sábado, 29 de março de 2008

ENTREVISTA - CELAMAR MAIONE


Por Gustavo do Carmo


O Tudo Cultural tem o prazer de inaugurar o seu tão desejado espaço para entrevistas. Por enquanto elas serão esporádicas. O projeto é torná-las mensais, publicadas no último domingo de cada mês.

A nossa primeira entrevistada é a radialista e jornalista (registrada nos dois sindicatos) Celamar Maione, cujos contos (há quem os considere como crônicas) são publicados todas as segundas-feiras no espaço Literário do site Comunique-se (infelizmente, só para cadastrados). Seu estilo lembra tanto um famoso dramaturgo que ela já foi chamada de "Nelson Rodrigues de saias". Eu gostaria de chamá-la de também de escritora, mas Celamar ainda não se considera uma, o que, para ela, só acontecerá quando publicar seu livro.

Fale da Celamar radialista e da Celamar escritora.
Fiz Comunicação Social na FACHA e Letras na Estácio. Letras não terminei. Comecei estagiando na Rádio Tupi e fui contratada como produtora executiva. Em seguida, fui para a Rádio Globo e fiquei um ano, também como produtora. Logo depois trabalhei na Rádio Tropical como repórter, cobrindo escolas de samba. Retornei para a Tupi onde fiquei seis anos. Voltei para a Tropical. Trabalhei também na FM O DIA como Produtora e Redatora. Novamente Tupi. Saí. Dei aula de Telemarketing. Voltei para a Tupi. E depois Nova Brasil Fm, onde fiquei pouco tempo. Fiz reportagens de carnaval na Tropical e na Tupi. Meu último carnaval foi em 2006. (...) Escritora, eu ? É uma honra ser chamada de escritora. Só me considerarei escritora quando tiver um livro. Sou uma jornalista que ama literatura.

O que te motivou a escrever as suas crônicas e poesias?
Poesia eu escrevo desde adolescente. Sou péssima poeta (nem me fale), escrevo para me distrair. Já as crônicas, durante seis anos escrevi para a Rádio Tupi AM histórias policiais , reescrevia cartas dos ouvintes desabafando, além de cartas de amor e até histórias de terror. Sempre tive boa imaginação. Crio histórias, primeiro, na minha cabeça. Até de madrugada, durante minhas insônias. Quando sento na frente de um computador, já sei o que escrever. Não saberia ficar olhando para uma tela vazia, imaginando como começar. Escrevi crônicas porque era meu trabalho na rádio. Se não fosse por isso, talvez não escrevesse. Eu tenho que ter um motivo para escrever. Caso contrário, escrever pra quê?

A vontade de ser escritora começou em que fase da sua vida?
Não pensei em me tornar escritora um dia. Penso agora. É difícil ser escritor no Brasil. Aliás, é difícil ser qualquer coisa ligada a cultura. Uma pesquisa encomendada pelo Sistema Fecomércio - RJ mostrou que 55 por cento dos brasileiros não foram ao cinema, ao teatro, a exposições ou leram livros no ano passado. (Revista O GLOBO DE DOMINGO - dia 23) É desanimador, não acha? No Rio de Janeiro até o mosquito da dengue ganha mais notoriedade do que escritor. É a grande estrela do momento. Até a bunda, preferência nacional, perde pro aedes.

Por que você resolveu escrever. O que te move? (Pergunta da colaboradora Rachel Souza)
Tenho imaginação fértil. Escrever é dom. Preferia ter facilidade para a matemática. A matemática é pragmática. O mundo é dos racionais. O ideal é mesclar imaginação, criatividade e razão. Até para amar temos que ser racionais. Confesso, porém, que ás vezes, dou uma de Cazuza, sou meio exagerada.

Como o jornalismo influenciou no seu modo de escrever literatura? (Pergunta do colaborador Dudu Oliva)
Gosto de falar de crimes e obsessões. O lado negativo do ser humano é uma fonte rica para a literatura.


As suas crônicas de segunda-feira no Comunique-se lembram os contos do Nélson Rodrigues. Perguntar se ele te inspirou é redundância. Mas você já se inspirou em outro escritor?
A minha maior inspiração é o ser humano, suas paixões, mazelas, taras e obsessões. Temas preferidos também pelo Nelson Rodrigues. Gosto dele desde os onze anos de idade. Aprendi a gostar de ler com ele. Impossível não sofrer influência. A dor o tornou um grande escritor.

Além de Nelson Rodriges, qual o autor que você gosta de ler? (Pergunta do Dudu)
Machado de Assis. Li todos os livros dele. Ele escreve sobre loucura, ciúme e paixão de maneira primorosa. Três temas que me fascinam. Capitu não traiu Bentinho (risos). Gosto muito do Rubem Fonseca também. Narrativa rápida. Irônico. Surpreendente. Quando estou triste Machado, Rubem e Nelson são melhores do que analista. Eça de Queiroz também é ótimo. Leio outros escritores, também, claro. Ler enriquece.

Como você prepara os seus textos para o Comunique-se?
Toda semana mando um ou dois textos para o editor do Literário, Pedro Bondaczuk. Ele é o responsável pela escolha. O Pedro tem todos os meus textos. Ele conhece meus pontos fortes e fracos. Ele foi o meu maior incentivador , quando me convidou para ser colunista fixa no Literário. Se não fosse pelo Pedro, talvez não estivesse escrevendo. Escreveria pra quê? Pra deixar na gaveta? Escrevo porque tenho um incentivo para escrever. Se eu deixar de escrever, vou sentir falta, mas não morro. Escrevo para ser lida. Elogiada. Para levar porrada. É o que me motiva.

Como você concilia o seu tempo de radialista, escritora e mulher?
Sempre separei meu lado profissional do lado pessoal.

Você ainda trabalha na Nova Brasil FM? Como os seus colegas e o patrão avaliam o seu talento de escritora? E as rádios onde você trabalhou?
Não estou mais na Nova Brasil. Na Tupi, quando eu escrevia as crônicas policiais, me chamavam de Nelson Rodrigues de saia, eu achava engraçado. Dia 27 de março (quinta-feira), o Pedro Bondaczuk escreveu uma crônica sobre os dois anos do canal literário no Portal Comunique-se, e falando sobre as caraterísticas de cada colunista fixo, disse que eu era o "Nelson Rodrigues de saia". Porém, ele mesmo fez questão de frisar, que tenho estilo próprio. É uma honra ser comparada ao Nelson, mas não gostaria que achassem que o imito.

Uma vez você me disse que o seu sonho era escrever para algum jornal. Algum já fez o convite?

Rádio é microfone. Sou repórter. Gosto de falar. E como falo ! Sou extrovertida. Diferente dos escritores, né? Geralmente escritor é fechado e calado, não sou nada disso. É incrível, gosto mais de escrever do que de falar. E por quê? Simples. Escrever é um ato solitário. Tranquilo. Egoísta. Você se expõe menos. Se conhece mais. A frase não é nova, mas cabe aqui: “Escrever é um grande exercício de humildade”. De mergulho no desconhecido. De crescimento. Nunca recebi convite de jornal.

Quando teremos a antologia de contos Celamar Maione? (risos)
Quando alguma editora se interessar pelo que eu escrevo. Já conquistei alguns leitores no Literário. É plantar e esperar. A vida é um grande exercício de paciência.

Você também me disse que não era muito fã dos blogs. Mas agora tem três. O que te convenceu a entrar no mercado dos blogueiros? E como eles vão de acesso?
Mudo de idéia sem problema. Sou geminiana (risos). Ainda bem que mudo de idéia. Imagina pensar a vida toda a mesma coisa? Que tédio! Blog é uma praga, né ? Mas não divulgo meus contos nos blogs. O que aconteceu é que eu tinha um site MULHERES DESESPERADAS. A proposta era escrever sobre o desencontro amoroso de maneira bem humorada. Eu escrevia e uma amiga de São Paulo era encarregada de mexer no site. Ela desistiu. O site ficou parado. Resolvi pegar os textos e aproveitar nos blogs. Daí saiu http://www.desabafodoscuecas.blogspot.com/ , http://www.desabafodascalcinhas.blogspot.com%20/, http://www.figurasdocotidiano.blogspot.com%20/. É só distração. Sabia que o site ia bem? Foi citado na Revista Época e no Jornal HOJE EM DIA, de Minas Gerais. Não são três, são quatro blogs. Tem também o http://www.celamarmaione.blogspot.com%20/, onde coloquei as poesias. Já que elas existem, resolvi deixar lá. Arquivar. Poesia é hobby. O acesso é ruim. Acho que só eu acesso . Não faço propaganda. Não atualizo sempre. É um brinquedo. Só faço propaganda dele no orkut. Quem sabe agora , se alguém aguentar ler a entrevista , se interessa em ir até os blogs ? (risos)

Como você vê o mercado para os novos escritores?
Apesar dos vários lançamentos, a resposta ainda é ruim. Deveríamos ter propagandas incentivando a leitura. A propaganda ainda é a alma do negócio. Ler torna o homem mais questionador. Menos bruto. O problema é que o Brasil não investe nem em educação e saúde, vai investir em livro ? Em cultura? Diante do quadro de descaso com a arte e a cultura, temos que aplaudir o Comunique-se, um Portal dirigido as pessoas ligadas a área da Comunicação, que abriu espaço para a Literatura, através do Canal Literário.

Você já teve vontade de surtar? De largar tudo e tentar outras possibilidades? (Pergunta da Rachel)
Se você chama de surtar, largar tudo e tentar outras possibilidades, já surtei várias vezes. Larguei muita coisa que um dia considerei importante e que deixou de ser importante. Viver é mudar. A vida é transitória. Agora estou em surto. Tento nova possibilidade.

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