava protegido pelo vestido tubinho lilás. Orlando não leu a reportagem, mas acreditou ser, de fato, uma modelo e atriz porque fazia tantas caras e bocas, principalmente na hora da anestesia.

O pai do bebê só aparecia de terno e gravata. Era um homem claro, de cabelo com corte quadrado - típico daquela década - e físico forte, mesmo se estivesse sem o traje social. Devia ser bem rico, pois a casa do casal, mostrada no momento da saída para a maternidade, era grande, bela e havia um jardim esmeraldino.

Orlando deixou a monografia de lado e concentrou-se na leitura da matéria. O texto confirmou tudo o que ele acreditava. A mulher era uma modelo fotográfica de reclames publicitários em revistas e jornais. Casou-se com o diretor de uma petrolífera francesa instalada no Brasil. A revista ainda trazia as fotos dos pais do marido, um casal aparentando setenta anos, que provavelmente já deve ter morrido, e da mãe da moça. Os futuros avós paternos tinham cabelos grisalhos e estavam sorrindo. O senhor ainda ostentava um ralo bigode branco, enquanto a senhora usava aquele coque tipo coroa. Já a avó materna tinha o mesmo penteado da filha. Era mais nova que a mãe do rapaz. A cor dos seus fios eram castanhos claros, que a deixavam com uma aparência de sessenta anos. No final da foto-reportagem, todos posaram felizes com a criança recém-nascida no colo. Pela legenda, a modelo tinha dado à luz um menino.

Orlando, a partir de então, ficou extremamente curioso para descobrir como estaria esta família feliz nos dias de hoje. Calculou que o bebê já estaria com uns quarenta anos. Deve ter sido uma criança rica e mimada, mas alheia aos anos de chumbo daquela década de setenta. Adolescente, teria ido ao Rock in Rio I com um grupo de amigos, entre eles uma bela menina e a beijado ao som de Love Of My Life, de Freddie Mercury. Talvez casou-se com ela alguns anos depois, já formado em administração de empresas e milionário como o pai. Deve ter sofrido um pouco com o confisco da poupança em 1990, mas se recuperado com o Plano Real.

Na pior das hipóteses, pode ter sido um adolescente rebelde que brigou com os pais e fugiu de casa nos anos oitenta. Amadureceu, arrumou um emprego simples, foi crescendo, abriu um comércio na zona norte ou na baixada fluminense e leva vida de classe média, lutando com o filho mais novo, que quer ser artista, para assumir o negócio.

Orlando separou a revista com o nascimento do bebê, guardou as outras revistas na estante e levantou-se. Foi até o balcão e a comprou por dez reais. Colocou-a em baixo do braço e seguiu em direção ao ponto de ônibus. A monografia já estava esquecida na cabeça. Ficou obcecado pelo paradeiro atual do casal feliz, seu bebê e seus pais. Pegou o coletivo.

Agora pensa que a bela modelo pode ter morrido de alguma doença incurável. O pai, ou já se casou novamente com uma mulher mais nova, ou criou o filho sozinho, assumindo também o papel da mãe. Pode ter acontecido o contrário. O menino também poderia ter brigado com o pai ao assumir-se gay e o rico diretor da empresa petrolífera teria expulsado o filho de casa.

Orlando chegou em casa. A primeira coisa que fez foi procurar o sobrenome da família na internet. Diante de dezenas de milhares de respostas, decidiu pesquisar pelo repórter e o fotógrafo da revista, já que a publicação não existe mais. Era impossível ligar para os telefones da redação anunciados no expediente, pois os números ainda eram de seis dígitos.

Correu até a faculdade e perguntou para um professor de jornalismo se ele conhecia o repórter ou o fotógrafo que fez a matéria. O professor disse que não, mas conhecia o editor da revista. Já falecido. Orlando ainda insistiu se ele conhecia a família do tal editor, mas o catedrático afirmou que não tem mais contato com os filhos dele.

O jovem estudante decidiu procurar na biblioteca o nome de cada um dos funcionários da revista. Quando estava no computador, foi abordado por seu orientador, que lhe perguntou como estava indo o trabalho.

— Estou pesquisando, professor.

O orientador vê a revista sobre a mochila de Orlando e pergunta:

— Que revista é essa?

— Ah, eu achei uma matéria interessante nela e me bateu uma curiosidade para saber como está esse bebê que nasceu na reportagem de capa.

O professor era compreensivo, mas reclamou:

— Fala sério, Orlando! Você precisando fazer o seu projeto experimental e ainda fica preocupado com uma reportagem qualquer? Para que você quer saber disso? Deixa pra descobrir depois de entregar o projeto, pôxa! O tempo está passando e até agora você não me apresentou nem o projeto de monografia.

— O senhor tem razão, professor. Vou me concentrar no nosso trabalho.

Enquanto o orientador se levantava para ir embora da biblioteca, Orlando pergunta se ele conhecia algum dos jornalistas da tal revista. O professor deu o telefone de um amigo que trabalhava na publicação. Imediatamente, Orlando ligou do seu celular, mas ninguém atendeu.

A busca pelo paradeiro do bebê tornou-se uma obsessão. A monografia da publicidade acabou ficando em segundo plano. Orlando já não dormia mais. Passava horas pesquisando pelo repórter Alanílson Guedes ou pelo fotógrafo Genival Pedreira. Visitando as redações de todos os meios de comunicação da cidade, descobriu o telefone de um ex-estagiário da revista. Ligou para o agora senhor em um péssimo momento: ele havia acabado de falecer, fulminado do coração.

Desistiu de encontrar os jornalistas. Concentrou-se na família. Procurou a petrolífera onde o pai do bebê trabalhava. Descobriu o histórico de toda a diretoria da empresa. Achou o nome do empresário, mas não obteve maiores informações por motivos de segurança. Procurou pela agência da modelo, mãe do bebê. Nada encontrou.

Enlouqueceu. Já não dormia mais em casa. Seus pais se desesperaram de tanta preocupação. Um dia, depois de tanto andar em busca da família ou dos jornalistas, dormiu no Passeio Público. Foi acordado por um catador de papel. Orlando estava tão alucinado que perguntou ao catador se ele conhecia o jornalista, o fotógrafo, o empresário, a modelo ou qualquer outra pessoa que lhe pudesse ajudar a encontrar o bebê da reportagem. Mostrou a revista que, de tanto ser folheada, já estava mais velha do que quando a encontrou no sebo.

O catador engoliu em seco, tentou segurar a lágrima nos olhos e respondeu com a voz embargada:

— Sou eu. Nasci rico e tive até o meu parto acompanhado pela imprensa. Só que cinco anos depois, o José foi demitido da distribuidora de gasolina. Começou a beber e a jogar. Fomos morar no subúrbio. Alcoólatra, esse monstro começou a bater na minha mãe. Um dia, descobriu que eu não era o filho dele. Não bateu nela. Matou de vez com um tiro no pescoço. Foi preso. Morreu de cirrose na cadeia. A minha mãe era filha única. Minha avó morreu de desgosto. Os pais daquele homem já eram falecidos na época do crime. Meus tios não quiseram me cuidar por eu ser bastardo. Fui para o orfanato. Fiquei jogado lá, não me deram estudo e saí de lá quando fiquei adulto. Não me deram nem emprego depois que eu cresci. Comecei a catar papel para sobreviver.

Orlando ainda teve tempo de perguntar pelos repórteres que fizeram a matéria. O catador de papel se descontrolou:

— NÃO ME FALE DAQUELES SAFADOS!!!! QUANDO PRECISEI DELES NUNCA ME DERAM A MÃO!!!! AINDA BEM QUE JÁ MORRERAM!!!!

Orlando ouviu tudo o que queria. Acordou na biblioteca da faculdade, acariciado por Gisele, sua colega de faculdade e namorada. A moça viu a revista antiga com o bebê na capa e perguntou intrigada:

— Onde você achou a revista que mostra o nascimento do meu pai?

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