domingo, 13 de abril de 2008

Impaciência tolerada

Ed Santos


Uma amiga esses dias me contou a seguinte história:
“Pensei que era porque eu era mulher, mas prestando bem atenção, percebi que não acontece só comigo não, graças à Deus! A coisa é generalizada, e acontece com qualquer um.

Porque quando você está parado no farol, sempre tem um que buzina quando acende a luz verde? Não é incrível a coincidência? Pode prestar atenção. Acendeu o verde uma buzina toca. Isso quando não tocam várias ao mesmo tempo.

Estava eu indo pra casa depois de ir ao mercado, calma e tranqüilamente. Botei lá um CD do Caetano: ‘Fonte de mel nos olhos de gueixa...’, adoro o Caetano, e fui em disparada. Virei a esquina e mais um cinqüenta metros um semáforo fechado. Tudo vermelho. Parei, olhei no retrovisor, arrumei o cabelo e pensei que deveria procurar um dermatologista, pois minha pele estava horrível.

Cantarolava em dueto com o Caetano, mas com os olhos firmados na sinaleira. Engraçado como nessa hora você percebe as coisas. Vê os detalhes ao seu redor. A calça que o garoto estava usando tinha um buraco no joelho, mas só numa perna a outra estava normal, percebia-se que ele havia feito aquilo de propósito, ou rasgou sem querer, mas não era o modelo da calça. Onde já se viu, uma calça rasgada apenas numa perna? As paredes daquele bar estão precisando de uma mão de tinta... À minha esquerda os carros saem de uma via transversal e entram na via onde estou parada, mas a quantidade de carros é tanta que quando o semáforo fica verde, eu ando apenas uns dez metros e paro de novo. Tome mais buzinaço no ouvido. O Caetano se estivesse ao vivo pararia o show e teria pedido silêncio.

Já estava na terceira música do CD, mas ainda sem pressa e muito atenta ao trânsito. Era o segundo farol fechado que eu encontrara no caminho, e agora devia ter uns três ou quatro carros na minha frente. O verde aparece de novo, e o indelicado que estava atrás de mim dispara aquele som terrivelmente ensurdecedor. Poxa, não percebe que não adianta buzinar? Tá tudo parado! Enfim saímos e até com progresso, mas havia um último semáforo até que eu saísse daquela via e seguisse pra casa. Agora o percurso tinha se transformado numa via de duas pistas, e o cara que havia buzinado pra mim no semáforo anterior estava ao meu lado. Olhou pra mim, deu um sorriso e acenou com a cabeça. Eu aumentei o rádio e arrumei o cabelo de novo, e me distraí com os acordes da música que acabara de começar: ‘Debaixo dos caracóis dos seus cabelos...’, a trilha sonora daquele dia estava perfeita.

O farol abriu e quando olhei pro lado novamente, o cara deu um sinal de tchau no mesmo momento em que outro carro buzinou pra ele acordar e seguir. Quando foi sair, deixou o carro morrer, e ficou lá atrás. Simplesmente engatei uma primeira e saí olhando pelo retrovisor e ouvindo dois sons diferentes, um era o som das buzinas que soavam enlouquecidas para o cara que estava lá atrás atrapalhando o trânsito, o outro era mais uma vez o Caetano cantarolando no meu ouvido: ‘Alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João...’. Vai entender esse trânsito louco, né?”

Um comentário:

Gustavo do Carmo disse...

Parabéns pela crônica, pela sua estréia e seja bem-vindo!

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